Enquanto o carro estacionava na fazenda, Serena observava com curiosidade e um inesperado nervosismo. Seu olhar acompanhou a figura de um homem alto e forte saindo do carro. Ao vê-lo, seu coração deu um salto, batendo descompassado. Ela nunca havia sentido algo parecido, mas ali estava ela, hipnotizada pela presença que imaginava ser Alessandro, o filho dos patrões.
Ele parecia mais imponente do que Serena havia imaginado, e ela se surpreendeu com o fascínio que sentia, embora tentasse manter-se alheia.
Quando avistou Dona Eleonora e Senhor Inácio caminhando na direção dele para recebê-lo, Serena balançou a cabeça, retornando à realidade.
Dona Alzira, percebendo seu olhar distante, chamou sua atenção.
– Menina, menina... O que você tanto olha aí?
– Ah, Dona Alzira, desculpe... me distraí. Parece que o filho dos patrões chegou.
– Sim, sim, o Alessandro – respondeu Dona Alzira, observando Serena com uma expressão curiosa.
A cuidadora notou algo diferente nos olhos de Serena, algo que trouxe uma leve preocupação. Por mais que gostasse de Alessandro, sabia que o jovem tinha uma vida desregrada e poderia não ser bom para Serena. Em sua experiência, homens como ele raramente olhavam para moças simples e discretas. Ela pensou: “Até parece que Alessandro iria olhar para Serena…” e suspirou.
Serena, ainda sentindo um nervosismo que não entendia, voltou ao trabalho.
– Dona Alzira, já peguei todos os legumes e frutas. Parece que vai chover, e a senhora sabe como tenho medo de tempestade. Vou para o barraco antes que comece.
Alzira sorriu, acariciando o rosto de Serena antes de dar-lhe um abraço.
– Vá, menina. Cuide-se e descanse. Amanhã é outro dia.
Serena sorriu de volta, pegou sua cesta e partiu rapidamente pela estrada, tentando vencer a chuva iminente. No caminho, de repente, ouviu passos rápidos e uma voz familiar a chamando.
– Serena! – chamou Luiz Fernando, aproximando-se com o cavalo. – Achei que pudesse precisar de uma carona. Vai chover forte e sei que você tem medo.
– Luiz Fernando! – Serena respondeu surpresa, sem disfarçar o alívio. – Ah, não precisava se incomodar. – Sorriu, com a timidez de quem se sente agradecida.
Luiz Fernando estendeu a mão, ajudando-a a subir no cavalo. Ele segurou a cesta dela, e os dois seguiram em silêncio pela estrada, cada um imerso em seus próprios pensamentos. Chegando ao barraco, Luiz Fernando a ajudou a descer e olhou para ela com um brilho protetor nos olhos.
– Quer que eu fique por aqui até a chuva passar? – perguntou ele, de um jeito gentil.
– Não, obrigada, Luiz Fernando. Pode ir, assim evita pegar chuva no caminho – disse Serena, agradecida e um pouco sem jeito. Ela se despediu e entrou, trancando tudo antes de a tempestade começar.
Enquanto preparava sua sopa, Serena fez uma oração para que a chuva passasse rápido. Quando o primeiro trovão soou, ela levou um susto, soltando um grito baixo.
– Ai, meu Deus! Que essa chuva passe logo! – sussurrou, tentando acalmar seu coração acelerado. Por um instante, pensou na oferta de Dona Eleonora para morar na fazenda. “Talvez fosse mesmo mais seguro…”
Na casa grande, Alessandro jantava com seus pais, em meio a um diálogo que logo derivou para o assunto da fazenda.
– Alessandro, não estou pedindo que more aqui. Ainda cuidará dos negócios na cidade. Só quero que venha com mais frequência – disse Inácio, em tom firme.
Alessandro franziu a testa, visivelmente contrariado.
– Isso é realmente necessário, pai? Já temos quem cuide das coisas por aqui. Não vejo necessidade.
Dona Eleonora, percebendo a tensão crescer, interrompeu com uma suavidade que só as mães sabem ter.
– Pronto, já falamos o suficiente sobre isso. Vocês terão tempo para decidir tudo mais tarde. Agora me diga, meu filho, como você está? Senti tanto a sua falta…
Alessandro a olhou, e sua expressão se suavizou.
– Estou bem, mãe. – E, com um sorriso raro, completou: – A senhora está mais bonita do que nunca.
Ela sorriu, visivelmente emocionada, e o silêncio que se seguiu trouxe uma tranquilidade momentânea.
Alessandro olhou a chuva forte pela janela, sentindo-se preso entre dois mundos: o da cidade que deixara para trás durante alguns dias e o da fazenda, onde tudo parecia se arrastar em um ritmo mais lento e profundo.
Ao final da noite, enquanto o trovão reverberava pela fazenda e a tempestade parecia ganhar força, Serena se encolhia em seu barraco, e Alessandro, na casa principal, sentia que algo mudaria em breve.