O silêncio no quarto era sufocante.
Carla estava sentada na cama, encolhida, os braços envolvendo o próprio corpo como se aquilo pudesse protegê-la de tudo.
De repente—
toc toc
Ela levantou o olhar, o coração acelerando.
— Senhora… posso entrar?
A voz era feminina.
Suave.
Carla hesitou por um segundo.
— Pode…
A porta se abriu devagar.
Uma mulher entrou, postura baixa, respeitosa. Nas mãos, uma bandeja com comida.
Carla observou cada movimento, desconfiada.
— Eles pediram pra trazer o jantar… — a mulher disse, colocando a bandeja sobre a mesa ao lado — e pra eu ficar aqui com a senhora, caso precise de algo.
Carla engoliu seco.
— Eu… — a voz dela falhou — eu tentei fugir…
A mulher levantou o olhar rapidamente, assustada.
— Senhora, por favor… não diga isso alto.
Carla apertou as mãos, nervosa.
— Eles disseram que não vão me machucar… — sussurrou — mas eu não acredito… eu não acredito nisso…
A mulher se aproximou devagar… e segurou a mão dela.
O toque era quente.
Humano.
Diferente de tudo que Carla tinha sentido desde que chegou ali.
— Eu trabalho pra eles… — ela disse com cuidado — e posso te dizer uma coisa com certeza…
Carla levantou os olhos, cheios de medo.
— Nunca nenhuma mulher entrou nessa casa.
O coração dela falhou uma batida.
— Principalmente… do jeito que você entrou.
O silêncio pesou.
— Eles disseram que você… — a mulher hesitou por um segundo — é deles.
Carla puxou a mão de leve, o corpo tenso.
— Eu tenho medo… — a voz saiu quebrada — eu tenho medo de tudo isso…
A mulher assentiu, compreensiva.
— Eu sei…
Ela apertou levemente a mão de Carla.
— Os patrões… são homens difíceis. Perigosos. — disse com sinceridade — Mas… deixa eu cuidar de você, tá?
Carla hesitou.
Mas naquele momento…
era tudo que ela tinha.
— Eu te ajudo a tomar um banho… — a mulher continuou — e você tenta comer um pouco depois, tudo bem?
Depois de alguns segundos…
Carla assentiu.
— Tá bom…
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O banheiro era grande.
Luxuoso.
Mas, ainda assim… estranho.
Carla deixou que a mulher prendesse seu cabelo, os movimentos delicados contrastando com o turbilhão dentro dela.
A água quente caiu sobre sua pele.
E, por alguns segundos…
ela só fechou os olhos.
Tentando esquecer.
Tentando respirar.
Tentando… não desmoronar.
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Foi quando a mulher viu.
As marcas.
Vermelhas.
Espalhadas pela lateral da cintura… descendo levemente pelo quadril.
Não eram recentes.
Mas também não eram antigas o suficiente pra serem ignoradas.
Pareciam… queimaduras.
A mulher hesitou.
— Posso perguntar… que marcas são essas?
Carla abriu os olhos lentamente.
O olhar dela mudou.
Fechado.
Distante.
— Eu prefiro não falar disso…
A mulher assentiu na mesma hora.
— Tudo bem…
E não insistiu.
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Depois do banho, Carla saiu envolta na toalha.
A mulher a ajudou em silêncio, entregando uma camisola leve.
Simples.
Mas confortável.
Algo que, naquele lugar, parecia estranho.
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Carla voltou pra cama.
Sentou devagar.
O prato de comida ainda estava ali.
Intocado.
— Quer que eu fique aqui até você comer? — a mulher perguntou.
Carla olhou pra comida… depois pra ela.
— Sim… por favor…
Ela tentou.
De verdade.
Mas cada garfada parecia pesada demais.
Forçada demais.
No fim…
quase não comeu.
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— Meu nome é Júlia. — a mulher disse, com um leve sorriso.
Carla assentiu.
— Obrigada… Júlia…
Júlia fez um pequeno gesto de cabeça.
— Descansa, tá?
Carla apenas concordou.
Sem forças pra mais nada.
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A porta se fechou.
E o silêncio voltou.
Mais pesado que antes.
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Carla deitou devagar, virando de lado.
Os olhos fixos em nada.
A mente girando.
Rápido demais.
Tudo rápido demais.
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Horas atrás…
ela ainda tinha uma vida.
Agora…
estava presa em um lugar desconhecido, cercada por dois homens perigosos que diziam que ela era deles.
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Ela apertou os olhos.
Tentando pensar.
Tentando encontrar uma saída.
Um plano.
Qualquer coisa.
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Mas, no fundo…
uma sensação incômoda começava a crescer.
Lenta.
Silenciosa.
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Ela não sabia como tinha chegado ali tão rápido…
Mas tinha uma certeza assustadora:
Sair… não ia ser fácil.