📖 Capítulo 6 — Elis narrando
Eu faço o que eu quiser
Eu sempre fui curiosa.
Talvez curiosa até demais.
Foi justamente essa curiosidade que me tirou do orfanato, me fez criar um perfil na internet quando ninguém acreditava que aquilo podia virar profissão e me levou para lugares que eu nunca imaginei conhecer.
Se hoje eu vivia do meu trabalho…
Era porque nunca tive medo de atravessar portas.
E, naquele momento, a viela à minha frente parecia apenas mais uma porta.
Não tinha fita de isolamento.
Não tinha placa.
Não tinha ninguém dizendo “proibido entrar”.
Só era mais silenciosa do que o restante da comunidade.
Olhei para trás.
Heitor ainda entrevistava uma comerciante alguns metros depois.
A equipe também estava ocupada.
Sorri sozinha.
— Vou gravar rapidinho…
Peguei o celular.
Abri a câmera.
— Gente…
Olha isso aqui.
Apontei a câmera para a viela.
— Eu tô andando pela Maré e uma coisa que tá me chamando muito a atenção é como cada cantinho parece contar uma história diferente…
Comecei a caminhar devagar.
As casas eram mais próximas umas das outras.
As paredes cheias de grafites.
Uma senhora regava plantas na janela.
Duas crianças brincavam de bolinha de gude.
Era bonito.
Muito bonito.
Continuei falando para a câmera.
— É isso que eu queria mostrar pra vocês…
Porque ninguém mostra esse lado…
Só que, antes que eu terminasse a frase…
Ouvi uma voz atrás de mim.
— Eu mandei tu parar.
Meu corpo inteiro travou.
Fechei os olhos por um segundo.
Não precisava nem olhar.
Já sabia quem era.
Virei devagar.
Ricardo vinha andando na minha direção.
Sem pressa.
Mas dava para perceber que estava irritado.
Muito irritado.
Os olhos fixos em mim.
A mandíbula travada.
As mãos nos bolsos da calça.
Quando parou na minha frente, falou baixo.
Baixo até demais.
— Desliga.
Olhei para o celular.
Depois para ele.
— Tô terminando.
— Eu falei…
Desliga.
Respirei fundo.
— Você pode esperar cinco segundos?
Foi a pior resposta que eu poderia ter dado.
Ele deu mais um passo.
Agora estávamos perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro forte do cigarro misturado com perfume.
Sem dizer mais nada…
Ele estendeu a mão.
Pegou meu celular.
Eu nem tive tempo de reagir.
— Ei!
Tentei puxar de volta.
Ele levantou o braço.
— Ricardo!
Ele simplesmente bloqueou a tela.
Entrou na galeria.
Abriu o vídeo.
E apagou.
Meu sangue ferveu.
— Você ficou maluco?
Ele continuou mexendo no aparelho.
Apagou da lixeira também.
Só então devolveu.
Olhei para a tela.
O vídeo realmente tinha sumido.
Levantei a cabeça completamente indignada.
— Você não tinha direito nenhum de fazer isso!
Ele permaneceu completamente calmo.
— Tinha.
— Não tinha!
Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
— Esse celular é meu!
— A comunidade é minha.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
Sério mesmo que ele tinha acabado de dizer aquilo?
— Você acha que manda em tudo?
Ele respondeu sem alterar a expressão.
— Aqui dentro…
Mando.
Cruzei os braços.
— Isso é ridículo.
— Ridículo é tu entrar onde eu falei que não era pra entrar.
Olhei ao redor.
— Eu não vi placa nenhuma.
— Não precisa.
— Precisa sim.
Ele respirou fundo, como quem tentava manter a paciência.
— Tu tá vendo aquelas crianças ali?
Olhei.
As duas continuavam brincando.
— Tô.
— Tu sabe quem mora na próxima rua?
Balancei a cabeça.
— Não.
— Tu sabe o que acontece se alguém reconhecer esse lugar numa live?
Permaneci em silêncio.
Ele continuou.
— Tu sabe quantas famílias podem correr risco por causa de um vídeo de trinta segundos?
Engoli seco.
Nunca tinha pensado por esse lado.
Mas meu orgulho falou mais alto.
— Eu não mostrei nada demais.
— Porque eu cheguei antes.
As palavras dele me irritaram de novo.
— Você podia simplesmente conversar.
Não precisava arrancar meu celular.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Conversei.
Na reunião.
Tu resolveu ignorar.
Abri a boca para responder.
Ele foi mais rápido.
— Tu ouviu todas as regras.
Mesmo assim entrou.
Quem escolheu isso foi tu.
Aquilo me fez perder a paciência de vez.
— Você fala como se eu tivesse cometido um crime!
— Dependendo do vídeo…
Teria cometido.
O silêncio caiu entre nós.
Pela primeira vez, percebi que ele realmente não estava tentando me humilhar.
Ele estava preocupado.
Mas isso não justificava o jeito bruto.
Balancei a cabeça.
— Você podia aprender a falar sem parecer que tá dando ordem o tempo inteiro.
Ele deu um meio sorriso.
O primeiro desde que eu o conheci.
Mas não era um sorriso simpático.
Era daqueles que misturavam ironia com desafio.
— E tu podia aprender a escutar.
Meu sangue ferveu outra vez.
— Eu escuto quem me respeita.
Ele cruzou os braços.
— Respeito também se conquista.
Ficamos alguns segundos apenas nos encarando.
Era estranho.
Muito estranho.
Porque eu estava com muita raiva dele.
Mas, ao mesmo tempo…
Não conseguia desviar o olhar.
Os olhos dele eram intensos.
Firmes.
Como se analisassem cada reação minha.
Balancei a cabeça, tentando voltar para a realidade.
— Quer saber?
Peguei o celular da mão dele.
— Eu vou gravar o que eu achar que devo gravar.
Ele deu um passo à frente.
Ficamos perto de novo.
Perto demais.
Falou tão baixo que só eu consegui ouvir.
— Experimenta quebrar mais uma regra…
Pra ver o que acontece.
Meu coração acelerou.
Não de medo.
De irritação.
Ergui o queixo.
Encarei aqueles olhos escuros sem baixar a cabeça.
E respondi no mesmo tom:
— Eu faço o que eu quiser.
Os olhos dele estreitaram.
Por um instante, tive a impressão de que ele ia responder.
Mas não respondeu.
Apenas continuou me olhando.
Como se tentasse decidir se eu era a mulher mais corajosa…
Ou a mais inconsequente que já tinha colocado os pés na Maré.
E, sinceramente…
Nem eu sabia a resposta.