— Ele não deve estar longe. — Sussurro para mim.
— Okres? — Dougie acaba ouvindo graças à sua maldita audição.
— Não lhe interessa. — Me levanto e lhe dou as costas.
— É um Okres, não é? — Dougie se ergue e me acompanha. — Para de ser teimoso, Aaron! — Rosna. — Você não pode matá-lo sozinho. Nenhum deles! — Enfurecido, Dougie não se contém e se joga sobre mim, crava as presas contra minha nuca e me imobiliza contra o chão.
— O que está fazendo? — Começo a grunhir de dor enquanto tento encará-lo furioso. — Me solta seu filho de uma...
— Continue rebelde dessa maneira e o levarei para o clã onde o prenderei até que aprenda a ser um bom garoto! — Disse entre dentes.
Naquela situação odiosa não tenho alternativa a não ser voltar para a forma humana com as suas presas cravadas em minha pele ensanguentada. Fico completamente nu já que a transformação de lobo rasga qualquer resquício de pano ou vestes e sinto o gelo queimar superficialmente o meu corpo mesmo que não me incomode. O único traço que permanece em mim naquela são os meus olhos prateados que o encaram por cima de meus ombros.
Entendendo sobre minha rendição, Dougie também volta ao normal, porém, por cima de meu corpo. Ele me aquece e seu braço esquerdo envolve meu pescoço em um mata-leão. O Schmidt mantém seu outro braço apoiado no chão e continua impondo seu controle embora eu deixe claro que não lutarei mais. Não pude conter um baixo gemido quando ele retira as presas de minha nuca e a minha pele trata de se regenerar mais rápido do que deveria. Isso o intriga, mas o não o suficiente para insistir nessa questão, pois Dougie no fim das contas só quer um momento comigo depois de tanto tempo.
— Bem melhor assim, não acha? — Sua boca veio contra meu ouvido e sussurra.
Meus olhos se fecham e eu aceno. Não satisfeito, ele fareja meus cabelos e nos esquecemos por alguns segundos da pilha de morte que deixamos para trás. Sinto o seu coração bater tão forte quanto o meu e seu corpo começa a se esquentar. Posso sentir sua mão calejada me acariciar pela minha cintura até as costelas me causando uma sensação boa que me arranca um suspiro.
Eu consigo sorrir, mas me lembro que não é por sua causa.
— Etr’avex dion nia.
Uma voz soa como música para os meus ouvidos e uma mulher se aproxima coberta por uma capa n***a e um lenço que tapa o seu pescoço e o nariz deixando apenas os olhos verdes de fora. A sua mão se ergue na direção de Dougie e tudo que está proferindo lhe causa dores excruciantes a ponto de fazê-lo me soltar e rolar na neve aos gritos.
— O QUÊ... — Dougie rosna. — FAZ... — Ele saliva e agoniza. — FAZ ELA PARAR!
— Por que eu faria? — Me levanto tranquilamente. — Se fui eu quem a ordenei que começasse. — Certamente que não te dei nenhuma ordem direta, mas ela agiu por instinto ao ver seu mestre em perigo, no caso, eu. — Pode parar, Cecília. — Ela me encara e para o encantamento e só então Dougie pode respirar fundo e se recompor. — Conhece as famosas, Ferallas, não conhece? — Pergunto. — Uma capa, por favor.
Cecília retira um pano de dentro de uma bolsa de couro que levava consigo e me entrega uma capa como a que está vestindo. Eu envolvo aquele pano roxo e n***o feito de linho na minha cintura e dou um nó para me cobrir. Por mais que não me importe em ficar nu, prefiro me manter disfarçado e ocultar o meu cheiro já que não quero ser pego de surpresa e me tornar mais um dentre aquela pilha de corpos.
— Steve. — Cecília diz em um tom baixo que Dougie consegue ouvir também. — O número dez. — Continua as informações. Sua voz saía branda como se fosse uma marionete. — Ele sumiu rumo à noroeste, mas posso te levar até ele através de um feitiço localizador. — Diz ela.
— Perfeito. — Eu a ordeno: — Faça.
— Só preciso de dez minutos. — Cecília se afasta e vai em direção à pilha de corpos.
— Típico de Aaron. — Diz Dougie que se levanta e vem completamente nu em minha direção. — Usar uma bruxinha Ferallas para me tirar de cima de você! — Possessivo desde sempre, ele morde o lábio descontente por ela ter estragado o clima entre nós e me puxa pelo pulso. Dougie que é pouco mais alto que eu, se encosta em mim e sussurra: — O que você está pensando? Ainda não aprendeu a não se meter com as bruxas? Elas são perigosas, Aaron.
— Você fez curso de estraga prazeres? — Ergo o olhar para Dougie mas volto a encarar seu pulso que me segura.
Dougie e eu somos como água e vinho, yin e yang, certo e errado. Ele sempre me repreendeu e quanto mais o faz, mais eu tento decepcioná-lo de propósito. Competimos um com o outro e ele não entende que esse era meu jeito e que não o mudarei. O que sei, o que ele sempre me demonstra todas as vezes que me olha daquela forma é que ainda há esperança de aproveitar o que não conseguiu no passado, em reviver o garoto ingênuo que mataram.
Que eu matei.
— Você não manda em mim e não é porque temos a mesma idade, nascemos e fomos criados juntos que pode agir como um irmão mais velho ou o meu alfa. — Cecília nos encara de longe já que seus ouvidos apurados alcançaram a nossa discussão de relacionamento e quando eu a percebo já a repreendo: — Volte ao trabalho, bruxa!
— Foco em mim, Aaron! — Dougie me aperta mais forte e eu odiava essa sensação de controle. — Eu já te livrei de várias enrascadas. — Dougie respira fundo, me solta, mas não se afasta. — Sua maldição, a morte da Emilly, o assassinato do seu clã. Tudo isso... — Sussurra num tom mais ameno e continua: — ...tudo isso poderia ter sido evitado se você tivesse me escutado aquela noite! Não cometa o mesmo erro, eu disse que posso te ajudar e vou, mas tem que confiar em mim. — Dougie me silencia por um momento.
— Você quer mesmo me ajudar? — Paro para pensar um momento e olho diretamente em seus olhos.
Sua expressão de fato demonstra confiança e interesse, a vontade de que não quer apenas ficar ao meu lado e sim me ajudar com todo esse peso que venho carregando todo esse tempo, essa terrível profecia. Já quase não há distância entre nossos rostos e seu peitoral encosta no meu para que voltemos a nos aquecer, além disso, não preciso de nenhum sentido aguçado para sentir seu coração acelerado.
— Você sabe que sim... — Dougie suspira contra meu rosto e encosta seu nariz ao meu. — Porque eu sou a sua luz, Aaron. — Ele usa as palavras do passado para fazer o meu coração pulsar forte e me causar aquela sensação de borboletas no estômago que eu havia esquecido há muito tempo. — Se lembra? — O alfa fecha os olhos e envolve minha cintura em seus braços fortes sem me deixar escapar.
— Me lembro... — Sussurro em resposta e com os olhos fechados assim como os dele. — Me lembro bem. — Eu levo as minhas mãos até o seu rosto para acariciá-lo, mas ao invés disso eu quebro rapidamente o seu pescoço e o vejo cair no chão, morto. — E é por isso que estou apagando essa luz para sempre. — Minha expressão se torna fria ao encarar Dougie nu e debruçado na neve. — Só assim posso entrar no caminho da escuridão e nunca mais voltar. — Vou embora e o abandono como se não fosse nada para mim, o que não é verdade.
— Está pronto! — Diz a Ferallas ajoelhada sobre a neve enquanto segura um cordão com um canino de lobo pendurado coberto por magia e sangue. — Basta colocar isso no pescoço e ele o levará ao assassino dessa presa.
— Vocês até que são bem úteis, sabia? — A tomo pela cintura e a beijo nos lábios. Cecília retribui o beijo mais dedicada do que eu imagino, mas não dura muito tempo. — Agora... — A seguro no queixo e cruzo meu olhar prateado ao seu esverdeado que se contrai e dilata ao som de minha voz: — Volte ao seu clã e esqueça o que aconteceu aqui, mas continue de olho na Brianna para mim, ok? — Finalizo a ordem com um selinho.
— Sim senhor. — Ela me responde e continua: — Avisarei se ela for uma ameaça.
No calor do momento, coloco o pingente envolta de meu pescoço e me transformo.
Antes de partir, olho para o céu e vejo a lua cheia. Percebo que estou diante de descobrir muitas coisas, pois não é apenas o último do meu clã quem eu desejo assassinar. Ainda há um poderoso inimigo que me colocou nessa situação e que deverá pagar pelo que me fez, então encontrar esse tal Okres Steve, é um bom começo.
Vou embora sem esperar mais.
.
O pescoço de Dougie volta para o lugar como se fosse mágica, mas a dor continua constante e ele leva a mão até o local, massageia e tenta recobrar os sentidos aos poucos para se situar. Não me atentei que assim que eu quebrei o pescoço do Schmidt ele não voltou para sua forma de lobo, ou seja, não havia morrido definitivamente. Um lobo pode viver até mil anos se depender do tempo, da raça, do clã e de alguns cuidados consigo mesmo, mas, não é imortal a menos que haja alguma intervenção do especial do destino.
Dougie Schmidt possui mais de um instinto pelo que Alicia comentou e não os vi se manifestarem nesse nosso último encontro, a menos que encher o meu saco fosse o seu “dom” especial, o que duvido muito já que o conheço assim desde pequeno.
O instinto de Dougie é a imortalidade.
Ele então se coloca de pé e se lembra do acontecido assim que olha envolta e sente meu cheiro além de rastrear a direção para qual eu segui, entretanto, ao invés de me ir ao meu encontro, o alfa imediatamente tem a brilhante ideia de voltar à sua tribo e reunir amigos.
— Preciso de reforços... — Sussurra.
Dougie corre rapidamente em direção à sua alcateia e ele mais do que ninguém conhece os atalhos que o poupa metade do tempo até a montanha Schmidt. Rapidamente assume a sua forma de lobo para dobrar a velocidade, pois quanto menos tempo levasse para se reunir aos lobos, mais rápido poderia me salvar, como se eu de fato eu precisasse de sua ajuda.
Assim que cruza a trilha de neve oculta entre os rochedos do Alasca, Dougie salta por entre as pedras, se pendura em algumas raízes firmes e usufrui de sua força e determinação para chegar em sua tribo e ordenar aos melhores betas que o sigam e formem uma boa força numérica para me sequestrar de volta. Seus pensamentos fervem ao bolar estratégias que possam lhe ser úteis, talvez algumas armadilhas no caminho e um bom plano B, mas, antes mesmo de qualquer uma de suas suposições fazer sentido, um evento lhe chama a atenção quando finalmente ele consegue chegar na alcateia.
Todos os lobos estão na parte de fora e transformados, exceto pelas crianças que ainda não atingiram a maioridade. Eles se curvam de maneira respeitosa e cada um uiva em conjunto para a grande lua cheia, entretanto só havia duas pessoas as quais a tribo se submete a isso, ou ao próprio alfa ou a rainha, mas não por isso, já que Dougie não cobra tanta cordialidade sempre que chega em seu vilarejo, ou mesmo Alícia que vive de aparências e que adora ser cortejada.
Meio confuso e achando tudo aquilo estranho, Dougie se aproxima até conseguir enxergar próximo as chamas da grande fogueira um trono feito de madeira que foi posto ali e onde se sentavam ele ou Alícia em qualquer ritual importante. O que mais lhe chama atenção é que o corpo de Alicia está morto no chão e uma misteriosa mulher tomou a sua posição ao se sentar no trono. Ela veste couro e alguns trapos que m*l lhe cobrem o corpo, os cabelos são ruivos e o rosto sardento.
— O que significa isso? — Dougie sai de seu formato de lobo e em pouco tempo está caminhando sem roupas na direção do trono até que Javiax se aproxima.
— Alfa! — Diz Javiax. — Tenho notícias que talvez não lhe agradem.
— Alícia está... morta? — Dougie olha para o corpo caído. — Mas, como? Quem?
— Fui eu. — A mulher que está no trono se levanta.
— Quem é você? — Em todos esses anos ninguém teve força suficiente para matar Alícia. Nem mesmo as fêmeas das eras passadas, tampouco as dos outros clãs que tentaram ser mulheres alfas de Nero.
— Evellyn. — A ruiva retira o capuz. — De certo modo a ruiva lhe parece familiar, mas não pelo seu nome ou por causa do seu rosto e de seu sotaque forte. Ela tem olhos bem claros e o cheiro dela o lembram a mim. Dougie dá um passo para frente e sua expressão de surpresa só aumenta quando ela continua: — Evellyn Schneider, mas pode me chamar de 498.