TICO - VITÓRIA... DE UMA NOITE

915 Words
O relógio de parede do postinho de saúde marcou sete horas da manhã com um estalo seco. A luz do sol já começava a vencer as frestas da persiana, cortando a penumbra do quarto com feixes de poeira dourada. Eu não tinha pregado o olho. Minha mente era um carrossel de planos de invasão e imagens do rosto dela quebrado, mas o som que me trouxe de volta à realidade foi um suspiro entrecortado, seguido por um ruído de lençóis se revirando. Eu me ajeitei na poltrona de couro, meus sentidos em alerta máximo. Na maca, a garota começou a se mexer. Os olhos dela, ou o que restava de visível sob o inchaço roxo, abriram-se abruptamente. Foi um despertar de puro pavor. Ela olhou para o teto branco, para os tubos de soro, e a confusão tomou conta do seu rosto. Ela tentou se sentar, as mãos tateando o colchão com desespero, buscando uma saída, uma fuga que sua mente traumatizada ainda exigia. No momento em que ela forçou o tronco para cima, o grito veio. Foi um som agudo, abafado e carregado de uma agonia que parecia rasgar o ar. As costelas quebradas cobraram o preço do esforço. — Ei! Ei! Para! — Levantei da poltrona num salto, meu fuzil batendo contra o meu peito enquanto eu chegava ao lado da maca em dois passos. — Não se mexe, pequena! Pelo amor de Deus, não força! Eu não sabia se ela me reconhecia ou se eu era apenas mais um vulto de fuzil na vida dela, então tentei baixar o tom da minha voz, deixando-a o mais calma que um homem como eu consegue ser. Joguei o fuzil no chão para que ela não ficasse com medo. — Calma... Respira. Tu tá no Turano. No hospital do morro. Tu cruzou a divisa, lembra? Tu tá segura aqui. O Abutre não chega mais em ti. Acabou, ouviu? Acabou. Ela parou de lutar, desabando de volta no travesseiro com o peito subindo e descendo de forma irregular. Seus olhos se fixaram nos meus. Eram olhos grandes, cor de mel, agora nadando em lágrimas que transbordavam e escorriam pelas bochechas inchadas. Ela tentou abrir a boca, tentou articular alguma palavra, mas o maxilar, castigado pelos socos, travou. Ela soltou um ganido baixo de frustração e dor, as lágrimas lavando o sangue seco que ainda restava nos cantos do rosto. Eu estiquei a mão e, com o polegar, limpei uma lágrima que descia em direção ao corte no rosto dela. Minha mão parecia uma ferramenta de demolição perto da pele dela, mas eu tentei ser o mais leve possível. — Não tenta falar agora — eu disse, num sussurro. — Teu rosto tá muito machucado. Só precisa ficar calma. Ninguém vai te tocar aqui. Eu tô de guarda. Nesse exato momento, a porta do quarto se abriu. O médico e um enfermeiro entraram com bandejas de metal e novos curativos. O som da porta batendo contra o batente foi o suficiente para o pânico dela voltar com tudo. Ela deu um solavanco, e antes que eu pudesse recuar, a mão esquerda dela — a que não estava engessada — disparou e agarrou a barra da minha camiseta preta. Ela apertou o tecido com uma força que eu não achei que ela tivesse. Ela me puxou para perto, os olhos arregalados implorando para que eu não saísse dali, como se eu fosse a única âncora dela em um mar de pesadelos. Ela não queria o médico. Ela não queria o remédio. Ela queria a sombra que esteve ali a noite toda. Senti um soco no meio do peito ao ver aquele desespero. Eu me inclinei sobre a maca, ficando bem perto do rosto dela para que ela visse que eu não ia arredar o pé. — Eu tô aqui — falei, segurando a mão dela que apertava minha camisa e baixando-a devagar, mas sem soltar. — Eles só vão te examinar, pequena. Trocar o curativo pra tu melhorar logo. Eu envolvi a mão dela com a minha. Foi aí que o choque me pegou de verdade. A mão dela era minúscula, delicada, os dedos finos de quem não trabalhava com pesado, agora marcados por escoriações. Comparada à minha mão, que era larga, cheia de cicatrizes de briga e calos de gatilho, a dela parecia feita de porcelana. Senti uma onda de proteção tão violenta que minhas mandíbulas doeram de tanto apertar os dentes. Como é que alguém teve coragem de tentar quebrar algo tão frágil? — Vai ficar tudo bem — repeti, apertando levemente os dedos dela para dar firmeza. — Eu vou ficar bem aqui do teu lado. Não vou soltar tua mão, tá ouvindo? Eles fazem o serviço deles e eu faço o meu: garantir que tu saia dessa inteira. Ela relaxou os dedos aos poucos, mas manteve o aperto firme na minha palma. O médico se aproximou para checar os sinais vitais e o dreno da costela, e ela fechou os olhos com força, mas não me soltou. Eu fiquei ali, de pé, ignorando o cansaço e o peso do fuzil, servindo de escudo humano para uma menina que eu m*l conhecia, mas que já tinha tomado conta de todo o meu instinto de guerra. Pela primeira vez em anos, eu não estava protegendo um carregamento ou um território. Eu estava protegendo a vida. E, por Deus, o Abutre ia pagar por cada lágrima que eu vi cair daqueles olhos cor de mel hoje cedo.
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