O silêncio da mata era um contraste agoniante com o zumbido que ainda restava em seus ouvidos. Catarina não sabia há quanto tempo corria. O vestido preto, antes um símbolo de elegância opressora, agora estava rasgado nos ombros, preso em gravetos e manchado pela lama da terra úmida. Ela não sentia mais o frio; a adrenalina agia como uma droga anestésica em suas veias, mas a dor no pé direito era impossível de ignorar.
Há alguns metros, ela havia pisado em falso. O barulho de algo metálico ou de um vidro quebrado sob a folhagem foi seguido por uma pontada aguda que subiu por sua perna como um choque elétrico. Ela sentia o sangue quente escorrer, ensopando a sola do pé e deixando um rastro escuro por onde passava, mas ela não parou. Parar significava a morte nas mãos do Abutre. Continuar significava a incerteza nas mãos do Sete. Entre o carrasco conhecido e o desconhecido, ela escolheu o risco.
Quando a vegetação começou a diminuir e a luz de alguns refletores distantes cortou a escuridão, Catarina soube que tinha atravessado a linha. Ela não estava mais na Maré.
De repente, o estalo metálico de vários ferrolhos sendo puxados em uníssono ecoou pelo ar parado da madrugada.
— Parada aí, por.ra! Mão na cabeça! Agora!
Catarina travou. O feixe de três, quatro, cinco lanternas potentes atingiu seu rosto de uma só vez, cegando-a. Ela levou as mãos aos olhos, cambaleando para trás. O pé ferido falhou sob seu peso, e ela soltou um gemido de dor que se transformou em um soluço desesperado.
— Não atira! Por favor, não atira! — ela gritou, a voz falhando, embargada pelo choro que finalmente transbordava.
— Quem é tu, p***a? Tá vindo de onde? — A voz era grossa, carregada de agressividade.
Catarina conseguiu enxergar, por entre os dedos, as silhuetas de cinco homens. Eles vestiam roupas escuras, coletes táticos e carregavam fuzis que pareciam monstruosos sob a luz das lanternas. Eram os "vapores" da contenção do Turano, os cães de guarda do Sete.
— Eu preciso falar com o Sete... — ela implorou, caindo de joelhos. O choro era convulsivo agora, o rosto manchado de rímel e suor. — Por favor, me leva até o Sete. Só falo com ele.
— Olha só a audácia da dondoca — um dos homens debochou, aproximando-se. Ele era alto, usava um boné para trás e tinha um radio transmissor pendurado no peito. — Chega da Maré, toda cagada, com cheiro de perfume de p**a e quer falar com o dono do morro? Tu acha que o Sete tem tempo pra atender refugiada de rival?
— É a mulher do Abutre — outro vapor sussurrou, a luz da lanterna focando no rosto de Catarina. — Eu já vi foto. É a Primeira-Dama lá do outro lado. c*****o, o que essa mina tá fazendo aqui?
O clima mudou instantaneamente. A curiosidade deu lugar a uma tensão elétrica. Se ela era quem diziam ser, ela era a maior arma ou a maior armadilha que já cruzara aquela divisa.
— Por favor... — Catarina soluçou, segurando o pé sangrando. O corte era profundo, a carne aberta mostrava um rastro escuro de sujeira e sangue vivo que empapava o chão.
— Eu imploro... me leva até ele. Eu tenho o que ele quer. Eu entrego tudo... só me tira daqui.
O vapor que parecia liderar o grupo, um sujeito com uma cicatriz no supercílio, deu um passo à frente. Ele não tinha um pingo de piedade nos olhos. Para ele, Catarina era apenas o inimigo em uma embalagem bonita.
— Tu não tá em posição de pedir nada, sua p*****a.
Sem qualquer aviso, ele avançou e cravou os dedos nos cabelos longos de Catarina, puxando-os com força total para trás. Catarina soltou um grito agudo de dor, o pescoço esticando enquanto ela era obrigada a olhar para o céu escuro.
— Ai! Por favor, para! — ela implorou, as mãos tentando segurar o braço do homem para aliviar a tração.
— Aqui tu não é ninguém, ouviu? — ele rosnou. Com um movimento violento, ele a jogou para o lado.
Catarina voou lateralmente, seu corpo atingindo o chão irregular de concreto e brita da entrada da trilha. O impacto foi seco. O cotovelo direito de Catarina raspou com força contra uma quina de pedra, rasgando a pele e o tecido do vestido. Ela sentiu o calor do sangue brotar instantaneamente no braço, somando-se à dor lancinante do pé. Ela ficou ali, deitada de lado, encolhida, tremendo e chorando como um animal ferido.
O líder dos vapores tirou o rádio da cintura. O chiado do aparelho pareceu preencher todo o silêncio da mata.
— Na escuta, Sete? Aqui é o Falcão, da contenção leste.
Houve um segundo de silêncio absoluto, e então, uma voz baixa, rouca e mortalmente calma respondeu, fazendo os pelos do corpo de Catarina se arrepiarem.
— Fala, Falcão. Qual é a situação?
— Patrão, tu não vai acreditar. A mulher do Abutre apareceu aqui na divisa. Cruzou a mata sozinha. Tá toda arrebentada, chorando igual uma condenada e diz que só fala contigo. O que a gente faz? Apaga ou traz?
Do outro lado da linha, Sete não respondeu de imediato. Catarina conseguia imaginar o homem calculando, analisando as possibilidades, decidindo se ela valia o esforço de uma guerra. O silêncio durou uma eternidade.
— Ela tá armada? — a voz de Sete perguntou.
— Tá de vestido de festa, patrão. Descalça e sangrando. Tá com o pé aberto e o braço ralado. Tá inofensiva.
— Tragam ela para a boca principal. Agora. Não matem, não deixem ninguém ver e, Falcão... se ela chegar aqui com mais um arranhão que não tenha sido da mata, o próximo a sangrar é você. Entendeu?
O vapor engoliu em seco, a arrogância sumindo de seu rosto como se tivesse sido apagada por um soco.
— Entendido, patrão. Trazendo agora.
Ele guardou o rádio e olhou para os outros homens.
— Levanta essa merda aí — ele disse, chutando levemente a costela de Catarina, mas sem a força de antes. O medo do Sete era maior que o desprezo por ela.
— O patrão quer te ver. Tu deu sorte, dondoca. Por enquanto.
Dois homens a pegaram pelos braços, levantando-a sem qualquer cuidado. Catarina soltou um grito quando o pé ferido tocou o chão. A dor era uma agulha em brasa subindo por sua perna.
— Eu não consigo andar... — ela balbuciou, a visão ficando turva.
— Vai andar nem que seja arrastada — o tal Falcão respondeu, empurrando-a para frente.
Eles começaram a subir o morro. Catarina era arrastada entre os dois soldados, seus pés descalços batendo nas pedras, o sangue do corte deixando uma trilha pelo caminho. Cada passo era uma agonia nova. Ela via as luzes das vielas passando como borrões, ouvia o som de rádios de outros soldados e o latido de cachorros.
A boca principal não era um lugar comum. Era uma fortaleza de concreto no coração do Turano, um lugar onde o cheiro de incenso se misturava ao cheiro de óleo de armas. Ao chegarem à porta de ferro pesada, os homens a empurraram para dentro.
Catarina tropeçou e caiu novamente, desta vez no chão de ladrilhos frios de uma sala ampla e m*l iluminada. Ela estava exausta, trêmula, com o braço ardendo e o pé pulsando em uma dor rítmica. Ela escondeu o rosto nas mãos, os soluços ainda sacudindo seus ombros.
— Ela está aqui, Sete — Falcão anunciou, sua voz agora carregada de um respeito servil.
Catarina ouviu o som de passos lentos e pesados. Passos de alguém que não tinha pressa, porque o tempo e a vida de todos naquela sala pertenciam a ele. Ela sentiu uma presença imponente parar a poucos centímetros dela. O cheiro dele atingiu seus sentidos: tabaco, sândalo e algo metálico.
— Olhe para mim — a voz ordenou. Não era um pedido. Era um comando que sua alma sentiu a obrigação de obedecer.
Lentamente, Catarina afastou as mãos do rosto e levantou a cabeça. Seu olhar, nublado pelas lágrimas e pelo cansaço, encontrou os olhos de ouro queimado de Sete. Ele estava parado ali, com os braços cruzados sobre o peito largo, as tatuagens do pescoço subindo de forma agressiva, observando-a como um cientista observa uma criatura ferida.
Ela estava no chão, sangrando e humilhada. Ele estava no topo, calmo e perigoso.
— Você atravessou a divisa para me ver, Catarina — Sete disse, sua voz vibrando no peito dela. — Agora que me encontrou, espero que o que você tem a dizer valha a guerra que eu vou ter que lutar por você.
Catarina tentou falar, mas apenas um soluço saiu. Ela olhou para o próprio pé, onde o sangue começava a formar uma pequena poça no chão limpo da sala dele. Ela estava no centro do pecado, e o homem à sua frente era o único que poderia salvá-la ou terminar o serviço que o Abutre começou.