Minha função é manter a ordem no morro. Só isso. Existe muitas pessoas que querem bagunçar no meu morro, e isso eu não admito. Infelizmente tenho que usar muitas vezes de coisas que não gosto. Mas fazer o que? Eu sou o rei... Merda de doutora! Dono do morro.
— Gringo! — Um dos meus parceiros gritou na porta do barraco/escritório do topo do morro.
— Chega aí. — tentei ver quem era. Biel. Meu amigo de infância e braço direito. Ele sentou na cadeira com cara de preocupado. — O que foi?
— O Mau, cara. Me contaram que ele tá querendo pegar uma parte da leste pra ele. Pegaram um dos parças dele entregando droga lá naquela banda.
Filho da p**a.
Maurício, mais conhecido como Mau. Ele quer tomar o morro de mim.
Sonhador...
— E o rolinha? Não tá veno isso não? — minha preocupação aumentou. Já não basta o problema de minha mãe.
— Ele tava focado no negócio de trazer a doutora pra cá... Aí eles aproveitaram.
Isso me deixa putasso.
— Uma tarde Biel, uma tarde eles saíram pra pegar ela. Como é que esse cara sabia que a área ía tá limpa? E porque o rolinha não deixou alguém tomando conta?
— Sei lá. Talvez tenha alguém aqui do lado deles. Um X9.
Um X9? No meu morro? Esse cara não tem amor a vida não?
Tem grandes chances de ser verdade.
— Um X9, Biel? Tem alguma ideia? Alguém suspeito?
— Não. Mas eu posso dar uma investigada se você quiser.
— Pra ontem. Quero os cara tudo naquele lado do morro. Pega as metralhadora. Qualquer sinal daqueles filho da p**a pode descer a bala. — ordenei com raiva. — Aquele o****o não vai brincar comigo de novo.
Da última vez levei um tiro no braço e acertei o ombro dele. Mas da próxima vez eu não erro. Eu mato aquele o****o.
— E a doutora? Ela tá ficando na sua casa?
— Tá. Porque? — fiquei balançando os dedos encima da mesa. Essas coisas me deixa nervoso.
— Os cara tão tudo falando que a é gostosona, toda bonita, cara de rica. — contou sorrindo.
Ela é tudo isso mesmo.
— Ela é bonita. Mas é chata pra caramba e fica me chamando de "rei do morro".
Ele tá escutando e rindo. — E não deu bola pra tu ainda não?
— Ainda não. Mas deve tá se fazendo de difícil. Tá aqui só a um dia. Não deu tempo ainda. — ri. — Sandrielly foi afrontar ela. — contei rindo.
— Sério? — ele riu também.
— Tô falando. E a loira é brava viu. Não abaixou a cabeça pra Sandrinha não. Tava escutano na frente do barraco. Ela toda cheia de resposta.
— Só na marra.
— É, só na marra. Ela disse que eu não fazia o tipo dela não. Que de onde ela vem tem de monte. Cê acredita?
— A mulher é braba. Deve ser pra não arranjar briga com a Sandrinha. Cê sabe que aquela doida pra matar uma é só chegar perto de você.
— E como sei. Acho que ela nem sabe da Bruninha.
— Bruninha? Tu tá pegando a Bruninha?!
Os rolos que me meto.
— Ela fica se jogando pra cima de mim. O que eu vou fazer? Me passar por viado?
— Cê é doido. — ele tá em negação, mas sorrindo. — Tem mais?
Pensei em não contar, mas já que estamos na conversa.
— A Paty. Só e acabou.
Ele tá de queixo caído.
— Filho da mãe! Três! Cê já pensou na enrascada? Paty é cheia das paranoia. Logo ela vai querer ser sua dona.
— Ela nem venha com isso pra cima de mim. Só peguei ela uma vez. É boa, mas tô fora. Já basta as outras.
— E a doutora vai entrar na lista?
A doutora?
— Não. É muita marra pra eu aguentar. Prefiro aturar a Sandrinha e a Bruninha juntas.
Mas quem sabe um dia...
[...]
No caminho de volta ao meu barraco, ouvi a doutora falando com um moleque.
— Pede pra sua mãe te levar no posto de saúde que eles vão fazer você ficar bem de novo. — orientava toda carinhosa.
Quem vê assim até pensa.
— Valeu doutora.
— Pode me chamar de Manu. E qualquer coisa é só me procurar na casa do rei do morro.
— Rei do morro? É o gringo?
— É esse cão mesmo. — ela saiu andando na direção do meu barraco.
Me chamou de cão?! Que abusada!!
Cheguei em casa logo depois dela. Ela tá olhando as sacolas das roupas.
— Encontrou as roupas, Manu? — fechei a porta.
— Emanuelle pra você. Manu é pros íntimos.
Cheia de marra.
— Ata, então você é íntima de um moleque de 8 anos que conheceu dois minutos atrás? — perguntei com sarcasmo.
Ela revirou os olhos e riu. — Vai tomar no cu. É Emmanuelle e acabou.
— Tá bom Manuela. Achou as roupas? — sentei na cadeira.
Ela ficou me encarando por um instante e depois abriu a bolsa e tirou uns jeans rasgado e umas camisetas.
— Isso é camisa de homem, doida!
— Eu sei. Mas fica super lindo com um jeans.
— Sim, roupa de homem... Tendo de mulher lá?
Será?
— Sim, e você acha mesmo que eu vou usar um body cheio de cadarços? Me poupe Ricky.
Ela sabe meu nome. ?
— Tá. E você vai pro baile de roupa de homem?
— Que baile?
— O baile da quebrada. Só Mc f**a. No fim de semana.
— Você não tem medo de eu tentar fugir não?
— Você tem amor a sua vida? — cheguei perto dela e a encarei.
Ela ficou calada.
— Não tenho ânimo pra isso. Eu fui sequestrada. Lembra?
— Eu dei dinheiro pra você sair e comprar roupa! Nenhum sequestrador faz isso!
Complicadinha....
— Ah, eu devo te agradecer? Dizer que te amo? Eu não tenho síndrome de Estocolmo querido.
— Síndrome de quê?
Boiei.
— Estocolmo. Quando o sequestrado se apaixona pelo sequestrador.
Tem até isso.
— Ah é. — fingi que sabia. — Você tá ficando com essa síndrome aí viu. Não fica me encarando muito.
— Ata. Engraçadinho. — ela deu as costas e foi pro banheiro.
Pior que tô me acostumando com ela.