Capítulo 17 - Laços e Despedidas

824 Words
Serena já estava de pé. A brisa suave que atravessava as frestas da janela trazia consigo uma promessa de mudança, embora carregada de incertezas. Dona Alzira chegou cedo, com sua postura zelosa, pronta para ajudá-la a se preparar. Enquanto tomava banho, Serena comentou com a voz um pouco trêmula: — Meu Deus, hoje a água está mais gelada do que de costume. Ao sair do banho, seus movimentos eram delicados, mas denunciavam um nervosismo crescente. Ela enrolou-se na toalha, o olhar perdido por um instante, e começou a se vestir. Enquanto isso, Alzira preparava algo para que ela comesse. — Vem, menina, comer um pouco. Você está tão nervosa que é capaz até de desmaiar. — Alzira a chamou, com um tom de carinho disfarçado de repreensão. Serena sentou-se, dando um sorriso tímido. — Deus me livre, dona Alzira. Nem fale uma coisa dessas. Enquanto isso, na fazenda, Alessandro estava ao telefone com Lucas. Ele caminhava em círculos no escritório, claramente frustrado. — Que loucura é essa, meu amigo? Casamento?! — perguntou Lucas, com um tom de surpresa genuína. — Nem me fala. As coisas não têm como ficar piores, cara. — Alessandro respondeu, soltando um suspiro pesado. — Tenho que desligar. Ao encerrar a ligação, Alessandro esfregou o rosto, tentando processar o que estava acontecendo. Ele, que sempre foi dono de suas escolhas, agora parecia um prisioneiro de uma situação que não podia controlar. Vestindo uma calça jeans e uma jaqueta de couro sobre uma camiseta branca, desceu as escadas onde seus pais já o aguardavam. Enquanto isso, Serena estava finalizando os últimos detalhes. Dona Alzira aproximou-se com um batom rosa claro nas mãos. — Trouxe isso para você. Serena pegou o batom, agradecendo com um sorriso discreto. Passou-o com cuidado e, ao se olhar no espelho, perguntou: — Como estou? Alzira, com olhos marejados de emoção, respondeu: — Está linda, menina. Agora vamos, que o carro já está nos esperando. Não podemos nos atrasar. Ao sair do barraco, Serena parou e olhou para trás. Seus olhos encheram-se de lágrimas, uma única gota escorrendo pela face. Entregou a chave para Alzira com um aperto no peito. — Guarde pra mim, dona Alzira. Quando estava prestes a entrar no carro, ouviu a voz familiar de Luiz Fernando chamando: — Serena! Serena! Ela virou-se, o rosto iluminado pela presença do amigo. — Oi, Luiz Fernando. Que bom que veio. Eu não sei se conseguiria me despedir de você. Ele desceu do cavalo e a abraçou apertado. — Tem certeza de que quer fazer isso? — perguntou ele, com uma preocupação sincera. — Sim, Luiz Fernando. Eu sinto muito. Obrigada por ser um grande amigo. Prometo que vou voltar para visitar vocês. — Você está linda, Serena. Até mais. — disse ele, com um sorriso melancólico. — Até mais. — respondeu ela, entrando no carro e acenando para ele. --- No Cartório Quando o carro estacionou em frente ao pequeno cartório, Serena sentiu seu coração saltar. Apertou as mãos contra o tecido do banco, respirou fundo e desceu do carro com Alzira ao seu lado. Ao atravessar a porta, seus olhos encontraram Alessandro. Ele estava parado, com a postura imponente e um olhar distante, quase frio. Por um momento, ela se perdeu na imagem dele. Tão bonito, tão seguro de si... Pensou. Alessandro, ao perceber sua chegada, desviou o olhar para frente, analisando-a rapidamente. Sua simplicidade e delicadeza eram notórias, mas para ele, eram lembretes de como ela era diferente das mulheres que ele costumava se relacionar. Quando o juiz deu início à cerimônia, Serena ficou ao lado de Alessandro, sem saber como se portar. Ele parecia uma estátua, imóvel, até que o juiz pronunciou: — Pode beijar a noiva. Alessandro virou-se lentamente para ela. A diferença de altura entre os dois era notável. Seus olhos se encontraram, e, sem demonstrar emoção, ele inclinou-se para lhe dar um beijo rápido. Palmas encheram a pequena sala, mas ele desviou o olhar, passando a mão pela cabeça em um gesto de desconforto. Eleonora aproximou-se, sorrindo. — Temos um almoço nos esperando. Sei que você está com pressa, filho, mas gostaria que almoçassem conosco antes de irem. Alessandro assentiu impaciente. — Ok, vamos. Enquanto todos ainda estavam reunidos em frente ao cartório, Betina apareceu com uma amiga. — Alessandro? O que está fazendo aqui? — perguntou, aproximando-se de forma exageradamente íntima. Serena, sentindo-se desconfortável, permaneceu em silêncio. Mas Alzira, com um olhar provocador, respondeu: — Parabéns aos noivos! Betina parou, chocada. — Alessandro, você se casou com... ela? Eleonora interveio antes que Alessandro pudesse responder: — O nome dela é Serena, Betina. E sim, eles acabaram de se casar. Alessandro, já irritado, bufou. — Vamos, Serena. Sem questionar, Serena seguiu-o até o carro. Ele manteve os olhos fixos na estrada, enquanto ela observava o mundo lá fora, uma mistura de medo e esperança em seu coração. O dia, que marcava o início de sua nova vida, estava apenas começando.
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