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687 Words
(Jade narrando) O morro nunca dorme. Mas naquela noite… parecia que ele estava me observando. É estranho explicar, mas quem cresce aqui aprende a sentir essas coisas. O silêncio diferente, o jeito que as pessoas olham, o ar mais pesado. Alguma coisa estava fora do lugar. E eu sabia exatamente o que era. Eu só não queria admitir. Apertei o casaco contra o corpo e continuei andando pela viela, ignorando o barulho do baile lá em cima, as risadas, o som estourando nas caixas. Minha cabeça estava em outro lugar. Ou melhor… em alguém. — Não era pra você estar aqui essa hora. Eu fechei os olhos por um segundo. Droga. Eu conhecia aquela voz. Não era só porque todo mundo conhecia. Era porque ela tinha um jeito de entrar em mim que eu odiava. Virei devagar. — Eu moro aqui — respondi, seca. Victor estava encostado na parede, meio escondido na sombra, como se fizesse parte dela. Como se sempre estivesse ali. Observando. Esperando. O olhar dele veio direto em mim, sem pressa, sem desviar. Aquilo me irritava. A forma como ele olhava. Como se já soubesse tudo. Como se eu fosse só… mais uma coisa dele. Ele se afastou da parede e veio na minha direção. Devagar. Seguro. Sem medo de nada. Claro que não. Ele era o VK. — Eu sei onde você mora — disse. — E sei onde você não devia estar. Cruzei os braços, sustentando o olhar. — Desde quando você manda em mim? Silêncio. Pesado. Eu senti antes mesmo dele responder. Quando ele parou na minha frente, perto demais, o ar pareceu diminuir. — Desde que você começou a chamar minha atenção. Meu estômago virou. De raiva. Só de raiva. Eu ri, mas foi seco, sem graça nenhuma. — Então para de olhar. Erro. Eu percebi na mesma hora. Victor inclinou levemente a cabeça, como se eu tivesse acabado de desafiar alguma coisa dentro dele. — Não. Simples assim. Sem discussão. Sem opção. Aquilo me deu vontade de dar um soco nele. Eu não era uma das meninas que abaixavam a cabeça só porque ele era quem era. — Você tá acostumado com mulher que obedece — falei, firme. — Eu não sou uma delas. Ele deu mais um passo. Agora não tinha mais espaço entre a gente. Eu senti o calor do corpo dele, o cheiro… e aquilo me irritou ainda mais. A mão dele subiu devagar e segurou meu queixo. Firme. Sem machucar. Mas também sem pedir. Meu coração disparou. E eu odiei isso. — Eu não tô acostumado com mulher nenhuma — ele murmurou perto demais. — Eu tô acostumado a conseguir o que eu quero. Meu sangue ferveu. Segurei o pulso dele e afastei com força. — Então escolheu errado. Por um segundo… Só um segundo… O olhar dele mudou. Escureceu. E aquilo me deu uma sensação r**m. Porque eu percebi. Não era mais só interesse. Era outra coisa. Mais funda. Mais perigosa. Victor passou a língua pelos lábios devagar, como se estivesse pensando. Como se estivesse me estudando. — Eu não erro. A voz saiu baixa. Certa demais. Dei um passo pra trás. — Todo mundo erra. Ele negou com a cabeça, sem tirar os olhos de mim. — Eu não. Meu coração bateu mais forte. E eu não sabia se era de raiva… Ou de outra coisa que eu me recusava a sentir. — Vai embora, Jade. Eu franzi a testa. — Tá me mandando embora agora? — Tô. — E se eu não for? Ele se aproximou de novo. Mais devagar dessa vez. Mais perigoso. A voz veio no meu ouvido: — Eu vou te buscar. Um arrepio percorreu minha espinha. E aquilo me irritou ainda mais. Empurrei o peito dele com força. — Tenta. Virei de costas e saí andando. Sem olhar pra trás. Nunca olho. Nunca. Mas dessa vez… Eu senti. O olhar dele nas minhas costas. Pesado. Marcando. Como se eu tivesse acabado de fazer a pior escolha da minha vida. E talvez tivesse mesmo. Porque no fundo… Bem no fundo… Eu sabia. O VK não corria atrás. Ele tomava.
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