Permissão para conhecer o alvo

1437 Words
Olhei para Dominic, desejando acabar com aquela expressão séria no rosto dele. Será que ele não poderia ao menos dar um sorriso mínimo sobre o nosso pequeno sucesso na missão? — Tradição, huh? — provoquei, tentando quebrar o clima. — Precisamos treinar sua atenção em campo. Você nem percebeu que ela estava nos olhando — ele respondeu sério. — Provavelmente estava chocada com a grandiosidade dessa casa. Sério, precisava ser tão extravagante? — comentei, apontando para o luxo que nos cercava. Dominic deu de ombros e continuou como se não fosse nada: — Eles são ricos, Miranda. Se queremos nos aproximar, temos que ser como eles. Decidi explorar a casa, deixando para trás a sala ampla e seguindo diretamente para o segundo andar. Dominic me seguiu em silêncio. Para uma casa tão grande, eu esperava encontrar mais quartos, mas apenas dois estavam disponíveis. Abri a porta do primeiro e fiquei boquiaberta. Olhei para a suíte gigantesca, como se tivesse saído de uma revista de decoração, e confesso que fiquei deslumbrada. Era incrível. Mas minha atenção foi capturada pelas portas laterais, e decidi investigá-las. Para minha surpresa, deparei-me com um closet espaçoso. Retiro o que disse antes; aquela suíte não era apenas incrível, era perfeita. Saí de lá pisando nas nuvens e segui para a segunda suíte. A segunda suíte não possuía um closet, mas não perdia em nada em classe. A agência realmente havia sido generosa. — Você pode ficar com a suíte principal. Eu fico com essa — sugeri, olhando para Dominic. Ele desviou o olhar de baixo para cima e encontrou meus olhos. Parecia ter dado uma checada discreta no meu traseiro. Ora, ora... Parece que ele não era uma estátua de mármore sem emoções afinal. — Parceiro, você estava olhando minha b***a? — perguntei com um sorriso travesso. Dominic ficou inicialmente vermelho, o que só provava que eu estava certa, mas logo murmurou algo ininteligível e saiu andando. — Você pode checar se quiser, eu sei que eu chequei — gritei rindo enquanto o seguia. Era muito difícil conseguir alguma reação dele, mas quando finalmente a tinha, era tão prazeroso. Após terminarmos de analisar a casa, que se provou igualmente maravilhosa como os quartos, não pude deixar de dar ênfase na mini sala de treino que a agência havia montado. Fiquei muito satisfeita com o que vi. Ainda na sala, rindo da cara que Dominic fez quando o acusei de olhar minha b***a, ouvimos a campainha tocar. Dominic me lançou um olhar sério e foi atender. Eu me escondi na cozinha para escutar a conversa sem ser vista. — Oh, olá? — escutei Dominic dizer incerto. — São os novos vizinhos? — perguntou uma voz forte, com um tom curioso. — Sou Victor Pavlov, acredito que conheceram minha sobrinha Kate. Ah, nosso alvo decidiu nos fazer uma visita. Nada como recebê-lo com grande estilo. — Parceiro, estou te esperando para inaugurar a casa — disse, entrando na sala com uma expressão manhosa. Fingi surpresa e constrangimento ao ver Victor, e pude perceber, pela minha visão periférica, que Dominic arregalou os olhos momentaneamente ao entender o sentido das minhas palavras. Ah, como amo meu trabalho. Victor riu sem graça. — Perdão, acho que atrapalhei... — ele parecia incerto sobre qual palavra usar, o que tornou a situação engraçada. Todos nós sabíamos o que ele quis dizer. — ... algo — finalizou sem encontrar uma definição melhor. — Sou Miranda, muito prazer — disse, estendendo a mão. — E o senhor é? — perguntei, mantendo o personagem, como se eu não soubesse quem ele era, como se eu não tivesse uma pasta com todos os dados possíveis sobre a vida dele. Victor se aproximou mais, analisando-nos, enquanto eu me aconchegava num meio abraço com Dominic, como se fosse perfeitamente aceitável estar tão próxima dele. — Victor Pavlov, muito prazer... São recém-casados? — perguntou, curioso. Tentei me concentrar, mas, naquele momento, com Dominic ao meu lado, só conseguia pensar: "Victor quem?" — Noivos, mas está tão na cara? — perguntou Dominic, rindo, trazendo-me de volta à realidade. Victor sorriu. — Bastante. Mais uma vez, desculpe pela intromissão. É que ouvi falar de vocês, causaram uma impressão e tanto na minha sobrinha — comentou, como quem não quer nada. — Kate? Adoramos ela — disse, sorrindo, e dessa vez foi sincero. Ela realmente parecia ser uma boa garota. — Sim, ela é maravilhosa — concordou com afeto. — Ela também me disse que os convidou para o meu jantar de aniversário semana que vem. — Sim, mas se o senhor não se sentir confortável, entenderemos perfeitamente. Acabamos de nos conhecer — disse Dominic rapidamente. Por que diabos ele estava dizendo isso? Victor fez um gesto de desdém com a mão. — Que bobagem! Eu insisto. Será um prazer ter vocês conosco — disse, sorrindo. — Então, me contem, o que fazem da vida? — Eu sou advogado, estou abrindo um escritório aqui na cidade, e minha linda esposa aqui é engenheira — respondeu Dominic, orgulhoso ao se referir a mim. Ele era um ótimo ator. — Um homem de palavras e uma mulher de números. Que casal mais interessante — comentou Victor, com curiosidade. — Me diga, como um casal tão oposto se conheceu? – Ele estava fazendo muitas perguntas. Era evidente que Victor estava tentando colher informações sobre nós. Mas estávamos preparados para isso. Mantive meu sorriso e olhei para Dominic, buscando sua aprovação antes de responder. — Conta você ou conto eu? — perguntei, mantendo um tom descontraído. Dominic soltou uma risada suave e melódica, surpreendendo-me com sua expressão de diversão. Era difícil acreditar que alguém daquele porte poderia ser tão gracioso. — Conta você, sei que adora essa história — respondeu, divertido. Aproveitei a oportunidade para envolver Victor em nossa narrativa fictícia. — Claro que sim. Conheci você nessa história, parceiro — disse, piscando para Dominic. Em seguida, direcionei meu olhar para Victor. — Eu fui até o escritório dele em Los Angeles porque tive um pequeno probleminha com a justiça. Dominic riu, acompanhando o jogo de papéis. — Pequeno? Miranda, você colocou fogo na casa do seu vizinho... — zombou, reforçando a história. Era uma velha tática de agente: adicionar um pouco de verdade à mentira para torná-la mais convincente. Bufei exasperada, interpretando meu papel. — Foi um acidente, eu já disse... — comecei a explicar, mas Dominic interrompeu. — Eu sei, meu amor, mas para o tribunal não foi. Para eles, foi proposital. Não ajudava em nada o fato de você viver brigando com ele... — zombou, mantendo o jogo. — Stanley é um pé no saco, você conheceu aquele velho, tem que concordar comigo — usei um nome semelhante ao de nosso chefe, propositalmente, pois ele também era um chato às vezes. Dominic riu, dessa vez soando genuíno, como se eu realmente o divertisse. Ele entendeu minha piada. — Eu o conheci, me pareceu um senhor bem simpático — finalizou Dominic, sendo um verdadeiro puxa-saco. Durante toda a nossa interação, Victor ria gostosamente. — Ok, meus amigos, já entendi. Miranda, problema; Dominic, solução. Realmente, os opostos se atraem — comentou Victor, com bom humor. — Ou se matam — acrescentou, brincando. Nós rimos, e cheguei a pensar que, na realidade, estávamos mais próximos da segunda opção. Às vezes, Dominic parecia me odiar. — Bom, não vou mais tomar o tempo dos pombinhos — disse Victor, se despedindo. — Vejo vocês semana que vem. Assim que Victor se foi, trancamos a casa e só começamos a conversar com calma quando já estávamos no carro, a caminho do meu apartamento. — Primeira impressão? — perguntou Dominic, curioso. Refleti por um momento, avaliando a situação. — Pavlov parece ser alguém desconfiado, fazendo todas aquelas perguntas. E mais, você notou que ele alterou sua rotina? Ele fez algo diferente hoje, nesse horário em que chegamos. Olhei para Dominic, buscando sua confirmação, Dominic segurou o riso por um instante, apreciando minha perspicácia. — Notei tudo isso também, mas eu estava me referindo à casa — respondeu ele, surpreendendo-me novamente. Fiquei momentaneamente confusa, mas logo entendi o que ele queria dizer. — Ah, a casa! — exclamei, percebendo sua referência. — Sim, a casa é simplesmente maravilhosa. Tenho certeza de que ficará ainda mais perfeita comigo dentro daquela banheira enorme. - Ri, tentando manter o clima descontraído, mas algo na expressão de Dominic mudou. Seus olhos escureceram e seus ombros ficaram tensos. Será que eu havia dito algo errado? — Vamos, temos que reportar tudo ao Stan e escrever um relatório — disse ele rapidamente, com o maxilar travado, enquanto dava partida no carro. Eu hein, parceiro estranho.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD