CATARINA - TRIBUNAL

1032 Words
A luz da manhã entrava pelas janelas da mansão, mas o silêncio lá dentro era cortado apenas pelo som distante dos rádios da contenção. Sete subiu os degraus da entrada com o corpo pedindo trégua, a mente ainda processando a conversa com o Chefe do Comando Vermelho. No andar de cima, Catarina tentava recuperar um pouco de autonomia. Apesar de ter ganhado roupas novas, nenhuma de marca, eram simples, ela se sentia mais segura envolta no cheiro dele. Estava vestindo uma camiseta preta de Sete, que batia no meio de suas coxas, e um short de dormir por baixo. O tecido era grande, pesado, mas era como um abraço constante que a protegia do mundo lá fora. Ela abriu a porta do quarto e encarou a escadaria. O pé cortado e costurado latejava, mas a fome e a agitação mental a impediam de ficar parada. Catarina apoiou a mão no corrimão e começou a descer, pulando num pé só, o corpo balançando perigosamente a cada degrau. — Mas que p***a você está fazendo, Catarina? — A voz de Sete ecoou do pé da escada, carregada de uma autoridade que a fez congelar no meio do caminho. Ele atravessou a sala em três passadas largas. Antes que ela pudesse dar o próximo pulo, Sete a envolveu pela cintura e pelas pernas, içando-a do chão como se ela não pesasse nada. — Você é teimosa demais, mulher. Quer abrir esses pontos e voltar pro hospital? O Tico já tem problema demais cuidando da Ayla, não precisa de você lá ocupando outra maca — ele resmungou, o rosto a centímetros do dela, a expressão dura escondendo a preocupação. — Eu estava com fome, Sete... — ela sussurrou, as mãos segurando os ombros dele por instinto. — Ia descer para fazer um café, preparar alguma coisa. Não consigo ficar trancada naquele quarto esperando as notícias. Sete não respondeu. Caminhou até a sala de jantar e a depositou com cuidado na cadeira de cabeceira. — Fica sentada aí. Eu não sou cozinheiro, mas sei apertar um botão — disse ele, indo em direção à cozinha. Catarina observou, em silêncio, o dono do Turano ligar a cafeteira expressa. Ele se movimentava com uma precisão bruta, pegando o bolo de fubá que a cozinheira deixara pronto, cortando fatias generosas de pão, colocando manteiga, queijo e presunto na mesa. Era uma cena doméstica surreal: o homem mais temido do morro servindo o café da manhã para a mulher que o Abutre jurara de morte. Quando ele finalmente sentou à frente dela, o clima mudou. Sete tomou um gole longo do café preto e fixou o olhar nos olhos dela. — A cúpula deu o papo, Catarina. O Abutre tá enquadrado por enquanto. Mas eles querem uma reunião. O Comando Vermelho e os cabeças da Maré. Eles querem ouvir você e a Ayla. Querem que vocês confirmem as covardias dele na frente de todo mundo. Catarina parou com o pedaço de pão no meio do caminho. O sangue pareceu sumir de seu rosto. — Reunião? Com eles? — A voz dela falhou. — Sete, você não entende... o Abutre vendeu a imagem dele pra facção. Ele é o "homem de ferro" deles. Eles nunca vão aceitar que um dos seus gerentes seja humilhado por causa de duas mulheres. Eles estão fingindo, Sete. Estão ganhando tempo para armar uma emboscada e levar a gente de volta. As lágrimas, que estavam represadas pela adrenalina, começaram a transbordar. Catarina soltou o pão e cobriu o rosto com as mãos, os ombros sacudindo em soluços pesados. — Eu não posso... eu não vou voltar pra lá. Eu prefiro morrer aqui, agora. Eu vou embora do Turano, Sete. Vou sumir, mudar de nome, ir pro sul, pra qualquer lugar onde esse cheiro de sangue não me alcance! Em um impulso de desespero, ela tentou se levantar da cadeira, esquecendo a dor no pé. Sete foi mais rápido. Ele se levantou e a segurou pelos braços, impedindo que ela desse um passo em direção à porta. — Olha pra mim! — ele ordenou, a voz saindo como um trovão baixo. Catarina colapsou contra o peito dele. Ela agarrou a camiseta de Sete com as unhas, chorando alto, deixando toda a angústia dos anos de abuso e o terror daquela última semana saírem. — Eu tenho medo, Sete... muito medo de voltar pra lá! Ele vai terminar o que começou! Ele vai me matar devagar na frente daquele morro inteiro! — ela gritava contra o peito dele, molhando o tecido preto com suas lágrimas. Sete a apertou com uma força que quase tirava o ar dela, mas era a força de uma âncora. Ele enterrou o rosto nos cabelos dela, sentindo o cheiro do shampoo que ele mesmo providenciara. — Ninguém vai te levar, Catarina. Você não vai embora do Turano e não vai voltar pra Maré enquanto eu tiver um sopro de vida. O Abutre pode ser o dono da facção dele, mas aqui dentro, ele não é nada. Eu sou o teu muro. Entendeu? Eu sou o teu muro. Aos poucos, o choro dela foi diminuindo, transformando-se em soluços curtos. O calor do corpo de Sete e a firmeza de suas palavras começaram a acalmar o caos dentro dela. Catarina levantou o rosto banhado de lágrimas, encontrando o olhar de Sete — aquele olhar que era ao mesmo tempo uma tempestade e um porto seguro. Sete não era homem de palavras doces ou poesias. Ele agia. Ele segurou o rosto de Catarina com as duas mãos grandes, os polegares limpando o rastro das lágrimas, e a beijou. Foi um beijo carregado da dualidade que era a vida deles: bruto, pela urgência e pela posse de quem reivindicava aquele território emocional; e doce, pela forma como ele suavizou o toque logo em seguida, protegendo o lábio dela que ainda estava sensível. Catarina correspondeu com a mesma intensidade, buscando nele a força que sentia faltar em si mesma. Ali, na cozinha silenciosa da mansão, o resto do mundo — o Abutre, a Maré, a cúpula do crime — deixou de existir por alguns instantes. Só existia o pacto de proteção que Sete acabara de selar com aquele beijo.
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