📖 CapÃtulo 3 — Ricardo narrando
As minhas regras
Sempre detestei gente que acha que pode entrar na minha casa fazendo o que bem entende.
A Maré era isso.
Minha casa.
Muito antes de ser território.
Muito antes de ser conhecida.
Muito antes de ser manchete de televisão.
Eu nasci ali.
Cresci ali.
Vi gente morrer ali.
Vi criança nascer.
Vi famÃlia passar fome.
Vi trabalhador sair às quatro da manhã e voltar dez da noite.
A televisão nunca mostrou isso.
Só mostrava tiro.
Droga.
Sangue.
Como se ali dentro só existisse bandido.
Por isso aceitei aquele documentário.
Não porque gostava de aparecer.
Muito pelo contrário.
Quanto menos soubessem sobre mim, melhor.
Mas talvez fosse hora de mostrar que a Maré era muito maior do que meia dúzia de reportagem sensacionalista.
Só que tinha uma condição.
Tudo seria do meu jeito.
Acendi mais um cigarro antes de entrar na sala improvisada da administração.
Léo já me esperava.
Pedro também.
Vini estava encostado na porta, atento ao movimento lá fora.
— Tá todo mundo a� — perguntei.
Léo assentiu.
— Só esperando tu.
Empurrei a porta.
O ambiente ficou em silêncio imediatamente.
Heitor levantou da cadeira.
— Ricardo…
Assenti com a cabeça.
— Heitor.
Olhei rapidamente para as outras pessoas da equipe.
Cinegrafista.
Produtor.
Assistente.
Uma mulher responsável pelo som.
E…
Ela.
A morena dos stories.
Sentada na ponta da mesa, mexendo no celular como se estivesse na sala da própria casa.
Nem levantou a cabeça.
Nem fez questão de me cumprimentar.
Folgada.
Continuei andando até a cabeceira da mesa.
Apaguei o cigarro no cinzeiro.
Cruzei os braços.
— Vamos perder pouco tempo.
Todos prestaram atenção.
Menos ela.
Ainda digitava alguma coisa.
Ignorei.
— Se vocês estão aqui, é porque eu autorizei.
Ninguém entra na Maré sem minha palavra.
Heitor confirmou com a cabeça.
— E eu agradeço por isso.
— Não agradece ainda.
O silêncio voltou.
— Porque eu tenho regras.
E quem não souber cumprir…
Vai embora.
Meu tom era calmo.
Nunca precisei gritar pra ser obedecido.
Olhei diretamente para o cinegrafista.
— Primeira regra.
Nada de filmar arma.
Ele fez uma anotação.
— Segunda.
Nada de filmar homem da facção.
Nem rosto.
Nem costas.
Nem sombra.
Se aparecer alguém armado…
A câmera abaixa.
Simples assim.
Todos concordaram.
Continuei.
— Terceira.
Nada de mostrar ponto de venda.
Nada de localização estratégica.
Nada de caminho de acesso.
Nada que coloque essa comunidade em risco.
A produtora levantou a mão.
— E se aparecer sem querer?
— Corta.
Ela anotou.
— Quarta regra.
Nada de live.
Foi justamente nesse momento que ouvi uma voz do outro lado da mesa.
— Mas…
Olhei diretamente para ela.
Ela finalmente tinha levantado os olhos do celular.
— Live nem mostrando o comércio?
Respirei devagar.
— Eu falei…
Nada de live.
Ela inclinou a cabeça.
— Por quê?
Pedro soltou uma tossida discreta.
Como se já imaginasse onde aquilo ia dar.
Voltei a olhar para Elis.
— Porque eu tô mandando.
Ela sorriu.
Sorriu.
Na minha cara.
— Não é uma justificativa muito boa.
Léo abaixou a cabeça para esconder a risada.
Lancei um olhar pra ele.
Ele ficou sério na hora.
Voltei para ela.
— Tu trabalha com internet.
Eu trabalho com segurança.
São coisas diferentes.
Ela cruzou os braços.
— Mas eu também sei tomar cuidado.
— Não sabe.
Respondi sem pensar duas vezes.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Como pode ter tanta certeza?
Dei um passo na direção dela.
— Porque tu acabou de chegar.
Eu tô aqui desde que nasci.
Conheço cada viela dessa comunidade.
Conheço cada risco.
Cada problema.
Cada consequência.
Tu não conhece nenhuma.
O sorriso dela desapareceu.
— Então você acha que eu sou irresponsável?
— Acho.
Ela respirou fundo.
Heitor resolveu entrar na conversa.
— Elis…
Ela levantou a mão.
— Não.
Quero entender.
Olhou novamente para mim.
— Você realmente acredita que eu não sei fazer meu trabalho?
— Acredito.
O clima ficou pesado.
Pedro olhava para um.
Depois para outro.
Vini permanecia imóvel perto da porta.
Léo já parecia se divertir.
Ela levantou da cadeira.
Ficamos praticamente da mesma altura.
— Engraçado…
Falou calmamente.
— Porque eu construà minha carreira sozinha.
Nunca precisei de ninguém dizendo o que eu podia ou não fazer.
Dei um meio sorriso.
Sem humor nenhum.
— Parabéns.
Aqui continua sendo diferente.
Ela não desviou o olhar.
Tinha personalidade.
Isso eu precisava admitir.
Mas personalidade demais, naquele lugar, podia virar problema.
— Quinta regra. — continuei, ignorando a provocação.
— Nenhum conteúdo é publicado antes da equipe me mostrar.
Ela arregalou os olhos.
— O quê?
— Tu ouviu.
— Isso é censura.
— Não.
É segurança.
Ela balançou a cabeça negativamente.
— Eu nunca trabalhei desse jeito.
— Então vai ser a primeira vez.
Ela deu uma risadinha incrédula.
— Você gosta de controlar tudo, né?
Olhei bem nos olhos dela.
— Gosto de manter gente viva.
A sala inteira ficou em silêncio.
Nem ela respondeu de imediato.
Aproveitei.
— Sexta regra.
Nenhuma criança aparece em vÃdeo sem autorização dos responsáveis.
Nada de gravar casa sem permissão.
Nada de entrar em área restrita.
Se algum dos meus homens disser que não pode…
Não pode.
Ponto final.
Heitor confirmou rapidamente.
— Tudo bem.
Concordamos.
Elis soltou um suspiro.
— Eu só acho…
Fechei a cara.
— Eu não perguntei o que tu acha.
Ela mordeu o canto da boca.
Por um segundo achei que fosse ficar quieta.
Achei errado.
Ela deu um passo à frente.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Mandando em todo mundo.
Léo pigarreou discretamente.
Pedro passou a mão no rosto.
Os dois já estavam prevendo a merda.
Olhei para ela sem mudar a expressão.
— Sou.
Ela sorriu de lado.
Daquele jeito provocador.
— Deve ser cansativo viver achando que todo mundo tem que obedecer você.
Inclinei levemente a cabeça.
— E deve ser perigoso viver achando que regra não serve pra nada.
Nossos olhares ficaram presos um no outro.
Ninguém dizia absolutamente nada.
Era como se o restante da sala tivesse desaparecido.
Ela respirou fundo.
Depois sorriu outra vez.
— Sabe de uma coisa?
Esperei.
Ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha.
E respondeu, olhando diretamente nos meus olhos:
— Eu nunca gostei de homem mandão.
O silêncio que veio depois…
Foi pesado o suficiente para todo mundo perceber que aquela mulher ainda ia tirar muita paciência de mim.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Eu tive a estranha sensação de que aquela história estava só começando.