Rayssa
Mais um plantão finalizado e o cansaço me venceu, só queria ir pra casa tomar um banho demorado e cair na cama, comer algumas besteiras e dormir tranquila com meu dengo.
Que a propósito, finalizava o plantão junto comigo, já que ele é policial e quase não tínhamos momentos juntos.
Tentávamos conciliar nossos plantão para ficarmos juntos mais vezes.
Guardei meu jaleco na bolsa e soltei meu cabelo, deslizando os dedos entre ele para soltar os cachos.
Morava perto do hospital, então ia pra casa andando mesmo. Já que a maior parte do tempo em que eu não estava de plantão, estava em casa e me tornando uma grande sedentária.
Caminhava em passos curtos, observando a rua movimentada até demais, havia polícias em todos quarteirões o que achei estranho, mas continuei andando.
Senti meu celular vibrar na bolsa e bufei, odeio falar no telefone andando, parece que eu fico mais cansada do que já estou.
Olho o visor vendo que é Julia e atendo.
- já sentindo saudades? - perguntei ouvindo sua respiração ofegante do outro lado da linha.
- O carinha de cabelo verde... - Julia fez uma longa pausa ao falar. - fugiu do hospital, aqui tá um caos.
- agora isso é problema de vocês, ainda bem que eu saí antes de saber disso. Sei que sobraria pra mim e eu estou exausta, 36 horas de plantão não é pra qualquer um.
- A gente precisa de você aqui, Rayssa. - sorri negando com a cabeça.
- Tchau, Julia. Só volto daqui 2 dias!
Desliguei a ligação sem nem ao menos dar chance dela responder, que ele fugiu do hospital, eu já previa, só não entendo onde isso é problema meu.
Continuei andando doida pra chegar em casa, meus pés estavam pedindo socorro. Já distante do hospital, vi um carro se aproximar e olhei de lado observando um menino aparentemente jovem, não passava de seus 20 anos.
— Ei? — ouvi ele me chamar e me fiz de sonsa, como se não fosse comigo — vai negar voz mesmo?
— Tá falando comigo? — parei virando em sua direção e cruzando os braços.
— Não po, tô falando com tua sombra. — bufei revirando os olhos e já ia me virar para continuar andando — tô falando contigo mesmo, zoi de gato. Entra no carro aí!
— Por que eu faria isso? — ele já logo fechou a cara.
— Porque se tu não entrar por bem, vai entrar por m*l. Meu patrão quer ver tu, doutora. Então facilita as coisas pra mim! — bufei abrindo a porta do carro e sentando atrás.
— Eu já falei que sou enfermeira, e não posso ajudar ele em muita coisa.
— Que seja, ele só quer cuidar da ferida. — desviou o olhar de mim e voltou a olhar pra pista saindo dali — É um prazer conhecer tu, Rayssa.
— Queria poder dizer o mesmo, mas felizmente não tenho o hábito de mentir. — ele deu meio sorriso negando com a cabeça e acelerou o carro, dando um arranco que quase fez meu cotação parar.
De fato eu já esperava por isso quando Julia avisou que Filipe havia fugido, agora só quero ir lá fazer o bem dito curativo nesse ser irritante e ir pra casa o mais rápido possível.
Avisaria meu namorado, mas o que iria falar? "Ah, o dono da Penha me obrigou a subir o morro e fazer curativo nele, depois de ter fugido do hospital."
Certeza que ele iria reunir um batalhão pra invadir aquele morro e começar uma guerra sem necessidade, então deixaria de lado.
No carro tocava um funk baixinho, e eu respirava fundo revirando os olhos. Eu mereço!
— Qual seu nome? — perguntei e ele olhou pra trás — Olha pra frente, tá afim de bater o carro?
— Quer saber meu nome pra que?
— É o mínimo que eu deveria saber, tu tá me levando sabe se lá Deus pra onde. — olhei pela janela do carro e nunca que chegava a esse tal morro.
— Pode me chamar de Nino, doutora! — ele continuou dirigindo batendo o polegar no volante.
Por que caralhos aquele duende do cabelo verde falou pra ele que sou médica?
Observei o carro de aproximar do morro e as casas a maioria sem embolso, crianças correndo pela rua e homens armados na entrada.
Eu não tinha medo de armas, até por que convivo com duas pessoas que fazem o uso delas. Mas saber que aquilo estava em mãos erradas me causavam certos calafrios. Será que sabem usar isso mesmo?
Nino parou o carro bem na subida falando algo para um deles no lado de fora, que afirmou com a cabeça e ele ligou o carro subindo.
Passei os olhos ao redor e olhando a energia contagiante que havia no lugar. Era bem movimentado, crianças, bares, cachorro correndo um atrás do outro e o som alto ecoando pelo ar.
Nino parou o carro em frente uma casa amarela com enormes portões, havia 3 homens parados que conversavam entre si.
Ele desceu do carro e eu logo em seguida, respirei fundo acompanhando ele.
— Essa que é a famosa doutora? — um branquinho com tatuagem no pescoço perguntou.
— Vejo que o patrão de vocês tem falado bem de mim. — retruquei sabendo que ele devia ter falado um monte de merda.
— ah, ele falou sim. — deu meio sorriso abrindo aquele enorme portão. — pode entrar, po. Terror já tá te esperando? — terror? Que vulgo horrível é esse? Pensei.
Passei pelo portão bufando de ódio da cara desse homem, tem mais o que fazer não.
Me aproximei da porta e uma menina bem novinha veio me atender, aparentava não ter nem 20 anos.
— Quem é você? — perguntou cruzando os braços e batendo o pé no chão.
— Rayssa. Onde está Filipe? — estiquei o pescoço por cima dela tentando visualizar ele dentro da casa.
— Filipe? — franziu a testa me olhando torto. — Terror — gritou que eu fechei os olhos. Voz irritante. — Que p***a é essa aqui? Por que essa mulher tá te chamando pelo seu nome?
Vi ele se aproximar sem camisa e com o peito cheio de curativo.
— Ah, e aí doutora. — deu um sorriso inclinando a cabeça para o lado — Bem-vinda a minha humildade residência — passei os olhos ao redor, que de humildade não tem nada, casa era luxuosa até demais. Talvez eu largue a enfermagem e vire traficante. Ri dos meus próprios pensamentos!
— Não vai me explicar que p***a essa mulher tá fazendo aqui? — a morena do cabelo longo ainda se encontrava irritada com a minha presença, se ela soubesse o quanto eu desejava estar em minha casa e não aqui, ela ficaria mais tranquila.
— Vamos logo com isso? Tenho várias coisas pra fazer. — disse ignorando totalmente a presença da menina ao meu lado. Vai surtar atoa.
—- Terror c*****o! — deu mais um daqueles gritos enjoado com aquela voz fina de adolescente problemática.
— Tu não alugou meu ouvido não, p***a. Para de gritar nesse c*****o! — caminhou até a porta afastando a menina para que eu pudesse entrar. — entra aí doutora. — assenti com a cabeça e passei por ela sem nem olhar pra trás — E tu Renata, vai dar um role, tá enchendo meu saco já!
Ela saiu pisando duro e Filipe voltou sua atenção a mim, me olhou sorrindo e fechando a porta.
— Eu mereço! — bufei revirando os olhos.