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1014 Words
📖 Capítulo 5 — Ricardo narrando Ela fala demais Nunca fui curioso sobre a vida de ninguém. Cada um que carregasse os próprios problemas. Sempre pensei assim. Talvez por isso tenha estranhado tanto perceber que, desde a hora em que aquela mulher entrou na Maré, meus olhos insistiam em procurá-la. Era irritante. Muito irritante. Acendi outro cigarro enquanto observava a movimentação da comunidade da varanda da sala da administração. Lá de cima dava pra enxergar boa parte do movimento. Quem entrava. Quem saía. Quem não era dali. Era costume. Anos fazendo aquilo. Meu olhar percorreu a rua principal até encontrar a equipe do documentário. Heitor gravava algumas imagens. O cinegrafista ajeitava os equipamentos. E ela… Falava. Falava pra c*****o. Era impressionante. A mulher parecia não cansar nunca. Conversava com comerciante. Depois com criança. Cinco minutos depois já tava rindo com uma senhora que vendia bolo. Mais dez minutos… Já conhecia metade da rua. Soltei a fumaça devagar. — Não para um segundo… — murmurei. Léo apareceu ao meu lado segurando um copo de café. Seguiu meu olhar. Não demorou nem dois segundos pra descobrir quem eu observava. Sorriu de canto. — Tá acompanhando a influencer? Nem olhei pra ele. — Tô acompanhando quem entrou na minha comunidade. — Sei… Revirei os olhos. — Para de viagem. Léo riu. — Tu tá olhando pra ela faz meia hora. — Tô olhando o trabalho dela. — Aham. Ignorei. Voltei a prestar atenção. Elis segurava o celular com uma naturalidade que impressionava. Parecia esquecer completamente que estava sendo filmada enquanto gravava. Não tinha roteiro. Não tinha texto decorado. Ela simplesmente conversava. Mostrava. Perguntava. E, de alguma forma… As pessoas gostavam dela. Vi um grupo de crianças correndo atrás dela. Ela abaixou na altura de um menino. Pegou ele no colo. Começou a rir de alguma coisa que ele falou. Poucos segundos depois… Já tinha uma fila querendo aparecer no vídeo. Balancei a cabeça. — Parece um ímã. Léo escutou. — O quê? — Nada. Ele continuava olhando a cena. — Ela leva jeito com criança. — Criança gosta de quem dá atenção. — Ela tá dando. Traguei o cigarro. — Tá. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Meu celular vibrou. Mensagem do Pedro. “As contas da carga de amanhã já estão prontas.” Respondi apenas: “Depois vejo.” Guardei novamente. Olhei outra vez para a rua. Ela agora conversava com um rapaz que vendia água de coco. Gesticulava enquanto falava. Ria alto. Tocava no braço das pessoas enquanto conversava. Muito diferente da Vitória. Vitória escutava mais do que falava. Falava baixo. Observava primeiro. Agia depois. Elis parecia viver ao contrário. Primeiro fazia. Depois pensava. Passei a mão no rosto. — Que mulher barulhenta… Léo deu risada. — Tu tá ficando velho. Olhei pra ele. — Ou ela fala demais. — Acho que os dois. Empurrei o ombro dele. — Vai trabalhar. Ele começou a rir. — Tá bom, chefe. Mas antes de sair voltou a falar. — Só uma coisa. Esperei. — Faz tempo que eu não te vejo reparar em alguém. Não respondi. Nem precisava. Ele me conhecia. Conhecia até meus silêncios. Assim que saiu, permaneci ali. Observando. Não ela. Ou pelo menos era isso que eu tentava convencer a mim mesmo. Heitor fazia o trabalho dele direito. Perguntava. Escutava. Registrava. Gostei disso. Não invadia. Não forçava. Já a influencer… Parecia não conhecer limite. Ela entrou numa loja de roupas sem avisar. Depois numa padaria. Mais tarde num salão de beleza. Em todos os lugares saía sorrindo. Como se conhecesse aquelas pessoas havia anos. Estranho. Muito estranho. Meu rádio chiou. — Chefe. Peguei o aparelho. — Fala. — Caminhão já entrou. — Confere a carga. — Pode deixar. Desliguei. Continuei olhando. Uma senhora chamou Elis para dentro de casa. Ela entrou sem pensar duas vezes. Cinco minutos depois saiu abraçando a mulher. Balancei a cabeça. — Tá vendo? — falei sozinho. — Ela confia em qualquer um. O problema não era ela confiar. O problema era achar que todo mundo merecia confiança. Ali dentro… Nem sempre mereciam. Apaguei o cigarro. Acendi outro. Ultimamente um terminava antes do outro começar. Meu médico já tinha reclamado algumas vezes. Não dei ouvidos. Nunca dei. A vida já era curta demais pra alguém me dizer quantos cigarros eu podia fumar. Lá embaixo, Elis caminhava novamente pela rua principal. Um grupo de adolescentes cercou ela. Pediram foto. Ela parou. Conversou. Brincou. Gravou vídeo. Quando terminou, um dos meninos saiu dizendo: — Ela é gente boa pra caramba! Sorri sem querer. Porra. Até eu precisava admitir. Ela tratava todo mundo igual. Não fazia diferença se era comerciante. Morador. Criança. Idoso. Ela olhava nos olhos das pessoas. E isso… Era raro. Meu pensamento foi interrompido pelo Pedro entrando na sala. — Tá ocupado? — Nunca. Ele colocou uma pasta sobre a mesa. — Assina isso depois. Assenti. Ele caminhou até a varanda. Olhou para baixo. Depois para mim. Depois para baixo outra vez. — Tá acompanhando a gravação? — Tô. Pedro cruzou os braços. — A menina parece boa. Dei de ombros. — Parece inconveniente. Ele riu. — Também. Olhou novamente. — Mas consegue conversar com qualquer um. — Fala demais. Pedro gargalhou. — Tu implica com qualquer pessoa que fale mais que tu. — Impossível. — Concordo. Ficamos alguns segundos em silêncio. Foi então que meu olhar travou. Meu corpo endureceu automaticamente. Ela não… Não podia. Elis caminhava distraída, olhando para o celular enquanto gravava outro vídeo. Nem percebeu que tinha deixado a rua principal. Nem percebeu que estava entrando justamente na direção da viela onde começava uma das áreas restritas da Maré. Meu maxilar travou. — c*****o… Pedro percebeu na hora. — O que foi? Apontei discretamente. — Olha onde aquela maluca tá indo. Ele acompanhou meu olhar. Na mesma hora fechou a cara. — Ela não sabe. — Mas eu sei. Joguei o cigarro no chão. Pisei com força. Já caminhando para a escada. — Se ela der mais dez passos… Vai entrar exatamente onde eu proibi. E eu não tinha a menor intenção de deixar isso acontecer.
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