capítulo 2 O Loop e a Gravação

1027 Words
A névoa não parecia feita de água ou ar frio. Era densa, pesada e movia-se contra o vento, fechando o perímetro como uma parede sólida de alvenaria. — Isso... isso não faz sentido — murmurou Caio, dando passos curtos para trás até que suas costas bateram contra a casca áspera do carvalho. — A gente veio por ali. Tinha uma clareira inteira aberta, a cerca de madeira da reserva ficava logo depois dos pinheiros! — Caio, acalma a cabeça e me dá a lanterna — pediu Noah, com a voz embargada pelo pavor explícito. Ele tentou ligar a lanterna do próprio celular, mas a tela sensível ao toque simplesmente não respondia. O mostrador continuava cravado nos dígitos estáticos de 00:00. — O meu travou de vez. A gente precisa andar em linha reta. Se a gente andar reto, uma hora sai na estrada principal. — Não sem o vídeo — disse Lívia, embora a leve tremedeira no seu queixo traísse a confiança da fala. Ela aproximou-se de Caio e segurou a jaqueta dele com força. — Caio, você gravou? Me diz que o arquivo ficou salvo no armazenamento interno antes da live cair. — Ficou salvo, Lívia, mas quem se importa com a live agora?! — esbravejou Noah, avançando até os dois. — O caminho sumiu, a gente tá no meio da Mata dos Pinhais à meia-noite e você só pensa no seu canal de merda! — Não é pelo canal! — disparou Lívia, os olhos marejados sob a luz fraca que restava. Por um segundo, a máscara de garota confiante caiu. — Se esse vídeo não estourar, meu pai vai me mandar morar com a minha tia no interior no mês que vem. Eu preciso fechar aquele patrocínio com a rede de lojas de games até o fim do mês para provar que posso me sustentar. É a minha única chance de não ir embora! Noah e Caio encararam-se em silêncio por um breve instante. A fúria de Noah evaporou, dando lugar a uma resignação incômoda. — Tá... — suspirou Noah, respirando fundo para controlar o pânico. — A gente resolve a gravação depois. Agora a gente precisa sair daqui. Vamos andar naquela direção, mantendo a árvore às nossas costas. Eles começaram a andar. O som de galhos secos estalando sob as solas dos sapatos era o único ruído na floresta. Caminharam por cerca de dez minutos em passo acelerado, empurrando a vegetação fechada, sem olhar para trás. A névoa abria-se ligeiramente à frente deles apenas para revelar mais troncos retorcidos e escuridão. Então, os passos de Lívia desaceleraram até parar completamente. — Galera... — sussurrou ela. À frente do trio, erguia-se novamente a mesma clareira. No centro, o imponente e disforme carvalho centenário aguardava-os. Mas não foi apenas a repetição do cenário que congelou o sangue deles. Sobre a casca áspera da árvore, repousava a vela amarela. E a pequena chama alaranjada estava acesa. Dançando suavemente sobre o pavio, queimando firme, como se jamais tivesse sido apagada. — Não... não, não, não — repetia Noah, dando passos para trás até tropeçar numa raiz sobressalente. — A gente andou em linha reta! A gente estava se afastando! E você apagou essa vela, Lívia! Eu vi quando a chama sumiu! — Eu não apaguei — respondeu Lívia, a voz quase inaudível, recuando. — A chama simplesmente evaporou. Eu estava a meio metro dela! — Caio — disse Noah, virando-se bruscamente para o amigo. — Pega o celular. Olha a gravação de quando você estava filmando a Lívia acendendo a vela. Olha o arquivo local! Com as mãos trêmulas, Caio deslizou o dedo pela tela do aparelho. Para sua surpresa, embora as funções de rede e o relógio estivessem mortos, a galeria de mídia respondeu. O arquivo do vídeo gravado minutos antes estava lá, marcado com a data 31/10 - 23:58. Ele deu o play. Na pequena tela, viram a imagem da transmissão de poucos minutos atrás. A luz do celular iluminava o rosto de Lívia ajoelhada diante do carvalho. Viram o momento exato em que ela riscou o isqueiro e a vela amarela ganhou vida. — Presta atenção no segundo quatro — sussurrou Caio, aproximando a tela dos rostos de Noah e Lívia. No vídeo, no momento exato em que a chama acendia, uma figura apareceu ao fundo da gravação. Estava parada no limite da névoa, diretamente atrás de Noah. Era uma mulher de cabelos longos e escuros, vestindo um pano surrado e escuro. Mas o detalhe mais perturbador não era a sua presença: era o fato de que a figura segurava uma das raízes da árvore e sussurrava algo enquanto olhava diretamente para a câmera. Quando a chama se apagou na gravação, a figura deu um único passo à frente. — Ela tava atrás de mim... — balbuciou Noah, levando a mão ao pescoço, sentindo um calafrio violento arrebatar sua espinha. — Ela tava a centímetros de mim e eu não vi. — Olhem para a vela no vídeo — apontou Lívia, a voz falhando. No vídeo, a chama não tinha apagado por causa do vento. A névoa ao redor da árvore parecia ter sido sugada para dentro do pavio, apagando o fogo de dentro para fora. — Não era um aviso para a gente ir embora — disse Caio, a percepção assustadora caindo sobre ele como uma rocha. — A lenda... a parte sobre a energia vital... A vela é a contagem regressiva. A floresta não quer nos expulsar. Ela tá decidindo qual de nós vai pagar a conta. Antes que qualquer um pudesse responder, Noah deu um sobressalto, soltando um pequeno grito abafado ao olhar para a própria mão sob a luz do celular. — Noah, o que foi? — perguntou Lívia. Noah ergueu a mão direita. Na base do polegar, a pele lisinha de um jovem de dezessete anos havia dado lugar a uma dobra enrugada e ressecada. E, quando ele passou a mão pelo cabelo tomado pelo suor frio, uma mecha inteira de fios brancos caiu entre seus dedos. — A minha pele... — gaguejou Noah, o pânico tomando conta dos seus olhos. — O que tá acontecendo com a minha pele?!
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