A atmosfera na mansão de Sete no alto do Turano era de uma calma frágil, como o olho de um furacão. Catarina estava sentada no sofá da sala, com os pés devidamente cuidados e uma xícara de chá entre as mãos, embora seus olhos estivessem distantes. Sete estava parado perto da varanda, observando a movimentação dos reflexos das luzes do morro.
— Sete... — Catarina quebrou o silêncio, sua voz suave, mas carregada de uma gratidão profunda. — Obrigada. Por ter deixado a Ayla ficar aqui no hospital, por não ter dado as costas para ela. E por confiar no Tico para cuidar dela. Eu sei o que ela passou e sei que ela se sente segura com ele.
Sete virou-se devagar, o rosto impassível, mas o olhar atento.
— O Turano não vira as costas para quem sangra por nós, Catarina. E o Tico... bem, ele tomou essa missão como algo pessoal. Ele não vai deixar ninguém chegar perto dela.
Antes que Catarina pudesse responder, o rádio na cintura de Sete e o rádio de Tico, que estava lá embaixo no postinho, gritaram simultaneamente. A voz do gerente da contenção da entrada principal estava trêmula, carregada de uma urgência que fez os pelos do braço de Sete se arrepiarem.
— Patrão! Tico! Desce na boca agora! É urgente! Deixaram um "presente" aqui da Maré. Rápido!
Sete trocou um olhar rápido com Catarina. Ele viu o medo voltar aos olhos dela instantaneamente.
— Eu preciso resolver uma coisa lá embaixo e já volto — disse ele, a voz firme, escondendo a tensão. — Fica aqui dentro. Não sai por nada.
No hospital, Tico levantou-se da poltrona ao ouvir o chamado. Ele olhou para Ayla, que despertara com o barulho do rádio e o encarava com dúvida.
— Pequena, eu preciso ir ali resolver uma parada rápida com o Sete. Fica calma. Os moleques da porta estão orientados. Eu já volto, tá ouvindo? Não vou demorar.
Ayla assentiu devagar, os olhos acompanhando o rádio dele enquanto ele saía do quarto em passos pesados.
Sete e Tico chegaram à entrada do morro quase ao mesmo tempo, as motos cantando pneu no asfalto quente. Os vapores estavam em volta de uma mesa de madeira improvisada, todos com as mãos nos fuzis, mas ninguém ousava tocar nos dois embrulhos que estavam ali.
Eram dois buquês de rosas brancas. Mas não eram flores comuns. Elas estavam ensopadas em um sangue escuro, viscoso, que exalava um cheiro podre, de morte anunciada. Os cartões vermelhos brilhavam sob a luz dos refletores como feridas abertas.
Sete pegou o cartão endereçado a Catarina. Ao ler a ameaça sobre o "vestido de noiva" e o "enterro", seu rosto se transformou. A calmaria estratégica deu lugar a uma fúria gélida. Ele apertou o cartão até que o papel rasgasse, as veias do seu pescoço saltando.
Mas foi Tico quem explodiu.
Ao ler a ameaça destinada a Ayla — a promessa de arrancar os dedos dela, a mesma mão que ele segurara com tanto cuidado no banho —, Tico soltou um rugido de animal ferido. Ele chutou a mesa, fazendo os buquês voarem para o chão, o sangue de porco sujando suas botas.
— EU VOU MATAR ESSE DESGRAÇADO AGORA! — Tico gritou, pegando o fuzil e batendo o ferrolho com uma violência que ecoou pela entrada. — Sete, me dá a ordem! Eu vou descer naquela Maré sozinho! Vou arrancar a cabeça do Abutre e trazer no bico da chuteira!
— Calma, Tico! — Sete interveio, segurando o braço do amigo com força. — Se a gente descer agora, sem plano, a gente cai na armadilha dele. Ele quer que a gente aja pela emoção!
— CALMA O CARA.LHO, SETE! — Tico berrou, os olhos injetados, apontando na direção do hospital. — Tu não viu o que eu vi! Aquela menina não consegue ficar em pé pra tomar banho sozinha! Eu precisei entrar no chuveiro com ela, Sete! Eu tive que segurar o corpo dela pra ela não desabar de dor porque as costelas estão moídas! Que tipo de homem faz isso com uma garota? Que tipo de verme chuta a barriga de uma menina até ela ficar roxa?
Tico arfava, o peito subindo e descendo, a mão tremendo no gatilho.
— Ele ameaçou as mãos dela, Sete. As mãos que ela usa pra trabalhar! Se ele tocar nela de novo, eu não vou só matar ele... eu vou fazer ele implorar pra ter o fim que ele deu pra esses moleques dele!
Sete respirou fundo, sentindo o mesmo ódio, mas sabendo que precisava ser o freio.
— Eu sei, Tico. Eu li o que ele mandou pra Catarina. Ele acha que a gente tá com medo. Ele acha que esse cheiro de sangue vai fazer a gente recuar.
Sete pegou o que restou do cartão de Ayla do chão e o encarou.
— Ele quer guerra? Ele vai ter. Mas não vai ser do jeito dele. Tico, volta pro hospital. Não deixa a Ayla ver isso. Limpa esse sangue do teu tênis. Eu vou reunir os gerentes. Ninguém fala nada dessas flores pra cima da barreira, ouviram?
Tico ainda tremia, o rosto vermelho de ódio puro. Ele olhou para o rastro de sangue das flores no chão e depois para o alto do morro.
— Se ele encostar um dedo no portão desse hospital, Sete... eu não espero plano nenhum. Eu transformo aquela divisa num cemitério.
Tico montou na moto e arrancou, a mente fervendo. O cheiro daquelas flores apodrecidas parecia ter ficado impregnado nele. Ele só pensava em voltar para o quarto 04, sentar naquela poltrona e garantir que, enquanto ele estivesse ali, o mundo lá fora — e as flores de sangue do Abutre — jamais alcançariam Ayla novamente.