O sol ainda nem tinha apontado no horizonte, mas o clima na mansão de Sete era de fumaça e pólvora invisível. Sete entrou em casa com os passos pesados, o rosto uma máscara de fúria contida que faria qualquer soldado recuar. Ele encontrou Catarina na sala, encolhida no sofá, segurando uma coberta como se fosse um escudo. Ela não tinha dormido; mas o olhar em alerta mostravam que ela sabia que o chamado na boca não tinha sido boa coisa.
Sete parou no meio da sala, jogando a chave da moto sobre a mesa de centro com um estalo metálico que fez Catarina sobressaltar.
— O que foi, Sete? — ela perguntou, a voz trêmula. — Pelo amor de Deus, me fala. O que o Abutre fez agora?
Sete respirou fundo, tentando controlar o tremor de ódio nas mãos. Ele se aproximou e sentou na poltrona diante dela, encarando-a com uma seriedade mortal.
— Ele mandou um "presente" para a entrada do morro, Catarina. Dois buquês de rosas brancas. Mas não eram flores de celebração. Elas estavam mergulhadas em sangue. Sangue de bicho, cheirando a carniça.
Catarina levou a mão à boca, sentindo o estômago revirar.
— Tinha um cartão para você — continuou Sete, a voz baixando de tom, tornando-se perigosa. — Ele escreveu que o seu vestido de noiva ainda está guardado. Disse que vai te buscar para o enterro de vocês dois. Ele quer te apavorar, quer que você sinta que ele é uma sombra atrás de você em cada canto dessa casa.
— E o outro? — Catarina sussurrou, as lágrimas já inundando os olhos. — Você disse que eram dois. O outro era para a Ayla?
Sete assentiu, e por um momento, a imagem de Tico explodindo lá embaixo voltou à sua mente.
— Para a Ayla. Ele prometeu que vai arrancar cada dedo das mãos dela. Disse que a Maré não esquece traidora. O Tico quase enlouqueceu, Catarina. Ele gritou na frente de todo mundo, disse que ele mesmo entrou no banho com ela porque ela não consegue parar de pé, que ela está com a barriga preta de tanto chute que levou... O Tico queria descer a ladeira e invadir a Maré sozinho, no peito e na raça.
Catarina desabou em choro, escondendo o rosto nas mãos. O som do seu lamento preencheu a sala luxuosa, transformando o conforto em cinzas.
— Ele não vai parar, Sete! Ele vai matar ela! Ele vai me matar! — ela soluçava, o corpo tremendo.
Sete levantou-se e ajoelhou-se na frente dela, segurando seus braços com firmeza, forçando-a a olhar para ele.
— Escuta bem o que eu vou te dizer. Ele acha que essas flores e esses cartões são sinal de poder. Mas, para mim, isso é sinal de desespero. Ele perdeu você, perdeu a inteligência da Ayla e agora está perdendo a linha. Ele cutucou o Tico, e o Tico não é um homem que esquece. Se antes essa guerra era por território, agora é por honra.
Sete limpou uma lágrima do rosto de Catarina com o polegar, mas seu olhar estava fixo no vazio, já traçando as rotas de ataque.
— Eu já dei a ordem. Os gerentes estão armando os fuzis. A gente não vai esperar ele mandar mais flores. Na próxima vez que o Abutre sentir cheiro de sangue, vai ser o dele escorrendo na calçada da sede. Eu vou transformar a Maré num inferno maior do que o que ele criou.
Catarina olhou para Sete e viu que não havia mais volta. O limite tinha sido ultrapassado com sangue e pétalas murchas.
— O Tico voltou para o hospital? — ela perguntou, tentando se acalmar.
— Voltou. Ele disse que não sai do lado dela por nada. A Ayla é a única coisa que importa para ele agora, e eu nunca vi o Tico olhar para ninguém do jeito que ele olha para aquela menina. Ela está segura, Catarina. Mas a paz acabou. Amanhã, o Rio de Janeiro vai acordar com o som da nossa resposta.
Sete levantou-se, pegou o rádio e saiu em direção ao escritório, deixando Catarina sozinha com o silêncio da casa, sabendo que, a partir daquele momento, cada rosa branca no mundo teria, para ela, o cheiro da morte que o Abutre prometera.