A tarde na fazenda era abafada, o céu carregado anunciava uma possível chuva. No escritório, Inácio estava de pé junto à janela, os olhos fixos no horizonte como se procurasse respostas.
Eleonora, sentada em uma poltrona, mexia nervosamente nas mãos, o rosto marcado por preocupação e angústia.
— Inácio, você sabe que Serena pode recusar essa ideia de casamento, não sabe?
— disse ela, a voz trêmula, os olhos marejados. — E, sinceramente, talvez isso seja o melhor para ela.
Inácio se virou, o semblante duro, mas cansado. Ele suspirou profundamente antes de responder:
— Se Serena não quiser, respeitarei. Mas Alessandro precisa aprender que suas ações têm consequências. Não posso mais fechar os olhos para a maneira como ele age, sempre achando que o mundo gira ao redor de sua vontade. Passamos anos acreditando que ele mudaria, mas só piorou. Não vou permitir que a irresponsabilidade dele destrua a vida de mais alguém. E Serena… Ela é quase como uma filha para nós. O senhor Joaquim deu a vida por esta fazenda, e agora cabe a nós protegê-la.
Eleonora baixou os olhos, apertando um lenço nas mãos, lutando contra as lágrimas. Apesar de relutante, sabia que o marido tinha razão.
Mais tarde, Alessandro descia as escadas com passos firmes, mas o rosto carregado de desdém. Antes que pudesse sair, Inácio chamou:
— Alessandro! Precisamos terminar esta conversa.
Alessandro cruzou os braços, encarando o pai com ironia.
— Pensou melhor, pai? Resolveu voltar ao juízo?
Inácio deu um passo à frente, a voz baixa, mas carregada de autoridade.
— Pensei, sim. E decidi que você vai arcar com suas escolhas. Se eu souber que está tentando afastar Serena ou tratá-la m*l para que ela desista, você pagará caro. A única forma deste casamento não acontecer é se ela realmente não quiser. Fora isso, está decidido.
Alessandro riu sem humor, passando a mão pelos cabelos.
— Você só pode estar ficando louco. E a senhora? — Ele virou-se para a mãe, tentando encontrá-la como aliada. — Não vai dizer nada?
Eleonora deu um passo à frente, os olhos aflitos e cheios de dor.
— Alessandro, em nenhum momento você pensou na Serena? Na dor que isso pode causar a ela? Como mãe, meu coração sangra por ter que concordar com seu pai, mas não posso ignorar o que você fez. Serena merece respeito, e nós não podemos abandonar essa responsabilidade.
Alessandro explodiu, a voz carregada de irritação:
— Vocês estão exagerando! Serena vai seguir em frente, arrumar outro e esquecer tudo isso.
Antes que pudesse continuar, o advogado da família entrou na sala, carregando uma pasta de documentos. Alessandro parou no meio da frase, franzindo o cenho.
— O que ele está fazendo aqui? — perguntou, o tom desconfiado.
— Resolvi chamá-lo para ajustar algumas coisas — disse Inácio, a voz fria. — Caso tenha decidido não se casar, precisamos discutir sua herança e os bens da família.
Alessandro recuou, rindo com desdém enquanto passava as mãos pelo rosto.
— Pai, pare de me tratar como um garoto. Eu tenho 27 anos!
— E Serena, apenas 20 — respondeu Inácio, firme. — Mas você não agiu como um homem com ela, Alessandro. Agora é hora de mostrar que pode ser um. Faça sua escolha.
Alessandro olhou para a mãe em busca de apoio, mas ela desviou o olhar, segurando as lágrimas. Por fim, ele balançou a cabeça, frustrado.
— Certo! Fazer o quê? Eu me caso com ela. Mas vocês vão se arrepender.
Ele saiu pisando forte, a expressão carregada de raiva. Inácio suspirou, passando a mão pelos olhos.
— Tomara que isso o transforme, antes que seja tarde.
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Enquanto isso, no pequeno barraco onde Serena morava, a chuva começava a cair fina, criando um som ritmado no telhado. Ela estava sentada à mesa, mexendo distraidamente em uma xícara de chá frio, quando ouviu batidas na porta.
— Quem é? — perguntou, a voz hesitante.
— Sou eu, menina, dona Alzira. Luiz Fernando está comigo.
Serena abriu a porta e foi imediatamente envolvida em um abraço caloroso de dona Alzira. Luiz Fernando entrou em seguida, o semblante carregado de preocupação.
— Sentem-se — disse Serena, tentando parecer tranquila.
Alzira segurou suas mãos, os olhos carregados de ternura e preocupação.
— Menina, viemos porque o senhor Inácio pediu para buscá-la. Ele e dona Eleonora estão preocupados.
Serena tentou sorrir, mas sua voz falhou ao responder:
— Foi só um m*l-estar. Não precisam se preocupar. Amanhã estarei lá.
Luiz Fernando, sério, cruzou os braços e a encarou.
— Serena, todos já sabem o que aconteceu entre você e Alessandro.
Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela desviou o olhar, lutando para manter a compostura.
— Por favor, não quero falar sobre isso agora. Está tudo confuso na minha cabeça.
Dona Alzira trocou um olhar preocupado com Luiz Fernando, mas decidiu não insistir.
— Tudo bem, menina. Descanse. Amanhã será um novo dia.
Serena assentiu, tentando disfarçar as lágrimas enquanto os via saírem. Sozinha, encostou-se à porta, sentindo o peso das palavras de Luiz Fernando e o turbilhão de emoções que a consumia.