AYLA - TRAIDORA

1095 Words
O sol de meio-dia na Maré não trazia calor, trazia uma sensação de morte. Dentro da sede, o ambiente cheirava a pólvora, uísque entornado e o suor frio do medo dos soldados. Abutre estava sentado em sua poltrona de couro, que agora tinha rasgos feitos por sua própria faca em um surto de fúria. Seus olhos estavam injetados, as pupilas dilatadas pela falta de sono e pelo ódio que corroía suas entranhas. O fracasso da invasão ao Turano tinha sido a gota d'água; ele precisava de um culpado, alguém em quem pudesse descontar a humilhação de ter sido expulso como um amador por Sete. — Cebola! — o grito de Abutre ecoou pelas paredes de concreto, fazendo os vidros vibrarem. O soldado entrou tropeçando, o braço ainda na tipoia, o rosto pálido. — Pega aquela p*****a da manicure. Agora! — ordenou Abutre, apontando o dedo trêmulo para a porta. — A Catarina não respirava sem aquela garota do lado. Elas viviam de segredinho, de cochicho enquanto pintavam a por.ra da unha. Se a Catarina fugiu, aquela maldita da Ayla deu o caminho. Traz ela arrastada. Se ela reclamar, quebra os dentes dela. No alto da escadaria, Ayla tentava organizar sua mochila de fuga. Suas mãos tremiam tanto que ela derrubou o estojo de alicates, o metal batendo no chão de cimento com um som que pareceu um tiro em seus ouvidos. Ela sentia o perigo subindo o morro. O instinto de sobrevivência, aguçado pelos dezenove anos vivendo no olho do furacão, dizia que o tempo tinha acabado. Ela não teve tempo de fechar o zíper. A porta de sua casa, o portal para o santuário que ela construiu com cada gota de suor, foi escancarada com um chute violento. Três vapores invadiram o local, derrubando a prateleira de esmaltes. Os vidros se estilhaçaram, espalhando cores vibrantes pelo chão, misturando-se ao pó e à sujeira. — Vem com a gente, bonitinha. O patrão quer trocar uma ideia — disse Cebola, com um sorriso c***l. — Eu não fiz nada! Eu estava trabalhando! — Ayla gritou, tentando recuar para o canto da parede, mas foi agarrada pelos cabelos. Sem qualquer pingo de humanidade, os homens a puxaram para fora. Ayla foi arrastada escada abaixo, seus joelhos batendo contra os degraus de cimento, a pele raspando até sangrar. Seus gritos de socorro morriam no silêncio cúmplice dos vizinhos, que fechavam as janelas e trancavam as portas. Na Maré, olhar para o lado era a única forma de continuar vivo. Ela foi jogada no chão da sede, aos pés de Abutre. O impacto contra o piso sujo tirou seu fôlego. Ao levantar o rosto, ela deu de cara com a figura decrépita e insana do dono do morro. — Então você é a fiel da Catarina, hein? — Abutre disse, levantando-se lentamente. Ele circulou Ayla como um tubarão sente o cheiro de sangue na água. — Ela te contava tudo, não contava? Onde ela ia, com quem falava... quem ajudou ela a pular o muro? — Eu não sei de nada, patrão! Eu juro! — Ayla soluçou, encolhendo-se. — Eu só fazia as unhas dela! Ela não falava da vida dela pra mim! PÁ! O primeiro tapa veio com tanta força que Ayla foi lançada para o lado. O gosto metálico do sangue inundou sua boca instantaneamente. — MENTIRA! — Abutre berrou, agarrando-a pelo pescoço e levantando-a do chão até que as pontas dos pés dela m*l tocassem o piso. — Você deu o mapa pra ela! Você disse que o Sete ia aceitar ela! Você é uma traidora, igualzinha a ela! — Eu não sabia... da fuga... eu juro... — ela tentava articular, o ar sumindo, as lágrimas lavando o rosto sujo. Abutre a soltou e desferiu outro golpe, desta vez com as costas da mão, atingindo o supercílio de Ayla, que se abriu em um corte profundo. Ele estava possesso, a agressividade transbordando em cada movimento. Ele não queria respostas; ele queria destruir algo que Catarina amava. Abutre limpou o sangue da própria mão na camisa e olhou para os seus homens. — Leva ela pra praça. No meio de todo mundo. Eu quero que o morro inteiro veja o que acontece com quem conspira contra o Abutre. Mostra pra esses moradores o preço da traição. Ayla foi arrastada novamente, desta vez para o centro da favela, onde a luz do sol era mais forte e a humilhação, pública. Os vapores a jogaram no centro da praça de cimento. Abutre deu o sinal e os soldados começaram a bater. Foram chutes nas costelas, coronhadas de fuzil nos braços que ela usava para proteger o rosto, e humilhações verbais que doíam tanto quanto os golpes físicos. — OLHEM BEM! — gritava um dos gerentes de Abutre para a multidão que observava de longe, aterrorizada. — É ISSO QUE ACONTECE COM QUEM AJUDA INIMIGO! Ayla não conseguia mais gritar. Seus gemidos eram baixos, sufocados pelo sangue que borbulhava em sua garganta. Ela sentia o corpo falhar, a consciência desvanecendo entre uma dor e outra. Ela pensou nos pais, na roça silenciosa no interior, e depois pensou em Catarina. "Espero que você esteja segura", foi o último pensamento lúcido antes de um chute no estômago fazê-la apagar. Horas depois, quando o sol já começava a baixar, os vapores a pegaram como se fosse um saco de lixo e a levaram de volta para sua casa. Eles a jogaram dentro do pequeno salão, no meio dos vidros quebrados de esmaltes que agora pareciam manchas de uma tragédia anunciada. — Se você sumir do morro, a gente te acha no inferno e traz de volta — ameaçou Cebola, antes de fechar a grade e deixá-la ali, quebrada e sangrando. Ayla recuperou os sentidos lentamente. A dor era um incêndio que percorria cada nervo de seu corpo de 19 anos. Seu rosto estava inchado, um dos olhos completamente fechado pelo edema, e seu braço direito — o braço que ela usava para criar suas artes — estava em um ângulo estranho, possivelmente quebrado. Ela olhou ao redor, vendo seu sonho destruído. O "Espaço Ayla" estava em ruínas. Os esmaltes que ela comprou com tanta dificuldade estavam misturados ao seu próprio sangue no chão. Ela estava viva, mas o Abutre tinha arrancado dela tudo o que restava de sua paz. Arrastando-se com a força que lhe restava, ela buscou a mochila que tinha escondido. Ela não podia ficar ali. O Abutre voltaria. A única esperança agora era a mesma que Catarina teve: a divisa. Mas Ayla não sabia se seu corpo aguentaria o caminho.
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