capítulo 18

1181 Words
## CAPÍTULO 18: O Resgate do Sangue (Ponto de Vista de Arthur e Beatriz Albuquerque) ### Beatriz A noite mais longa da minha vida não terminou com o amanhecer. Ela continuou no silêncio sepulcral da nossa mansão, onde cada teto alto e cada parede decorada com obras de arte caríssimas pareciam gritar o vazio que tentamos preencher por dezoito anos. Arthur e eu não dormimos. Passamos a madrugada inteira revisando os relatórios que o nosso investigador particular enviou em tempo recorde após o escândalo no baile. A confirmação da certidão de nascimento falsa de Raissa em uma cidadezinha do interior, as datas que batiam milimetricamente com o sumiço da nossa bebê, o histórico de Vicente — irmão da costureira Helena... Tudo estava ali. Preto no branco. Raissa era a nossa menina. A filha que eu carreguei no ventre, a metade que faltava no meu peito. — Mãe! Isso é um absurdo! — a voz estridente de Victória ecoou pela biblioteca, quebrando o silêncio. Ela entrou no cômodo sem bater, vestindo um robe de seda vermelho, o rosto contorcido em uma careta de desdém. — Vocês não estão realmente acreditando naquela farsa, não é? Aquela bolsista sonsa planejou tudo! Ela deve ter comprado aquela medalha em algum mercado de pulgas só para dar o golpe na nossa família! Ela quer o nosso dinheiro! Eu me levantei da poltrona lentamente. Pela primeira vez na vida, não senti o desejo de passar a mão na cabeça da minha filha. Senti uma profunda exaustão e uma clareza cortante. — Cale-se, Victória — minha voz saiu baixa, mas tão fria e firme que fez minha filha travar no meio do caminho, de boca aberta. — O que...? Mãe, você está me mandando calar a boca por causa daquela...? — Eu disse para se calar! — Arthur levantou-se logo em seguida, sua postura de patriarca impondo um respeito que raramente usava dentro de casa com a filha. Seus olhos, normalmente calmos, faiscavam de uma autoridade inquestionável. — A sua irmã foi roubada de nós, Victória. Enquanto você crescia cercada de luxo, do bom e do melhor, tendo tudo o que queria na palma da mão, a sua irmã enfrentou dificuldades que você sequer consegue imaginar. E o pior de tudo: você a humilhou. Você a perseguiu no colégio. — Ela é uma intrusa! — Victória gritou, as lágrimas de puro mimo e raiva escorrendo por suas bofetadas. — Vocês estão me trocando por uma garota do lixo! — Victória, chega! — dei um passo à frente, olhando-a nos olhos com uma firmeza que ela nunca tinha visto em mim. — A partir de hoje, as coisas vão mudar nesta casa. Acabou a futilidade. Acabaram os seus caprichos. Se eu descobrir que você dirigiu uma única palavra maldosa ou tentou fazer qualquer tipo de boicote contra a Raissa, eu mesma vou cortar todos os seus cartões, confiscar o seu carro e te mandar para um colégio interno na Suíça no mesmo dia. Você vai aprender a ter limites, nem que seja pela dor. Victória deu um passo atrás, pálida, percebendo que o seu reinado de filha única e intocável havia desmoronado. Ela deu as costas e saiu pisando fundo, batendo a porta da biblioteca. Arthur olhou para mim e segurou minhas mãos. Elas tremiam. — Estamos prontos, Beatriz? — Mais do que prontos, Arthur — respondi, limpando uma lágrima solitária. — Mas não vamos com advogados, seguranças ou com a força da polícia. Nós vamos como pais. Ela já sofreu muito com o peso do mundo. Ela precisa de carinho, de cuidado e de paz. ### Arthur O carro parou diante da casa simples de Helena. A pintura da fachada estava um pouco gasta pela ação do tempo, e o jardim era modesto, mas extremamente bem cuidado, com pequenos vasos de flores nas janelas. Era ali que a minha filha havia crescido. Longe dos castelos de mármore que eu havia construído para ela, mas visivelmente cercada por um cuidado honesto. Beatriz e eu descemos do carro sem qualquer alarde. Eu havia pedido aos seguranças que ficassem no início da rua para não assustá-la. Caminhamos lado a lado até a porta de madeira e, com o coração batendo na garganta, Beatriz bateu de leve. Alguns segundos se passaram, parecendo uma eternidade. A porta se abriu lentamente, revelando Helena. A costureira parecia não dormir há dias; seus olhos estavam vermelhos e a postura, encurvada pela culpa. Ao nos ver, ela deu um passo atrás, como se esperasse que fôssemos arrancá-la dali algemada. — Sra. Helena — eu disse, com a voz mais calma e suave que consegui encontrar. Dei um passo à frente, tirando o chapéu em um gesto de respeito. — Nós não viemos com a polícia. Não viemos para punir ou para julgar o passado hoje. Nós sabemos o que o seu irmão fez, e sabemos que você a criou com amor. Nós só queremos ver a nossa filha. Por favor. Helena olhou de mim para Beatriz, cujos olhos estavam cheios de um apelo materno tão sincero e doloroso que qualquer barreira de defesa se desfez. A costureira assentiu lentamente, com lágrimas nos olhos, e abriu espaço para que entrássemos. No centro da pequena sala, sentada no sofá com os braços abraçando os próprios joelhos, estava Raissa. Ela ainda usava uma blusa de frio simples, os cabelos dourados escovados, o olhar perdido no vazio. Ela parecia tão frágil, mas ao mesmo tempo tão incrivelmente forte. Beatriz deu um passo à frente, mas parou a uma distância respeitosa. Ela não correu para abraçá-la, sabendo que isso poderia assustá-la. Em vez disso, Beatriz ajoelhou-se lentamente no tapete simples, ficando na altura dos olhos de Raissa. — Oi, minha querida... — a voz de Beatriz saiu em um sussurro embargado, carregado de um amor que havia sido guardado por dezoito anos. — Eu sei que você deve estar muito assustada. Sei que tudo isso parece uma loucura. Nós não queremos exigir nada de você. Não queremos que você mude quem você é, ou que esqueça a vida que teve aqui. Dei um passo à frente, colocando-me ao lado de Beatriz, e olhei para Raissa com todo o carinho que um pai poderia oferecer. — Nós só queremos a chance de te conhecer, Raissa. De te dar o cuidado, o carinho e a proteção que você sempre mereceu. Nós passamos cada dia dos últimos dezoito anos procurando por você. O seu lugar no nosso coração nunca foi preenchido. Beatriz estendeu a mão lentamente, deixando-a aberta sobre o joelho de Raissa, sem forçar o toque, apenas oferecendo um porto seguro. — Você não precisa decidir nada agora, minha filha. Nós podemos ir no seu tempo. Mas, por favor... nos deixe fazer parte da sua vida. Raissa olhou para a mão de Beatriz, depois para os meus olhos, e pela primeira vez desde que toda aquela tempestade havia começado, o gelo em seu olhar deu lugar a uma onda de emoção pura. Suas lágrimas começaram a cair, mansas, enquanto ela lentamente descruzava os braços, estendendo a mão trêmula para aceitar o toque da mãe
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD