TICO - ESCUDO

1396 Words
O relógio na parede do postinho de saúde do Turano marcava duas da tarde quando o silêncio do Quarto 04 foi quebrado por um som diferente do bipe monótono dos aparelhos. Era o som de uma respiração mais profunda, embora ainda arrastada. O médico tinha passado ali pouco antes do almoço e decidido retirar a máscara de oxigênio de Ayla. Ele disse que os pulmões dela estavam reagindo bem, apesar das costelas quebradas, e que ela precisava começar a forçar a respiração por conta própria. Eu estava sentado na poltrona, a mesma de sempre, mas agora eu me sentia mais "limpo". O banho gelado tinha tirado a crosta de cansaço da minha pele, mas não tinha levado embora a imagem daquela garota rastejando na lama. Eu observava o rosto dela sem a máscara de plástico. Agora, dava para ver melhor o estrago que o Abutre tinha feito. O lábio superior estava cortado e inchado, e o maxilar parecia rígido, travado pela inflamação dos golpes. Ayla abriu os olhos devagar. Não foi aquele despertar de pânico de mais cedo. Foi um movimento lento, pesado, de quem está lutando para emergir de um mar de sedativos. Ela piscou algumas vezes, tentando focar a visão no teto, e depois, como se seguisse um instinto, virou o rosto na minha direção. Nossos olhos se encontraram. Os dela, cor de mel, ainda estavam nublados pela dor e pelo cansaço, mas havia uma lucidez ali que não existia antes. Ela me encarou por longos segundos. Eu não desviei o olhar. Queria que ela visse que eu ainda estava ali, que eu não era um sonho r**m ou uma alucinação da febre. — E aí, pequena... — minha voz saiu baixa, quase um sussurro, para não assustar o silêncio do quarto. — Acordou de novo? Ela tentou responder. Vi o esforço nos músculos do pescoço dela, a tentativa de abrir a boca, mas o maxilar não obedeceu. Ela soltou um som baixo, um "uh..." esmagado pela dor, e fechou os olhos com força, uma careta de agonia cruzando seu rosto machucado. — Não força — eu disse, levantando da poltrona e me aproximando da maca. — O doutor disse que teu maxilar tá muito inchado. Vai demorar um pouco pra tu conseguir falar sem sentir que tá levando um tiro na cara. Só respira. Ela relaxou um pouco, mas seus olhos continuavam fixos em mim, expressando uma sede que parecia vir de dentro da alma. Ela olhou para a mesinha de cabeceira, onde havia um copo de plástico com água e um canudo dobrável. — Tá com sede? — perguntei. Ela fez um movimento quase imperceptível com a cabeça. Um "sim" que custou um esforço visível. Peguei o copo. Minhas mãos, que sabiam desmontar um fuzil de olhos fechados, pareciam desajeitadas ao segurar aquele canudinho de plástico. Eu me inclinei sobre ela, passando o braço por trás do travesseiro para elevar um pouco a cabeça dela, tomando um cuidado absurdo para não pressionar as costelas que o médico disse estarem no osso. Senti o calor da pele dela contra o meu antebraço. Ela estava febril, mas a pele era macia, um contraste bizarro com as cicatrizes de guerra que eu carregava. — Devagar... — avisei, encostando o canudo nos lábios dela. Ayla sugou a água com uma urgência desesperada. Eu via a garganta dela se movendo, engolindo o líquido que devia parecer ouro depois de tanto tempo de boca seca e sangue. Quando ela terminou, eu afastei o copo e a deitei de volta, com a lentidão de quem carrega um cristal que já está trincado. Ela soltou um suspiro longo, aliviada. As lágrimas voltaram a aparecer, mas dessa vez não pareciam ser de pânico. Eram lágrimas de quem finalmente sentia um pingo de humanidade depois de ter passado pelo inferno. — A Catarina foi pra casa — expliquei, voltando a sentar na beirada da maca, perto dela. — O Sete obrigou ela a descansar. Ela tá bem, tá segura na mansão. Mas ela volta mais tarde. Ayla me olhava com uma intensidade que chegava a incomodar. Ela parecia estar tentando ler a minha alma, tentando entender por que um cara como eu, com cara de quem mata e morre, estava ali servindo copo d’água pra ela. Ela esticou a mão esquerda — a única que conseguia mexer — e tocou de leve no meu braço, onde termina a manga da regata e começa uma das minhas tatuagens: um arame farpado que envolve o bíceps. Os dedos dela tremiam. Ela passou a ponta do dedo sobre o desenho, depois olhou pra mim, com uma pergunta muda brilhando naqueles olhos de mel. — O que foi? — perguntei, sentindo aquele aperto estranho no peito voltar com força total. — Tá querendo saber quem eu sou? Ela assentiu levemente. — Meu nome é Tico — respondi, e senti o meu próprio nome soar estranho nos meus ouvidos, como se eu estivesse me apresentando para uma vida nova. — Eu sou o braço direito do Sete. Fui eu que te busquei na mata. Vi o brilho de reconhecimento nos olhos dela. Ela lembrou. Lembrou do ronco da moto, do calor do meu peito, da segurança que sentiu quando eu gritei para os soldados darem ela para mim. Ela apertou levemente a pele do meu braço, um gesto de agradecimento que valia mais do que qualquer discurso. — Tu foi muito brava, Ayla — continuei, e foi a primeira vez que falei o nome dela diretamente para ela. — Cruzar aquela trilha do jeito que tu tava... tem muito marmanjo aqui no Turano que não teria essa coragem. Tu é pequena, mas é de ferro. Ayla tentou sorrir. Foi um esforço triste, o canto da boca m*l se moveu antes da dor travá-la novamente, mas os olhos dela brilharam por um segundo. Ela soltou a minha pele e apontou com o dedo indicador para o meu peito, depois para a janela, e fez um gesto de "vai". Ela queria que eu fosse embora. Queria que eu descansasse. — Tá querendo se livrar de mim já? — brinquei, mas meu coração não estava rindo. — Esquece, pequena. O Sete me deu a ordem e eu dei a minha palavra pra Catarina. E, pra falar a verdade... eu não ia conseguir dormir sabendo que tu tá aqui sozinha. Eu sou o teu escudo agora, lembra? Onde tu estiver, eu vou estar por perto. Ela fechou os olhos por um momento, e eu vi o peito dela subir e descer de forma mais calma. A presença de alguém ali, alguém que não queria nada dela além da sua recuperação, parecia ser o melhor remédio que o hospital podia oferecer. Ficamos em silêncio por um longo tempo. Eu não precisava falar, e ela não podia. Mas havia uma conversa acontecendo ali, no meio daquele quarto de hospital. Uma conversa de proteção, de gratidão e de algo mais que eu ainda não sabia explicar. Eu peguei a mão dela, a mão, e a envolvi com a minha mão de soldado. — Dorme mais um pouco, Ayla. A dor vai diminuir, eu prometo. E quando tu acordar de novo, eu vou estar aqui. O Abutre tirou muita coisa de ti, mas ele não tirou a tua vida. E ele nunca mais vai chegar perto de ti pra tentar tirar o resto. Ela apertou meus dedos de volta, com a pouca força que tinha, e mergulhou novamente num sono mais tranquilo. Eu fiquei ali, olhando para a nossa união — a delicadeza e a brutalidade de mãos dadas — e soube, com toda a certeza do mundo, que a minha vida agora tinha um novo propósito. O Tico que só pensava em guerra tinha morrido um pouco naquela madrugada. O Tico que agora vigiava o sono de Ayla estava apenas começando a entender que tipo de homem ele poderia ser. A tarde caía lá fora, e o morro do Turano se preparava para o que estava por vir. Mas ali dentro, o tempo tinha parado. Era só eu, ela, e a promessa de que o amanhã seria diferente. Porque agora, ela não era mais uma refugiada sem nome. Ela era a Ayla. E ela era minha responsabilidade. Eu encostei a cabeça no encosto da poltrona, sem soltar a mão dela, e pela primeira vez em muito tempo, senti que estava exatamente onde deveria estar.
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