Serena já estava de pé. A brisa suave que atravessava as frestas da janela trazia consigo uma promessa de mudança, embora carregada de incertezas. Dona Alzira chegou cedo, com sua postura zelosa, pronta para ajudá-la a se preparar.
Enquanto tomava banho, Serena comentou com a voz um pouco trêmula:
— Meu Deus, hoje a água está mais gelada do que de costume.
Ao sair do banho, seus movimentos eram delicados, mas denunciavam um nervosismo crescente. Ela enrolou-se na toalha, o olhar perdido por um instante, e começou a se vestir. Enquanto isso, Alzira preparava algo para que ela comesse.
— Vem, menina, comer um pouco. Você está tão nervosa que é capaz até de desmaiar.
— Alzira a chamou, com um tom de carinho disfarçado de repreensão.
Serena sentou-se, dando um sorriso tímido.
— Deus me livre, dona Alzira. Nem fale uma coisa dessas.
Enquanto isso, na fazenda, Alessandro estava ao telefone com Lucas. Ele caminhava em círculos no escritório, claramente frustrado.
— Que loucura é essa, meu amigo? Casamento?! — perguntou Lucas, com um tom de surpresa genuína.
— Nem me fala. As coisas não têm como ficar piores, cara. — Alessandro respondeu, soltando um suspiro pesado.
— Tenho que desligar.
Ao encerrar a ligação, Alessandro esfregou o rosto, tentando processar o que estava acontecendo. Ele, que sempre foi dono de suas escolhas, agora parecia um prisioneiro de uma situação que não podia controlar. Vestindo uma calça jeans e uma jaqueta de couro sobre uma camiseta branca, desceu as escadas onde seus pais já o aguardavam.
Enquanto isso, Serena estava finalizando os últimos detalhes. Dona Alzira aproximou-se com um batom rosa claro nas mãos.
— Trouxe isso para você.
Serena pegou o batom, agradecendo com um sorriso discreto. Passou-o com cuidado e, ao se olhar no espelho, perguntou:
— Como estou?
Alzira, com olhos marejados de emoção, respondeu:
— Está linda, menina. Agora vamos, que o carro já está nos esperando. Não podemos nos atrasar.
Ao sair do barraco, Serena parou e olhou para trás. Seus olhos encheram-se de lágrimas, uma única gota escorrendo pela face.
Entregou a chave para Alzira com um aperto no peito.
— Guarde pra mim, dona Alzira.
Quando estava prestes a entrar no carro, ouviu a voz familiar de Luiz Fernando chamando:
— Serena! Serena!
Ela virou-se, o rosto iluminado pela presença do amigo.
— Oi, Luiz Fernando. Que bom que veio. Eu não sei se conseguiria me despedir de você.
Ele desceu do cavalo e a abraçou apertado.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — perguntou ele, com uma preocupação sincera.
— Sim, Luiz Fernando. Eu sinto muito. Obrigada por ser um grande amigo. Prometo que vou voltar para visitar vocês.
— Você está linda, Serena. Até mais. — disse ele, com um sorriso melancólico.
— Até mais. — respondeu ela, entrando no carro e acenando para ele.
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No Cartório
Quando o carro estacionou em frente ao pequeno cartório, Serena sentiu seu coração saltar. Apertou as mãos contra o tecido do banco, respirou fundo e desceu do carro com Alzira ao seu lado. Ao atravessar a porta, seus olhos encontraram Alessandro. Ele estava parado, com a postura imponente e um olhar distante, quase frio.
Por um momento, ela se perdeu na imagem dele. Tão bonito, tão seguro de si... Pensou. Alessandro, ao perceber sua chegada, desviou o olhar para frente, analisando-a rapidamente. Sua simplicidade e delicadeza eram notórias, mas para ele, eram lembretes de como ela era diferente das mulheres que ele costumava se relacionar.
Quando o juiz deu início à cerimônia, Serena ficou ao lado de Alessandro, sem saber como se portar. Ele parecia uma estátua, imóvel, até que o juiz pronunciou:
— Pode beijar a noiva.
Alessandro virou-se lentamente para ela. A diferença de altura entre os dois era notável. Seus olhos se encontraram, e, sem demonstrar emoção, ele inclinou-se para lhe dar um beijo rápido. Palmas encheram a pequena sala, mas ele desviou o olhar, passando a mão pela cabeça em um gesto de desconforto.
Eleonora aproximou-se, sorrindo.
— Temos um almoço nos esperando. Sei que você está com pressa, filho, mas gostaria que almoçassem conosco antes de irem.
Alessandro assentiu impaciente.
— Ok, vamos.
Enquanto todos ainda estavam reunidos em frente ao cartório, Betina apareceu com uma amiga.
— Alessandro? O que está fazendo aqui? — perguntou, aproximando-se de forma exageradamente íntima.
Serena, sentindo-se desconfortável, permaneceu em silêncio. Mas Alzira, com um olhar provocador, respondeu:
— Parabéns aos noivos!
Betina parou, chocada.
— Alessandro, você se casou com... ela?
Eleonora interveio antes que Alessandro pudesse responder:
— O nome dela é Serena, Betina. E sim, eles acabaram de se casar.
Alessandro, já irritado, bufou.
— Vamos, Serena.
Sem questionar, Serena seguiu-o até o carro. Ele manteve os olhos fixos na estrada, enquanto ela observava o mundo lá fora, uma mistura de medo e esperança em seu coração. O dia, que marcava o início de sua nova vida, estava apenas começando.