Olhei para Dominic, desejando acabar com aquela expressão séria no rosto dele. Será que ele não poderia ao menos dar um sorriso mínimo sobre o nosso pequeno sucesso na missão?
— Tradição, huh? — provoquei, tentando quebrar o clima.
— Precisamos treinar sua atenção em campo. Você nem percebeu que ela estava nos olhando — ele respondeu sério.
— Provavelmente estava chocada com a grandiosidade dessa casa. Sério, precisava ser tão extravagante? — comentei, apontando para o luxo que nos cercava.
Dominic deu de ombros e continuou como se não fosse nada:
— Eles são ricos, Miranda. Se queremos nos aproximar, temos que ser como eles.
Decidi explorar a casa, deixando para trás a sala ampla e seguindo diretamente para o segundo andar. Dominic me seguiu em silêncio. Para uma casa tão grande, eu esperava encontrar mais quartos, mas apenas dois estavam disponíveis. Abri a porta do primeiro e fiquei boquiaberta.
Olhei para a suíte gigantesca, como se tivesse saído de uma revista de decoração, e confesso que fiquei deslumbrada. Era incrível. Mas minha atenção foi capturada pelas portas laterais, e decidi investigá-las.
Para minha surpresa, deparei-me com um closet espaçoso. Retiro o que disse antes; aquela suíte não era apenas incrível, era perfeita. Saí de lá pisando nas nuvens e segui para a segunda suíte.
A segunda suíte não possuía um closet, mas não perdia em nada em classe. A agência realmente havia sido generosa.
— Você pode ficar com a suíte principal. Eu fico com essa — sugeri, olhando para Dominic.
Ele desviou o olhar de baixo para cima e encontrou meus olhos. Parecia ter dado uma checada discreta no meu traseiro. Ora, ora... Parece que ele não era uma estátua de mármore sem emoções afinal.
— Parceiro, você estava olhando minha b***a? — perguntei com um sorriso travesso.
Dominic ficou inicialmente vermelho, o que só provava que eu estava certa, mas logo murmurou algo ininteligível e saiu andando.
— Você pode checar se quiser, eu sei que eu chequei — gritei rindo enquanto o seguia. Era muito difícil conseguir alguma reação dele, mas quando finalmente a tinha, era tão prazeroso.
Após terminarmos de analisar a casa, que se provou igualmente maravilhosa como os quartos, não pude deixar de dar ênfase na mini sala de treino que a agência havia montado. Fiquei muito satisfeita com o que vi.
Ainda na sala, rindo da cara que Dominic fez quando o acusei de olhar minha b***a, ouvimos a campainha tocar. Dominic me lançou um olhar sério e foi atender. Eu me escondi na cozinha para escutar a conversa sem ser vista.
— Oh, olá? — escutei Dominic dizer incerto.
— São os novos vizinhos? — perguntou uma voz forte, com um tom curioso. — Sou Victor Pavlov, acredito que conheceram minha sobrinha Kate.
Ah, nosso alvo decidiu nos fazer uma visita. Nada como recebê-lo com grande estilo.
— Parceiro, estou te esperando para inaugurar a casa — disse, entrando na sala com uma expressão manhosa. Fingi surpresa e constrangimento ao ver Victor, e pude perceber, pela minha visão periférica, que Dominic arregalou os olhos momentaneamente ao entender o sentido das minhas palavras.
Ah, como amo meu trabalho.
Victor riu sem graça.
— Perdão, acho que atrapalhei... — ele parecia incerto sobre qual palavra usar, o que tornou a situação engraçada. Todos nós sabíamos o que ele quis dizer. — ... algo — finalizou sem encontrar uma definição melhor.
— Sou Miranda, muito prazer — disse, estendendo a mão. — E o senhor é? — perguntei, mantendo o personagem, como se eu não soubesse quem ele era, como se eu não tivesse uma pasta com todos os dados possíveis sobre a vida dele.
Victor se aproximou mais, analisando-nos, enquanto eu me aconchegava num meio abraço com Dominic, como se fosse perfeitamente aceitável estar tão próxima dele.
— Victor Pavlov, muito prazer... São recém-casados? — perguntou, curioso.
Tentei me concentrar, mas, naquele momento, com Dominic ao meu lado, só conseguia pensar: "Victor quem?"
— Noivos, mas está tão na cara? — perguntou Dominic, rindo, trazendo-me de volta à realidade.
Victor sorriu.
— Bastante. Mais uma vez, desculpe pela intromissão. É que ouvi falar de vocês, causaram uma impressão e tanto na minha sobrinha — comentou, como quem não quer nada.
— Kate? Adoramos ela — disse, sorrindo, e dessa vez foi sincero. Ela realmente parecia ser uma boa garota.
— Sim, ela é maravilhosa — concordou com afeto. — Ela também me disse que os convidou para o meu jantar de aniversário semana que vem.
— Sim, mas se o senhor não se sentir confortável, entenderemos perfeitamente. Acabamos de nos conhecer — disse Dominic rapidamente. Por que diabos ele estava dizendo isso?
Victor fez um gesto de desdém com a mão.
— Que bobagem! Eu insisto. Será um prazer ter vocês conosco — disse, sorrindo. — Então, me contem, o que fazem da vida?
— Eu sou advogado, estou abrindo um escritório aqui na cidade, e minha linda esposa aqui é engenheira — respondeu Dominic, orgulhoso ao se referir a mim. Ele era um ótimo ator.
— Um homem de palavras e uma mulher de números. Que casal mais interessante — comentou Victor, com curiosidade. — Me diga, como um casal tão oposto se conheceu? –
Ele estava fazendo muitas perguntas. Era evidente que Victor estava tentando colher informações sobre nós. Mas estávamos preparados para isso. Mantive meu sorriso e olhei para Dominic, buscando sua aprovação antes de responder.
— Conta você ou conto eu? — perguntei, mantendo um tom descontraído.
Dominic soltou uma risada suave e melódica, surpreendendo-me com sua expressão de diversão. Era difícil acreditar que alguém daquele porte poderia ser tão gracioso.
— Conta você, sei que adora essa história — respondeu, divertido.
Aproveitei a oportunidade para envolver Victor em nossa narrativa fictícia.
— Claro que sim. Conheci você nessa história, parceiro — disse, piscando para Dominic. Em seguida, direcionei meu olhar para Victor. — Eu fui até o escritório dele em Los Angeles porque tive um pequeno probleminha com a justiça.
Dominic riu, acompanhando o jogo de papéis.
— Pequeno? Miranda, você colocou fogo na casa do seu vizinho... — zombou, reforçando a história.
Era uma velha tática de agente: adicionar um pouco de verdade à mentira para torná-la mais convincente.
Bufei exasperada, interpretando meu papel.
— Foi um acidente, eu já disse... — comecei a explicar, mas Dominic interrompeu.
— Eu sei, meu amor, mas para o tribunal não foi. Para eles, foi proposital. Não ajudava em nada o fato de você viver brigando com ele... — zombou, mantendo o jogo.
— Stanley é um pé no saco, você conheceu aquele velho, tem que concordar comigo — usei um nome semelhante ao de nosso chefe, propositalmente, pois ele também era um chato às vezes. Dominic riu, dessa vez soando genuíno, como se eu realmente o divertisse. Ele entendeu minha piada.
— Eu o conheci, me pareceu um senhor bem simpático — finalizou Dominic, sendo um verdadeiro puxa-saco.
Durante toda a nossa interação, Victor ria gostosamente.
— Ok, meus amigos, já entendi. Miranda, problema; Dominic, solução. Realmente, os opostos se atraem — comentou Victor, com bom humor. — Ou se matam — acrescentou, brincando.
Nós rimos, e cheguei a pensar que, na realidade, estávamos mais próximos da segunda opção. Às vezes, Dominic parecia me odiar.
— Bom, não vou mais tomar o tempo dos pombinhos — disse Victor, se despedindo. — Vejo vocês semana que vem.
Assim que Victor se foi, trancamos a casa e só começamos a conversar com calma quando já estávamos no carro, a caminho do meu apartamento.
— Primeira impressão? — perguntou Dominic, curioso.
Refleti por um momento, avaliando a situação.
— Pavlov parece ser alguém desconfiado, fazendo todas aquelas perguntas. E mais, você notou que ele alterou sua rotina? Ele fez algo diferente hoje, nesse horário em que chegamos.
Olhei para Dominic, buscando sua confirmação, Dominic segurou o riso por um instante, apreciando minha perspicácia.
— Notei tudo isso também, mas eu estava me referindo à casa — respondeu ele, surpreendendo-me novamente.
Fiquei momentaneamente confusa, mas logo entendi o que ele queria dizer.
— Ah, a casa! — exclamei, percebendo sua referência. — Sim, a casa é simplesmente maravilhosa. Tenho certeza de que ficará ainda mais perfeita comigo dentro daquela banheira enorme. -
Ri, tentando manter o clima descontraído, mas algo na expressão de Dominic mudou. Seus olhos escureceram e seus ombros ficaram tensos. Será que eu havia dito algo errado?
— Vamos, temos que reportar tudo ao Stan e escrever um relatório — disse ele rapidamente, com o maxilar travado, enquanto dava partida no carro.
Eu hein, parceiro estranho.