Lívia
Perdida em meus pensamentos sobre aquele homem mas acima de tudo, feliz por estar com meu pai, acabei dormindo. No dia seguinte acordei, escovei os dentes, tomei banho e desci para encontrar meu pai, ele já estava lá embaixo sentado a mesa.
— Bom dia. — abriu um largo sorriso ao me ver — Vem filha, junte-se a mim.
Fui até ele, o cumprimentei e me sentei para tomarmos café da manhã juntos.
— Pai, eu estou tão feliz de estar aqui... — declarei suspirando.
— Que bom minha querida. Eu também estou muito feliz por ter você comigo, minha princesa. — ele respondeu sorrindo, meu pai era o melhor homem do mundo.
Ergui a mão até a sua e apertei levemente.
— Eu preciso ir até a cidade para pegar algumas coisas na escola, meu histórico e algumas provas. Ouvi dizer que para iniciar na faculdade, deve ter o histórico escolar. O senhor pode me levar?
— Oh, hoje eu tenho muito serviço aqui na fazenda. Mas eu posso mandar algum dos empregados levar você lá.
— Ah sim, tudo bem.
— Você quer fazer faculdade de que?
— Veterinária, eu amo animais, apesar de nunca ter podido ter um. Certa vez me atrevi a pegar um gatinho para cuidar e o i****a do Leonel o matou.
Fiz uma careta ao lembrar.
— Maldito. — meu pai cerrou os punhos.
— Ele é um monstro.
Decidi mudar de assunto, falar sobre aquele homem poderia acabar com o dia de qualquer um e eu não queria estragar meu primeiro dia completo na fazenda.
— Esse bolo está tão bom. Quem fez? — perguntei me servindo de um segundo pedaço do bolo de milho, mesmo sabendo que era a Maria que cozinhava.
— A Maria, ela tem mãos de fada. — percebo um brilho nos olhos do meu pai — Quando terminar, vá pegar o que tem pra pegar enquanto eu chamo alguém para levar você na cidade.
— Tudo bem. — assenti e terminei meu café da manhã.
Subi correndo, sempre tive essa mania de andar correndo pela casa e muitas vezes apanhava por isso. Peguei minhas coisas, mas não encontrava um bendito papel com o comprovante da solicitação do histórico.
— Lívia! — ouvi meu pai chamar.
— Já vou pai! — exclamei — Desculpa, eu não estava encontrando um papel importante dentro da mala. — justifiquei enquanto descia a escada correndo.
Quase tropecei no último degrau da escada quando cheguei lá embaixo e dei de cara com o moço arrogante.
— Filha, esse é o Demétrio. Ele irá levá-la até a cidade para mim. Demétrio essa é a minha filha Lívia.
— Oi. — Demétrio falou friamente.
— Oi. — respondi da mesma forma — Vamos? Tchau pai, até logo.
Me despedi do meu pai e fui em direção a caminhonete que estava parada em frente as escadas da casa, logo supus que seria a do Demétrio, e por incrível que pareça ele abriu a porta do carro para mim. Apesar de ser arrogante pelo menos era um pouco cavalheiro.
Quando ele deu partida e o silêncio ficou muito incômodo para mim, tentei puxar assunto.
— Você trabalha com meu pai há muito tempo?
— Sim. — respondeu seco.
— Você mora naquelas casinhas bonitinhas que eu avistei da varanda? — tentei me aprofundar.
— Gostaria que ficássemos em silêncio e que parasse de ser curiosa. — disse sem tirar os olhos da estrada.
Então fiquei quieta e não perguntei mais nada. Chegando na cidade, ele dirigiu corretamente até a escola. Entrei na instituição e peguei o que tinha de pegar e voltei para o carro.
— Pronto. Podemos ir. — falei baixo, sem olhar para ele.
No caminho de volta para a fazenda, eu permaneci em silêncio e foi quando um barulho estranho soou na parte inferior da caminhonete.
— p***a. — Demétrio xingou, parou o carro e desceu.
— O que aconteceu? — indaguei.
— O pneu furou. — fiquei surpresa por ele me responder.
Desci do carro trás dele e observei quando ele começou a pegar algumas coisas e um estepe para trocar o pneu.
— Você quer ajuda? — perguntei, mesmo sabendo que não sabia nada sobre trocar um pneu.
— Achei que não iria perguntar. Vai me dando o que eu pedir.
— Ok.
Ajudei ele a trocar o pneu e quando terminamos, ele estava sujo de graxa, assim como minhas mãos. De repente ele tirou sua camisa irritado por ter se sujado revelando assim seu corpo bronzeado, dando-me a visão de seus músculos bem definidos que me deixaram boquiaberta. Ele era a perfeição no quesito beleza.
Olhar aquilo fez meu corpo esquentar, de imediato fiquei envergonhada por ter sentido isso. Mordi o lábio involuntariamente e no momento em que ele olhou para mim eu disfarcei meu olhar virando o rosto, ele vestiu outra camisa, eu entrei no carro e continuamos o caminho de volta.
Quando estávamos passando por uma ponte, ele parou bruscamente, fazendo meu corpo dar um impulso para frente que se não fosse o cinto de segurança, eu estaria com o nariz quebrado.
— Você ouviu isso? — perguntou.
— Não. Eu estava distraída. O que foi?
Demétrio desceu do carro correndo como um louco e eu fui atrás preocupada e confusa.
— O que você ouviu? — gritei indo atrás dele.
Ele desceu rápido em um barranco e lá tinha um carro quase pegado fogo com uma pessoa dentro gritando cansado por socorro. Meu coração começou martelar o peito e o pavor tomou conta de mim.
— Oh, meu Deus!
— Vá até a caminhonete e ligue para a emergência! Meu celular está no porta luvas. — gritou enquanto tentava tirar o homem de dentro do carro.
Fiz como ele disse, corri até o carro e peguei o celular, disquei o número da emergência e dei as cordenadas de onde estávamos, para minha sorte a ponte era uma referência e uma placa mais a frente também, caso contrário eu não saberia indicar o local.
Voltei para o barranco e o vi lutando para tirar o homem, o fogo começava a ficar mais forte na parte traseira do automóvel caído. Para piorar ou melhorar, começou a chover, e depois de alguns minutos, Demétrio conseguiu tirar o homem que já estava desacordado.
— Temos que nos afastar, o carro pode explodir. — ele falou, puxando o homem com o cuidado que podia para mais longe do carro em chamas.
E quando estávamos distante, o barulho de uma explosão encheu nossos ouvidos. Meu estômago revirou, iria explodir com o homem dentro se Demétrio não tivesse o tirado de lá, era um senhor de idade.
A emergência chegou rápido, como se já estivessem passando pelas redondezas, aplicaram os primeiros socorros e o levaram para o hospital.
— Espero que ele fique bem. — eu disse e olhei para ele. Estávamos encharcados.
— Eu também. — respondeu tenso, olhando para o nada. — Vamos embora, já está tarde e seu pai já deve estar preocupado.
— Ok.
Demétrio deu partida outra vez e eu fechei a janela quando o vento ficou muito forte e eu comecei a tremer de frio, sempre fui sensível ao frio, qualquer vento meu queixo já começava a bater e minha boca ficava roxa.
Ele percebeu que eu estava com frio e pegou uma camisa dele no banco de trás e jogou no meu colo, em silêncio. Eu entendi o recado e vesti a camisa também em silêncio, mesmo ele sendo rude, foi um gesto doce.
Quando finalmente chegamos a fazenda, ele abriu a porta do carro pra mim e eu desci.
— Demétrio... — o chamei — Obrigada.
Ele apenas assentiu com a cabeça e virou as costas. Entrei em casa, meu pai não estava em nenhum lugar, então fui para o meu quarto, sentei-me na cama, tirei a camisa do Demétrio e senti o cheiro dele. Mesmo ele sendo tão rude, eu não conseguia parar de pensar nele.