O rádio de comunicação em cima da bancada de mármore da cozinha chiou, cortando o silêncio denso da madrugada no topo do Turano. Sete estava de pé, observando a imensidão das luzes da cidade lá embaixo, com um copo de café preto intocado na mão. Ele apertou o botão lateral com o polegar, a voz saindo baixa, porém carregada de uma autoridade que não admitia falhas.
— Fala.
— Patrão, os moleques da contenção da trilha acharam uma mina. Ela cruzou a mata sozinha, tá arrebentada de pancada. Diz que conhece a Dona Catarina, tá pedindo por ela, Sete. Tá m*l, muito m*l.
Sete sentiu o maxilar travar. Ele olhou para o corredor que levava ao quarto principal. Catarina finalmente tinha conseguido pegar no sono, um descanso pesado e necessário depois de tudo o que revelara sobre os depósitos do Abutre. Ele não ia acordá-la agora; não deixaria que o pavor a consumisse antes do sol nascer.
— Tico! — Sete chamou, e seu braço direito ja respondeu no rádio — Desce lá. Os moleques acharam uma garota na divisa. A gente ainda não sabe quem é. Vai verificar isso e fica de olho nela. Não deixa ninguém chegar perto até eu dar a ordem. Se for quem eu penso, o Abutre usou a menina pra descontar o ódio.
Tico apenas assentiu. Ele saiu da mansão a passos largos, o ar gelado do alto do morro batendo em seu rosto. Ele subiu em sua moto de alta cilindrada, e o ronco do motor rasgou o silêncio da vizinhança de luxo do Turano.
Tico pilotava com pressa, mas com a precisão de quem conhece cada curva e cada buraco daquelas vielas. Ele desceu em direção à base do morro, onde a mata fechada encontrava a civilização. Ao frear bruscamente na beira da trilha, os faróis da moto iluminaram uma cena que fez seu sangue ferver.
No chão, rodeada por três soldados da contenção, estava uma garota que parecia pouco mais que uma criança. Ela estava encolhida, o rosto desfigurado pelo inchaço e o sangue seco colando os cabelos cacheados na testa. O vestido claro, agora rasgado e sujo de barro, era o testemunho mudo da violência que sofrera. Tico fixou os olhos nela e sentiu uma pontada de ódio puro. Aquilo não era marca de troca de tiro; eram marcas de covardia.
— Dá a menina pra mim! Agora! — Tico gritou, a voz ecoando pela mata.
Ele saltou da moto antes mesmo de descer o descanso. Os soldados recuaram enquanto Tico se abaixava. Com uma força bruta, mas um cuidado que ele raramente demonstrava, ele a pegou no colo. A garota soltou um gemido de dor lancinante, a cabeça caindo sem forças contra o ombro dele.
Tico a acomodou sobre o tanque da moto, bem na sua frente, prendendo o corpo franzino dela entre seus braços fortes e o guidão.
— Segura em mim, pequena. Não apaga agora, por.ra — ele ordenou, o tom ríspido tentando esconder a preocupação.
Ele deu partida e arrancou. A subida de volta foi um borrão. Tico mantinha uma das mãos firme na cintura da garota, sentindo o calor do sangue dela manchar sua própria camisa. Ele não parou para nada. Quando chegou ao posto de saúde do morro, entrou buzinando e gritando pelos médicos de plantão.
— AJUDA AQUI! — ele berrou, descendo da moto com a menina nos braços. — Sete quer ela viva! Se essa garota morrer, a cabeça de vocês vai junto!
Ele a carregou para dentro da sala de emergência e a depositou na maca branca. Sob a luz forte, a extensão do estrago ficou clara: o braço em um ângulo errado, o supercílio aberto e as marcas de chutes por todo o corpo. Tico ficou parado no canto da sala, ofegante, observando os médicos cortarem o tecido do vestido dela.
Ele sacou o rádio, a voz saindo rascante:
— Sete, peguei a garota. Tá no postinho. Ela tá destruída, irmão. Moeram a menina. Tô de olho nela aqui, ninguém encosta.
Do outro lado, o silêncio de Sete foi mais ensurdecedor que qualquer grito. A guerra, que antes era por território e por Catarina, agora tinha se tornado algo muito mais pessoal. O Turano não ia apenas se defender; o Turano ia cobrar o preço de cada gota de sangue daquela garota desconhecida.