REVELAÇÕES

1274 Words
Catarina terminou a última fatia de pizza, mas o sabor parecia cinzas em sua boca diante da urgência que queimava em seu peito. Ela limpou os lábios com o guardanapo, as mãos ainda tremendo levemente. O silêncio do quarto, interrompido apenas pelo som do vento batendo contra as janelas de vidro fumê, era o cenário perfeito para a confissão que ela precisava expelir. — Sete... — ela chamou, sua voz falhando por um segundo. — Eu não quero esperar até amanhã. Eu prefiro falar agora. Eu preciso tirar isso de dentro de mim antes que eu perca a coragem. Sete, que estava observando-a com uma intensidade que a desarmava, apenas assentiu. Ele se levantou, a imponência de sua figura preenchendo o espaço. — Vou tomar um banho rápido. Tirar o cheiro da rua. Não saia dessa cama — ele ordenou, com sua habitual rispidez protetora. Ele entrou no banheiro e, minutos depois, o som da água cessou. Quando a porta se abriu, uma nuvem de vapor escapou, trazendo consigo o cheiro forte de sabonete cítrico e amadeirado. Sete saiu apenas de bermuda de moletom preta, descalço, com os cabelos úmidos e desalinhados. Catarina sentiu o ar sumir dos pulmões. Ela nunca tinha visto um homem como ele. O torso de Sete era uma obra de arte brutal: os músculos do peito e do abdômen eram definidos como se tivessem sido esculpidos em pedra, cobertos por uma tapeçaria de tatuagens pretas que se entrelaçavam com cicatrizes de tiros e facadas. Ele era poder puro, cru, sem as correntes de ouro espalhafatosas que Neto usava para compensar sua falta de presença. Ela não conseguia desviar o olhar. Era uma mistura de medo e uma atração proibida que ela não sabia nomear. Sete percebeu o olhar dela, mas não disse nada. Ele sentou-se na poltrona de couro cinza em frente à cama, cruzou os braços e fixou os olhos dourados nela. — Pode começar, Catarina. O palco é teu. Catarina respirou fundo, os dedos enroscando-se no lençol. As lágrimas, que ela achava terem secado, começaram a brotar novamente, quentes e insistentes. — Todo mundo no morro acha que eu sou a rainha, Sete. Que eu vivo no luxo porque eu quis. Mas a verdade é que eu fui vendida. — Ela soltou um riso amargo entre os soluços. — Meu pai... ele não roubou o Neto. O Neto inventou aquela dívida só pra me ter. Ele me comprou como quem compra um carro novo. E desde o primeiro dia, minha vida foi um inferno. Ela parou, a garganta fechando. Sete continuava imóvel, mas o maxilar dele estava tão cerrado que os músculos da face saltavam. — Ele... ele nunca aceitou um "não" — ela continuou, a voz baixando para um sussurro quebrado. — Na cama, não existia respeito. Toda vez que eu tentava negar, toda vez que eu dizia que não queria, ele me batia. Ele dizia que tinha pago caro por mim e que ia usar o que era dele do jeito que quisesse. Eu odeio aquele homem, Sete. Eu odeio cada toque, cada palavra, cada centímetro daquele morro. Sete descruzou os braços, inclinando-se para frente. O brilho em seus olhos era perigoso. — Ele te estup.rava, Catarina? — A pergunta foi direta, sem rodeios, carregada de uma vibração sombria. Catarina assentiu, o choro tornando-se mais forte. — Sim. E batia. Se eu chorasse demais, ele batia mais ainda pra eu calar a boca. Eu fugi hoje porque ouvi o que ele planejou. Ele cansou de mim. Disse que eu era uma "mercadoria gasta". Ele ia me dar pra um parceiro do Comando, um tal de "negócio da década". Eu ia ser enviada pra outro monstro, pra ser usada por meses como garantia de um porto. Sete levantou-se abruptamente. Ele começou a andar pelo quarto como um predador enjaulado. A raiva emanava dele em ondas quase palpáveis. Ele chutou levemente o pé da poltrona, os punhos cerrados ao lado do corpo. — Aquele verme... — Sete rosnou, a voz saindo das profundezas de seu peito. — Ele não é homem. É um lixo que se esconde atrás de um fuzil. Catarina estendeu as mãos em sua direção, desesperada. — Eu não quero nada de graça, Sete. Eu posso trabalhar. Eu limpo, eu cozinho, eu ajudo na contabilidade... qualquer coisa. Eu só quero uma casa simples, um lugar onde ele não me encontre. Em troca, eu te entrego tudo. Eu sei onde estão os depósitos de armas, sei os nomes dos políticos que ele paga, sei as datas das próximas cargas. Eu dou a cabeça do Abutre pra você numa bandeja, mas por favor... me protege. Não me deixa voltar pra lá. Sete parou diante dela. Ele a observou por um longo tempo, vendo a fragilidade daquela mulher vestindo sua camiseta, com os pontos no pé e o rosto marcado pela covardia de outro homem. Ele sentiu algo quebrar dentro de si, um dique de gelo que ele mantinha há anos para sobreviver no mundo do crime. Ele se sentou na beirada da cama. Sem jeito, como se estivesse aprendendo a ser humano naquele momento, ele estendeu os braços largos e a puxou para si. O abraço de Sete era como ele: bruto e forte. Ele a apertou contra o peito largo com tanta força que ela quase perdeu o fôlego, mas era a primeira vez em anos que um toque de homem não a fazia querer gritar de nojo. — Nem pensa nisso, Catarina — ele sussurrou contra o cabelo úmido dela, a voz ainda rouca de fúria, mas com uma nota de promessa inquebrável. — Você não vai morar em casa simples nenhuma. Você não vai ser empregada de ninguém. Você fica aqui. Na minha casa. Sob a minha guarda. Catarina chorava contra a pele quente de Sete, as mãos pequenas agarradas às costas dele. Ela sentia o coração dele batendo forte contra o seu ouvido, um tambor de guerra que agora lutava por ela. — Ele vai vir atrás de mim, Sete... ele vai queimar o Rio pra me pegar de volta — ela soluçou. Sete se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares limpando as lágrimas que caíam. O rosto dele estava possesso, uma máscara de determinação mortal. — Deixa ele vir. Que ele venha com tudo o que tem. Eu vou proteger você, Catarina. Custe o que custar. Eu vou transformar a Maré em cinzas se ele ousar pisar no Turano atrás de você. A partir de hoje, você não é mais o troféu de ninguém. E se o Abutre quiser guerra, ele vai ter o inferno inteiro batendo na porta dele. Catarina fechou os olhos, permitindo-se finalmente desabar nos braços daquele homem que era o seu pecado e, ao mesmo tempo, sua única salvação. Sete a segurou com firmeza, o calor de seu corpo protegendo-a das sombras do passado. Ali, no alto do morro, entre o cheiro de sabonete e a fúria de um líder, a garota da Maré tinha morrido, e a mulher do Turano estava começando a nascer. — Ninguém mais toca em você, entendeu? — Sete reforçou, a voz sendo a última coisa que ela ouviu antes que o cansaço do trauma finalmente a fizesse apagar em seu colo. — Ninguém. Sete permaneceu ali, segurando-a por horas, vigiando o sono dela enquanto planejava, detalhe por detalhe, como destruiria o homem que ousou quebrar a mulher que agora dormia em seus braços. A guerra estava declarada, e o Sétimo Pecado estava apenas começando a cobrar seu preço. E nem percebeu que ela dormiu em seus braços.
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