Nora foi para a cidade no dia do seu aniversário, quando nem mesmo Jace sabia que a data estava chegando. Acabara de completar 20 anos, e ele não disse nada, nem ao menos um “feliz aniversário”. Ela sabia por quê: ele nem sabia quando era.
Ela sabia quando era o dele: 12 de junho. Sabia qual era a comida favorita dele, costelinhas de porco com molho barbecue de mostarda picante. O terno favorito dele era o azul-marinho de abotoamento duplo que usava para ir ao escritório no mundo humano. Ele tinha cinco ternos idênticos, apenas trocando a camisa e a gravata.
Ela aprendeu muito sobre ele nas primeiras cinco semanas, fez muitas perguntas sobre ele e o que gostava. Mas agora, sentada sozinha em um café no dia do seu aniversário, encarando o pedaço de cheesecake de chocolate com mousse que comprou para si mesma, percebeu que ele não perguntou nada sobre ela em retorno.
— Feliz aniversário, Nora. — ela murmurou para si mesma e se forçou a comer aquele bolo, mesmo sem vontade, querendo apenas esmagá-lo e gritar alto, antes de desabar em lágrimas pelo rumo que sua vida tomou, ali no mundo humano, onde não precisava esconder como se sentia quando estava dentro daquela Alcateia.
Passou o dia fora, apenas caminhando pelo shopping, olhando vitrines. Verificou o saldo bancário, pensando em comprar um presente para si mesma, mas decidiu não fazer isso. Sabia que precisava economizar cada centavo para sua saída da vida na Alcateia em poucos meses, quando o novo semestre começasse. Então, se permitiu comprar apenas aquele pedaço de bolo e um latte para acompanhar.
Mas que se danasse se ela passaria o aniversário na Alcateia, onde ninguém sabia da data ou se importava com ela. Então, passaria o dia apenas com ela e Rosa, olhando vestidos bonitos e roupas que, um dia, num futuro distante, ela poderia comprar para si mesma, quando terminasse sua graduação e tivesse um emprego próprio.
Voltando para a Alcateia no final da tarde, viu uma placa para os jardins botânicos e, percebendo que nem ela nem Rosa estavam prontas para retornar, estacionou no estacionamento e caminhou pelos jardins, apenas observando.
Ainda estava fazendo isso quando seus pais ligaram para desejar feliz aniversário. Ela sorriu e agradeceu, perguntou como eles estavam e desviou quando perguntaram o que Jace havia dado a ela de presente.
— Ainda não sei — ela disse simplesmente, e então completou: — Ele está na cidade, no escritório. Vai ser à noite, com o jantar. — Foi tudo o que disse enquanto se sentava à sombra de uma grande árvore. Mais uma vez, estava mentindo para eles. Era tudo o que parecia fazer ultimamente, porque não queria contar a verdade.
Não havia presente vindo, e ela sabia disso. Fechou os olhos enquanto se encostava na árvore e mudou de assunto para-os seus estudos. Falou sobre como achava que tinha arrasado na última prova e esperava que os resultados a levassem ao seu primeiro 4.0.
Ambos riram da sua animação, e até ela podia ouvir a felicidade na sua voz ao falar sobre isso. Os seus estudos eram seu único consolo naquele momento, a única coisa na sua vida que lhe trazia alegria dentro daquela Alcateia. Então, deixou que isso a preenchesse e permitiu que seus pais ouvissem tudo. Era uma espécie de normalidade, o que os levava a acreditar que ela estava bem e impedia que percebessem as mentiras que contava.
Porque como alguém poderia estar tão super feliz e cheio de animação quando toda a sua vida era uma mentira e a miséria vivia em sua alma, quando a sua própria loba não emergia dentro da Alcateia, apenas quando estava fora dela?
Eles não perguntaram, ela notou, sobre a Cerimônia de Luna, nem tocaram no assunto durante a conversa. Era provável que soubessem que algo estava errado, mas, com ela tão feliz com seus estudos e dizendo que nada estava errado, eles a deixavam em paz.
Eles, pensou ela, estavam agora apenas esperando que ela lhes contasse, quando estivesse pronta, que algo estava errado, ou talvez achassem que as coisas ainda estavam sendo resolvidas. Nem todos os Vínculos de Par eram perfeitos, e Jace era muito mais velho que ela; havia uma enorme diferença de idade. Então, às vezes, era necessário um período de adaptação quando isso acontecia.
Eles poderiam muito bem pensar que ela estava ocupada com aulas de Luna, algo que Jace nunca mencionou uma única vez. Ele já tinha uma Luna naquele escritório, e se ela passava por ali, Gloria fazia questão de lembrá-la que era a Luna. Certa vez, Gloria se levantou e fechou a porta do escritório da Luna na cara dela, olhou diretamente para ela e disse:
— Por favor, não interrompa os assuntos da Luna, isso não é para você. — Gloria estava lá com uma de suas amigas na ocasião.
Nora estava apenas passando pelo corredor, sem intenção de interromper. Ela entendia muito bem qual era seu lugar dentro daquela Alcateia. Após a ligação com seus pais terminar, ela se encostou em uma árvore e se perguntou o que Jace faria no dia em que ela decidisse rejeitá-lo. Se perguntou como ele se sentiria quando ela optasse por voltar para casa em algumas semanas sem ele.
Será que ela ao menos lhe diria que estava indo para casa? Não sabia. Ele não estaria lá, estaria fora, e ela poderia simplesmente partir depois que ele saísse. Provavelmente ele nem perceberia. Duvidava que Gloria o ligasse para contar; ela ficaria feliz em vê-la fora da Alcateia, e Nora sabia disso.
Não mentiu para seus pais sobre ele estar fora em outra Alcateia para uma bola de acasalamento. Três meses na Alcateia, e todas as luas cheias estavam completamente ocupadas com ele organizando ou participando de uma bola de acasalamento.
Ela se perguntou qual seria a reação dele. Uma parte dela estava curiosa para saber se ele ficaria irritado com ela simplesmente partindo ou não. Ou será que ele simplesmente ignoraria completamente? Pelo amor, pelo que sabia, ele poderia até dizer: — Vá, se divirta, passe mais alguns dias lá se quiser. — Assim, poderia passar um tempo de qualidade com Gloria sem se preocupar com ela vendo.
Pelo amor, ela se perguntou se sentiria o cheiro daquela mulher na Suíte do Alfa quando voltasse. Era provável, embora, se ele lhe causasse dores de traição enquanto estivesse na sua Alcateia natal, ela simplesmente optaria por não voltar. Seu antigo Alfa garantiria sua proteção, e ela sabia disso. Ele era um bom homem e a aceitaria de volta na Alcateia por esse motivo.
Uma parte de Nora queria que Jace fizesse isso, que a traísse enquanto ela estivesse fora da Alcateia, que seus pais vissem, que o Alfa visse e, quando tudo terminasse, que ele a reintegrasse na Alcateia natal. Ela talvez não pudesse rejeitar Jace sem ele estar na sua frente, mas ele sentiria ela se desvincular da Alcateia, mesmo que o vinculo de companheiros ainda estivesse intacto.
Ele também teria que ligar para a Alcateia natal dela e perguntar se ela estava lá, porque ela não atenderia o telefone. Ele teria que falar com o Alfa dela, e sabia que ele seria informado de que ela sofreu as dores da traição e optou por ficar na Alcateia natal, e que ele poderia ir até lá e rejeitá-la devido aos seus modos infiéis.
Ela se perguntou o que ele faria se não apenas fosse exposto ao seu antigo Alfa, mas tivesse que ir até ela para rejeitá-la. Será que ele iria até ela ou apenas recusaria e continuaria a traí-la? Pelo amor, ele poderia marcar e se unir a Gloria, efetivamente destruindo-a, o que lhe daria o que queria.
Outra parte dela só queria emitir uma rejeição e acabar com tudo de uma vez, mas Gloria ainda não sofreu nada; ela ainda tinha o amor e a atenção daquele homem todos os malditos dias. Ela ainda não encontrou uma forma de ferir aquela mulher, e queria fazer isso por Rosa tanto quanto por si mesma.
Embora, se ela entrasse na casa da Alcateia hoje, no seu aniversário, e emitisse uma rejeição, será que ele a encararia completamente chocado ou apenas assentiria e aceitaria? Viraria para Gloria e levaria aquela mulher para sua cama, já que não pôde fazer isso por meses.
Ela sabia que ele queria, tocava Gloria com frequência suficiente para Nora saber disso; ele passou a mão pelo cabelo da mulher naquela manhã mesmo, e caminhou com Gloria de braço dado até o carro, para todos verem, para Nora ver. Mesmo hoje, no seu aniversário, ela teve que sofrer com ele tocando outra.
Uma parte dela realmente queria tocar outra pessoa da mesma maneira, só para se vingar, mas não era do seu feitio; ela não seria como ele. Não, ela não trairia o seu vinculo de companheiros e daria a ele a desculpa para chamá-la de infiel. Mas ela, sabia, garantiria que toda a Alcateia soubesse que ele era antes de ela partir.
Ainda não tinha descoberto exatamente o que faria ou como faria, mas mostraria a ele que sabia exatamente quem e o que ele era. Mostraria àquela Alcateia que ele era um canalha mentiroso e traidor, que não merecia ter uma Companheira Abençoada pela Deusa. Ele poderia ficar com Gloria depois que ela partisse, e Nora não se importaria em pensar nele nunca mais.