O dia amanheceu na Maré com o cheiro de fumaça da Viela 12 ainda impregnado nas roupas dos moradores e o som de concreto sendo removido por tratores. Mas o verdadeiro estrondo não vinha das ruínas, e sim da sede. Abutre estava fora de si. Ele já havia quebrado dois rádios contra a parede e o rastro de destruição na sala de reuniões mostrava que a noite tinha sido longa.
— Como eles entraram? Como ninguém viu os caras plantando o bicho na 12? — Abutre berrava, a voz falhando de tanto gritar. — Eu pago vocês pra quê? Pra ficarem dormindo em cima do fuzil enquanto o Sete faz churrasco na nossa porta?
Os vapores da linha de frente permaneciam calados, de cabeça baixa. Ninguém queria ser o próximo a levar um tiro por dar a notícia errada. O clima mudou quando o som de vários carros de luxo blindados subindo a ladeira principal ecoou. Não eram carros da Maré. Eram os "peixes grandes" da cúpula da facção, a barreira que decidia quem vivia e quem morria no comando geral.
Três homens de meia-idade, com correntes de ouro grossas e semblantes de quem não tinha paciência para amadorismo, entraram na sede. Abutre tentou manter a pose de dono da casa, mas o suor na sua testa o traía.
— Que recepção é essa, por.ra? Não fui avisado de reunião nenhuma — disse Abutre, tentando rir, mas o som saiu seco.
O homem mais velho, conhecido como Velho, sentou-se na ponta da mesa e colocou um celular sobre a madeira.
— Senta aí, Abutre. O clima azedou. O Chefe do Comando Vermelho ligou pra gente ontem à noite. O papo foi reto e o eco do estouro lá na 12 chegou até nos ouvidos dos canas da capital. O CV tá dizendo que tu perdeu o juízo, que tá torturando inocente e fazendo covardia com mulher pra mandar recado de guerra.
Abutre sentiu o sangue ferver.
— Aquela p*****a fugiu pro Turano! Ela sabe demais! Eu só dei o que ela merecia por trair o movimento!
O Velho bateu a mão na mesa, um som que calou o Abutre instantaneamente.
— A gente quer a verdade, Abutre. Papo de visão. Tu bateu numa menina em praça pública por estratégia ou porque tu é um maníaco que não aceita ser deixado? O CV tá dizendo que tu tá quebrando a ética de não mexer com família e civil. Eles estão ameaçando travar o fornecimento de rota na fronteira se a gente não te segurar. Tu tá colocando o lucro de todo o nosso complexo em risco por causa de uma garota e uma ex que te deu um pé na b***a.
Abutre abriu a boca para protestar, mas o Velho continuou, a voz gélida.
— A cúpula vai se reunir hoje à noite. Vamos decidir o que fazer com a gerência da Maré. Se tu não serve pra manter o comércio rodando em paz e prefere fazer guerra pessoal de ego, tu não serve pra ser patrão.
Abutre levantou-se, tremendo, o rosto vermelho de ódio.
— Vocês vão me entregar pro Sete? Depois de tudo que eu fiz por essa facção?
— Ninguém falou em entrega ainda — respondeu outro integrante da cúpula, ajustando o óculos escuro. — Mas a ordem é clara e imediata: Até segunda ordem, tu não move um soldado pro Turano. Não manda flor, não manda rádio, não manda nem um estalo. Se um tiro sair daqui em direção ao morro do Sete sem a nossa autorização, a gente vai entender que tu tá contra a facção.
— Eu sou o dono dessa p***a! — Abutre rugiu.
— Tu é gerente enquanto a gente deixar — o Velho levantou-se, encarando Abutre nos olhos. — O CV deu o papo: eles não querem guerra agora, mas se tu encostar naquelas meninas de novo, eles vão descer com tudo o que têm. E a gente não vai perder soldado pra cobrir erro de louco. Recolhe teus homens da divisa. Bota eles pra vender, não pra atirar.
A cúpula saiu da sala com a mesma frieza que entrou. Abutre ficou parado, olhando para o vazio, sentindo o chão fugir sob seus pés. Ele era um animal encurralado. Pela primeira vez, o medo de perder o poder superava o desejo de vingança.
Ele caminhou até a janela e olhou na direção do Turano. Sabia que, naquele momento, Ayla estava lá, sob os cuidados deles, e Catarina estava protegida por Sete. O ódio que ele sentia agora era uma bomba relógio.
— Isso não acabou... — sussurrou Abutre para si mesmo, enquanto via seus próprios homens começarem a recuar das barricadas por ordem superior.
— Eles acham que podem me mandar... mas eu ainda vou queimar aquele morro, nem que eu tenha que cair junto.
Mas, por enquanto, o Abutre estava amordaçado. A "justiça de cima" tinha falado mais alto, e o silêncio que se instalou na Maré era o sinal de que a tempestade, embora adiada, seria catastrófica quando finalmente desabasse.