# Capítulo 10
Pedro Alcântara Montenegro
A sensação de controle é uma ilusão doce que eu permito que Laura alimente.
Do meu escritório, observava através das telas do sistema de monitoramento interno. As câmeras de alta definição do subsolo mostravam a figura elegante dela sentada diante do terminal, a postura ereta, os dedos trabalhando com uma precisão cirúrgica no teclado.
Ela achava que o pendrive que trouxera escondido na jaqueta passara despercebido. Não passou.
O dispositivo fora detectado pelos sensores biomagnéticos da porta do subsolo no momento em que ela entrou. Eu sabia exatamente o que continha aquele arquivo e o que ela esperava encontrar: mais respostas sobre Helena, mais dados para usar como alavanca ou fuga.
O que Laura ainda não percebeu é que na minha rede não existem acessos não monitorados. O pendrive dela executou um ambiente virtualizado (*sandbox*) sem que ela notasse. Cada comando, cada tentativa de descriptografia que ela fazia estava ocorrendo dentro de uma simulação perfeita. Eu a deixava avançar apenas para ver a determinação nos olhos dela.
Ela não era como as outras. Helena se desfez sob pressão em poucas semanas, entregando-se ao pavor e ao desespero. Laura, por outro lado, tornava-se mais fria, mais calculista, mais perigosa.
E isso me fascinava em níveis que eu m*l conseguia conter.
Levantei-me da poltrona de couro e ajustei as mangas da camisa social preta. Desci as escadas para o subsolo sem pressa, o som dos meus passos abafado pelo revestimento acústico até o momento em que abri a porta de acesso.
Ela nem piscou. Manteve os olhos fixos na tela, embora o tremor sutil na linha dos ombros denunciasse que sentira minha presença.
— Encontrou o que procurava, Laura? — perguntei, a voz suave, parando logo atrás da cadeira dela.
Ela fechou a janela do terminal com um comando rápido, mas não se encolheu. Girei a cadeira dela para me encarar.
— Encontrei apenas o que você quis que eu encontrasse — disse ela, sustentando meu olhar com uma coragem que quase parecia real. — Tudo nesta casa é uma cena montada por você, não é?
Inclinei-me, apoiando as mãos nos braços da cadeira, encurralando-a contra o encosto. Os olhos cinzentos fixos nos dela.
— A inteligência é a sua maior virtude, querida — murmurei, aproximando meu rosto do dela até sentir sua respiração acelerar. — E também o que vai manter você presa a mim para sempre
Laura Vasconcelos
O ar no subsolo parecia subitamente mais rarefeito.
Quando vi a tela do terminal piscar com uma mensagem de ambiente virtualizado minutos antes de Pedro entrar, meu estômago despencou. O pendrive era inútil. O acesso ao servidor era uma ilusão. Ele sabia de cada passo meu desde o momento em que pisei naquela sala.
Mas, em vez de me paralisar, o pânico deu lugar a uma clareza gelada.
Se Pedro jogava criando ilusões de controle, o meu erro fora tentar combater no terreno dele — a tecnologia. No mundo dos códigos e servidores, ele era imbatível. Mas Pedro era um ser humano, por mais que tentasse agir como uma máquina fria e perfeita. Ele tinha um ponto cego: o próprio ego e a obsessão por mim.
— Você gosta do jogo, não gosta? — perguntei, a voz saindo surpreendentemente tranquila, sem o tremor que atormentava meu peito.
Pedro ergueu uma sobrancelha, um brilho de curiosidade genuína cruzando seus olhos cinzentos.
— Que jogo?
— O jogo de me ver tentar — disse, erguendo a mão devagar para tocar a gola da camisa dele, sentindo o tecido caro e o calor da pele por baixo. — Você não quer uma prisioneira quebrada que chora no canto do quarto. Você quer alguém que continue tentando lutar, porque é isso que alimenta a sua obsessão.
A expressão dele travou por uma fração de segundo. Acertei na ferida.
— Você se julga muito perspicaz, Laura — ele respondeu, a voz baixando um tom, perigosamente grave, enquanto a mão dele subia para o meu pescoço, o polegar pressionando levemente a minha pulsação desordenada.
— Eu sou observadora, Pedro — retruquei, sustentando o toque sem recuar. — Você pode controlar a Holding, o meu contrato e os servidores desta ilha. Mas no momento em que você precisa recorrer a chantagens para me manter aqui, você já confessou que não tem controle sobre mim.
O silêncio que se seguiu foi denso, quebrado apenas pelo ruído constante dos coolers de refrigeração da sala.
Pedro não piscou. O olhar dele desceu para meus lábios e voltou para meus olhos, uma mistura intensa de raiva contida e desejo primitivo queimando naquelas pupilas cinzentas. Ele se inclinou mais, selando nossos lábios em um beijo profundo, lento e brutalmente possessivo, puxando meu corpo contra o dele com uma força que não deixava espaço para dúvidas.
Quando ele se afastou, o hálito quente roçando na minha pele, sussurrou:
— Nós vamos ver até onde vai a sua resistência, Laura. O helicóptero chega ao anoitecer. Voltamos para São Paulo. Mas não pense por um segundo que a sua gaiola ficou menor.