Capítulo 1 — Ricardo narrando
Dois anos depois
Dois anos.
Setecentos e trinta dias.
Eu nunca fui homem de contar tempo.
Pra falar a verdade, nunca tive tempo pra isso.
Mas quando você perde alguém…
Você começa a contar tudo.
Dias.
Meses.
Aniversários.
Datas que gostaria de esquecer, mas o coração faz questão de lembrar.
Hoje faz exatamente dois anos que eu perdi a Vitória.
E, por incrível que pareça…
O mundo continuou girando.
Acendi mais um cigarro enquanto observava a Maré acordar pela varanda da cobertura.
O primeiro do dia.
Mentira.
Já era o terceiro.
Passei a mão pela barba por fazer e soltei a fumaça devagar.
Lá embaixo o movimento começava cedo.
Os comércios levantando as portas.
Moto subindo viela.
Crianças correndo atrás de bola.
Mãe chamando filho pra escola.
A vida…
A vida nunca parou.
Nem por ela.
Nem por mim.
Durante muito tempo eu tive raiva disso.
Achava um absurdo o mundo continuar funcionando como se nada tivesse acontecido.
Como alguém podia rir quando a minha vida tinha acabado?
Depois entendi.
A vida nunca pede licença.
Ela simplesmente continua.
E você escolhe…
Ou acompanha…
Ou fica pra trás.
Os primeiros meses foram um inferno.
Não existe palavra mais bonita pra descrever.
Inferno.
Passei dias sem conseguir dormir.
Quando fechava os olhos…
Via ela.
Quando conseguia dormir…
Sonhava com ela.
Acordava pior do que tinha deitado.
O álcool virou companhia.
Antes eu bebia em comemoração.
Depois…
Passei a beber pra esquecer.
Toda noite era a mesma coisa.
Boate.
Whisky.
Cigarro.
Mulher.
Outra boate.
Outro whisky.
Mais cigarro.
Outra mulher.
Nada resolvia.
Nenhuma delas ficava.
Nem eu queria.
Entravam na minha cama.
Saíam antes do amanhecer.
Nem o nome eu perguntava.
Porque, no fundo…
Eu sabia.
Nenhuma delas era a Vitória.
E nunca seriam.
As pessoas gostam de dizer que o tempo cura.
Mentira.
O tempo não cura p***a nenhuma.
Ele só ensina a gente a conviver com a dor.
Hoje ela ainda existe.
Só não me derruba mais.
Aprendi a trabalhar carregando esse peso.
Aprendi a liderar com esse vazio.
Aprendi a respirar mesmo faltando ar.
A Maré cresceu nesses dois anos.
Muito.
A facção confiou ainda mais em mim.
Conquistamos novos pontos.
Fortalecemos nossas rotas.
Hoje ninguém entra na Maré sem autorização.
Ninguém.
Léo assumiu boa parte das operações.
Virou meu braço direito de verdade.
O moleque amadureceu.
Ainda continua impulsivo às vezes.
Mas aprendeu.
Pedro…
Esse virou o cérebro financeiro da comunidade.
Controla cada centavo que entra e sai.
Se deixar na minha mão…
Eu gasto tudo com cigarro e bebida.
Ele vive reclamando.
— Tu vai morrer desse jeito, chefe.
Sempre respondo a mesma coisa.
— Todo mundo vai morrer, p***a.
Uns mais cedo.
Outros mais tarde.
Ele nunca acha graça.
Vini continua sendo o mesmo.
Leal.
Quieto.
Resolve qualquer problema antes mesmo de chegar em mim.
É o tipo de homem que todo chefe precisa ter do lado.
Brenda…
Brenda continua trabalhando no escritório de contabilidade.
Ela e o Léo ficaram noivos no ano passado.
Confesso…
Nunca imaginei ver aquele maluco apaixonado.
Hoje ele vive olhando foto de buffet, decoração e essas porras que eu nunca pensei que existissem.
Dou risada da cara dele sempre que posso.
Ele manda eu ir arrumar uma mulher.
Como se fosse simples.
Como se bastasse querer.
Não basta.
Luiza continua próxima deles.
Lúcia e Henrique seguem no escritório.
A vida de todo mundo andou.
Inclusive a minha.
Só que de um jeito diferente.
Nunca mais levei mulher nenhuma pra dentro da cobertura.
Nunca mais apresentei ninguém pros caras.
Nunca mais deixei alguém dormir até o amanhecer.
Aquilo ali…
Continuava sendo só meu.
Ou talvez…
Continuasse sendo nosso.
Olhei automaticamente para a moldura que permanecia sobre a estante.
Não era uma foto enorme.
Nem chamava atenção.
Mas estava ali.
Do jeito que eu queria.
Discreta.
Ela sorria.
Toda vez que eu olhava…
Parecia perguntar por que eu ainda fumava tanto.
Sorri de lado.
— Tu ia continuar brigando comigo… — murmurei.
Peguei a carteira de cigarro.
Mais um.
Acendi.
Ultimamente eu fumava quase duas carteiras por dia.
Bebia quase uma garrafa inteira de whisky nas noites mais difíceis.
Os médicos diriam que eu tava me matando aos poucos.
Talvez estivessem certos.
Mas eu nunca gostei muito de médico.
Muito menos de conselho.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Ignorei.
Continuou vibrando.
Olhei o nome na tela.
Léo.
Atendi.
— Fala.
— Tá acordado?
Revirei os olhos.
— Tu tá me ligando, c*****o.
— Bom… faz sentido.
— O que foi?
— Heitor chegou.
Passei a mão no rosto.
Tinha até esquecido daquela p***a.
Fazia quase um mês que o jornalista insistia naquele projeto.
Mostrar a verdadeira realidade da Maré.
Não o que aparecia na televisão.
Mas o dia a dia.
As pessoas.
Os trabalhadores.
Os comerciantes.
As crianças.
No começo neguei.
Depois pensei melhor.
Talvez estivesse na hora de mostrar que a comunidade era muito maior do que arma e tráfico.
Autorizei.
Mas coloquei regras.
Muitas regras.
— Já tô descendo.
— Tem mais uma coisa.
Fiquei em silêncio.
Conhecia aquele tom.
Sempre vinha problema.
— Fala logo.
— Ele trouxe uma influencer junto.
Soltei a fumaça devagar.
— E daí?
— Ela faz parte do projeto.
Dei de ombros.
— Desde que respeite minhas regras…
Pouco me importa quem ela seja.
Léo demorou alguns segundos pra responder.
— Acho melhor tu descer logo.
Franzi a testa.
— Por quê?
Ele riu do outro lado.
— Porque ela tá fazendo live.
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
— Tá de s*******m.
— Queria tá.
Desliguei sem responder.
Peguei a chave da cobertura.
Óculos escuros.
Pistola.
Coloquei tudo no lugar de sempre.
Enquanto descia pelo elevador…
Nem imaginava que aquela manhã seria o começo da maior confusão que entrou na minha vida desde a morte da Vitória.
Lá embaixo…
Uma mulher morena, de cabelos longos, óculos escuros e um celular apontado para o próprio rosto caminhava pela entrada da Maré como se estivesse passeando num cartão-postal.
Ela sorria para a câmera.
— Bom dia, meus amores! Hoje vocês vão conhecer um lugar que quase ninguém tem coragem de mostrar de verdade…
Parei a poucos metros dela.
Cruzei os braços.
Esperei ela terminar de falar.
Ela nem percebeu que eu estava ali.
Mas eu já tinha percebido uma coisa.
Ela ainda nem tinha entrado direito na Maré…
E já estava quebrando a minha primeira regra.