O banheiro do postinho era pequeno, com azulejos brancos encardidos e o vapor da água morna começando a embaçar o espelho trincado. Tico entrou carregando Ayla como se ela fosse a coisa mais valiosa e frágil do mundo. Ele sentia a respiração dela, curta e trêmula, contra o seu pescoço. Quando a enfermeira indicou o box, Ayla olhou para a regata limpa de Tico e depois para o chuveiro, um rastro de preocupação cruzando seus olhos de mel. Ela não queria molhá-lo, não queria ser um estorvo.
— Relaxa, pequena — Tico murmurou, a voz saindo profunda e calma, vibrando contra o peito dele. — É só água. Minha roupa seca, o que importa é tu tirar essa craca de medo do corpo. Eu não vou te soltar e não vou olhar para onde tu não quiser. Sou teu escudo, lembra?
A enfermeira começou o processo com movimentos práticos. Tico, mantendo sua palavra, virou o rosto para a parede de azulejos, fechando os olhos ou fixando o olhar em um ponto qualquer no alto. Ele posicionou o corpo de forma que Ayla ficasse apoiada contra o seu peito e o seu braço esquerdo, criando uma base sólida para que ela não precisasse fazer força com as costelas quebradas.
— Pode tirar — Tico disse para a enfermeira, sentindo o peso de Ayla ceder conforme a camisola de hospital era removida.
A água morna começou a cair. Ayla soltou um gemido baixinho, uma mistura de dor pelo impacto da água nos roxos e um alívio ancestral por sentir a sujeira da Maré indo embora. Tico sentia a pele dela nua contra o seu braço, mas sua mente estava em modo de combate: foco total na segurança. Ele a segurava com a firmeza de uma rocha, sentindo os tremores dela diminuírem conforme o calor da água relaxava os músculos fustigados.
A enfermeira lavou o cabelo de Ayla com um shampoo de lavanda que Catarina trouxera. O cheiro doce inundou o cubículo, substituindo o odor de hospital. Com cuidado, a mulher passou a esponja pelo corpo dela, limpando as costas, as pernas e as partes íntimas com a rapidez profissional de quem sabe que o tempo ali era ouro. Tico permanecia imóvel, sentindo a água ensopar sua própria calça e tenis, mas ele não se movia um milímetro. Ele era o pilar que a mantinha de pé.
— Pronto, querida. Acabamos — a enfermeira disse, desligando o chuveiro.
Rapidamente, ela envolveu Ayla em uma toalha felpuda e grande. Só então Tico virou o rosto, vendo apenas os ombros e o rosto molhado da menina. Ele a pegou novamente no colo, sentindo-a muito mais leve agora que a tensão do banho passara.
Ao voltarem para o quarto, o caos se instalou no corredor. Gritos, o som de macas correndo e o rádio da enfermeira apitando loucamente.
— Emergência na triagem! Chegaram três baleados de um confronto no asfalto! — uma voz gritou lá fora.
A enfermeira olhou para Ayla, que já estava deitada na maca, envolta na toalha, e depois para Tico.
— Eu preciso ir! É o protocolo de m******e!
Antes que Tico pudesse responder, a mulher desapareceu pela porta, deixando o silêncio do quarto ser preenchido apenas pelo som da chuva que começava a cair lá fora e pelo bater do coração de Ayla.
Tico olhou para as sacolas da boutique e depois para Ayla. Ela o encarava com uma confiança silenciosa, embora estivesse visivelmente exausta. O rosto dele esquentou, algo raro para o soldado de elite do Turano.
— Olha... — Tico coçou a nuca, evitando olhar para o corpo dela por baixo da toalha. — Eu vou tentar, tá? Vou fazer do jeito que der, sem olhar muito. Não quero te desrespeitar, mas a gente precisa te vestir pra tu não pegar um resfriado.
Ayla assentiu devagar, os olhos dizendo que confiava nele.
Tico pegou o conjunto de pijama: um shortinho de seda e uma camiseta de alças finas. Ele começou pelo short. Com uma mão, ele levantou levemente o quadril dela, mantendo a toalha por cima como uma tenda. Ele deslizou o tecido macio pelas pernas finas dela, subindo centímetro a centímetro, sentindo a ponta dos dedos roçar na pele macia, mas mantendo o olhar fixo no teto ou na parede. Quando o short estava no lugar, ele soltou um suspiro de alívio que nem sabia que estava segurando.
— Agora a blusa — ele murmurou.
Ele retirou a toalha com cuidado e, ao posicionar a camiseta de alças, a luz forte do teto revelou o que a água tinha limpado. Tico travou. A barriga e os flancos de Ayla eram um mapa de horror. Marcas roxas, pretas cobriam a pele alva; eram as pegadas dos chutes do Abutre. Cada marca contava a história de um golpe covarde dado em alguém que não podia se defender.
A mão de Tico tremeu. Ele sentiu uma fúria tão cega que sua visão chegou a escurecer por um segundo. Aqueles hematomas na barriga dela eram a prova final de que o Abutre precisava ser riscado do mapa.
Ele vestiu a camiseta nela com uma delicadeza extrema, temendo que o simples toque do tecido causasse mais dor. Ayla percebeu a mudança no semblante dele, o maxilar dele travado, os olhos brilhando com uma promessa de morte.
— Tá tudo bem... — Tico disse, a voz saindo rouca enquanto ele terminava de ajeitar as alças. — Tu tá limpa agora, Ayla. Tá vestida e tá protegida. Ninguém nunca mais vai fazer uma marca dessas em ti. Eu te dou a minha vida como garantia disso.
Ele a cobriu com o lençol e o cobertor, ajeitando o travesseiro. Ayla esticou a mão esquerda e segurou a ponta dos dedos de Tico, um gesto de gratidão que parecia selar um pacto silencioso entre o soldado e a sobrevivente. Tico sentou-se na poltrona, ensopado do banho, mas sentindo-se mais homem do que em qualquer batalha que já vencera.
A noite caía, e no Quarto 04, o único som era o da chuva e o da promessa de vingança que crescia no peito de Tico.