Capítulo 6 – O Casamento Arruinado

1261 Words
O vestido branco pendia no cabide como uma sentença. O tecido exalava cheiro de flores recém-passadas, misturado ao amargor do incenso que vinha da sala onde as mulheres da família rezavam. Rosa olhava para o reflexo no espelho e via uma estranha. Não era a menina do jardim, nem a jovem que descobrira o amor no labirinto de rosas. Era apenas um corpo arrumado para ser entregue, como oferenda em altar que não lhe pertencia. Ela queria fugir. O coração, inquieto, batia contra o peito como pássaro preso. A cada batida, o desejo de correr até Felipe crescia, uma voz insistente dizendo: ainda dá tempo. Mas quando seus olhos encontraram os da mãe, toda a coragem se despedaçou. — Você é nossa única filha — disse a mãe, com voz firme, embora os olhos brilhassem de cansaço. — Lutamos por você a vida inteira. Sua recusa agora seria nossa ruína. Rosa quis gritar, mas a garganta se fechou. O pai, de semblante abatido, tossia em um canto, o rosto pálido de quem carregava mais dívidas que forças. Os dois estavam doentes, endividados, e o casamento era o preço exigido para salvar a fazenda. O peso da família inteira recaía sobre os ombros dela. Naquela noite, Rosa tomou uma decisão desesperada. Vestiu-se às pressas, o coração disparado, e pegou a estrada até a cidade onde Felipe estudava. O vento frio da madrugada cortava seu rosto, trazendo o cheiro de poeira, fumaça e maresia distante. Cada passo era uma súplica, cada respiração, uma oração: que ele me receba, que ainda me ame, que me salve desse destino. Mas o que ela não sabia era que as famílias já haviam tramado contra ela. Um recado enviado à Virgínia bastou para que a teia fosse armada. A moça rica, rival silenciosa, esperou pela oportunidade como uma serpente que guarda veneno. Sabendo da chegada de Rosa, embebedou Felipe em vinho e promessas ocas, deixando-o inconsciente. Quando Rosa finalmente chegou à porta da república, as mãos tremiam. O suor frio escorria pela nuca, o coração martelava em compasso doloroso. Bateu uma, duas, três vezes. O som da madeira ecoou pelo corredor silencioso. A porta se abriu. Virgínia estava ali, nua, os cabelos desgrenhados caindo sobre os ombros, o corpo exibido como prova. O perfume dela, forte e adocicado, invadiu o ar, misturando-se ao cheiro de álcool que vinha de dentro. — Felipe está dormindo — disse com um sorriso c***l. — A noite foi intensa. As palavras foram lâminas. Rosa sentiu o chão escapar sob seus pés. O estômago se revirou, os olhos arderam. Quis empurrar a porta, correr até o quarto, mas as pernas não obedeceram. Virgínia, satisfeita com o impacto, inclinou-se na moldura da porta, o olhar carregado de triunfo. — Ele escolheu, Rosa. Talvez nunca tenha sido você. Rosa recuou um passo, depois outro, até que a rua fria a engoliu. A noite parecia zombar dela: o barulho distante das carroças, o tilintar de taças em algum salão, o som abafado de música vindo de uma festa próxima. Tudo seguia seu curso, menos ela. Caminhou sem rumo até chegar à praça. Sentou-se no banco de pedra, os dedos agarrando o tecido do vestido que agora parecia sufocá-la. Olhou para o céu. As estrelas, indiferentes, brilhavam como testemunhas mudas de sua ruína. No dia do casamento, a igreja estava lotada. O cheiro de incenso e flores se misturava ao calor dos corpos comprimidos. O vestido branco, agora sobre o corpo dela, pesava como corrente. Cada passo em direção ao altar era um funeral do que ela fora. Antenor a esperava, o sorriso frio e calculado. Os olhos dele não brilhavam de amor, mas de posse. Era o olhar de quem venceu, de quem arrastava um troféu até o altar. Rosa caminhou, cada batida do coração marcada pelo som dos sinos que ecoavam do lado de fora. Quis lembrar de Felipe, quis agarrar-se à memória dos beijos no jardim, da promessa de amar para sempre. Mas cada lembrança parecia murchar diante da realidade. No silêncio da própria mente, fez apenas uma súplica: Felipe, não me esqueça. Mesmo que o mundo diga que já não sou sua, não me esqueça. Rosa não suportava mais o peso que esmagava seu peito. Entre soluços abafados e febres repentinas, pediu ajuda à mãe e ao pai. Suplicou que não a entregassem ao homem que ela temia, que fossem buscá-la, que lhe dessem ao menos a chance de respirar longe daquela prisão. Mas os olhos dos pais estavam cansados, marejados pela doença, marcados pela dívida. E, em lugar deles, quem veio buscá-la foi Antenor. Ele entrou na casa com passos calculados, botas de couro ecoando no piso de madeira, o cheiro forte de tabaco misturado a perfume amargo. Encontrou Rosa sentada no sofá, o rosto pálido, as olheiras escuras denunciando noites sem sono. — Rosa — disse ele, suavizando a voz como quem finge ternura —, seus pais me pediram para cuidar de você. Ela não respondeu. Apenas ergueu os olhos, e neles não havia chama, apenas cansaço. Antenor, por dentro, queimava de raiva pelo desprezo dela, mas conteve o impulso. Fingiu um amor que nunca sentiu, estendeu-lhe a mão como se fosse abrigo. — Você não precisa ter medo. Comigo terá tudo. Tudo o que o dinheiro pode comprar. As palavras eram mel envenenado. Rosa sabia, mas estava exausta demais para lutar. Naquela semana, o corpo dela cedeu à dor. A pressão da família, o peso das mentiras, a ausência de Felipe — tudo se somou em febre, vômitos e dias sem comer. Emagreceu rápido, os olhos fundos, a pele perdendo o brilho. O vestido de noiva precisou ser ajustado porque a dor a havia tornado menor. E quando chegou o dia, Rosa não disse “sim” por amor, nem por esperança. Disse “sim” como quem assina uma sentença, movida pela mágoa, pela descrença. Disse “sim” acreditando que o amor era apenas ilusão inventada para enganar meninas como ela. Um “sim” de dor. Um “sim” de tristeza. O olhar estava distante sob o véu, e ninguém viu o silêncio profundo que habitava nela. Só o jardim, do lado de fora da igreja, soube. Mais tarde, já casado, Antenor mostrou sua verdadeira face. No silêncio da madrugada, enviou a Felipe uma fotografia. A imagem mostrava uma prostituta seminua deitada em sua cama, de costas, cabelos soltos e escuros, semelhantes aos de Rosa. O corpo, na penumbra, imitava a silhueta dela. Junto à foto, uma mensagem escrita com veneno: “Ela é uma delícia. Vence quem tem mais dinheiro. Ainda bem que você deixou o caminho livre.” Felipe leu as palavras e sentiu o sangue gelar. A fotografia não era apenas um deboche: era um golpe c***l, um lembrete de que Antenor não queria apenas Rosa. Queria também esmagar o que restava de Felipe. E Rosa, longe dali, não sabia que o homem a quem fora entregue não apenas a possuía como esposa, mas também usava sua imagem para destruir o único amor verdadeiro que ela conhecera. Naquele instante, o destino deles foi selado em camadas de dor, mentiras e humilhação. Um casamento arruinado não apenas para Rosa, mas para tudo o que ela e Felipe um dia sonharam. E assim, com lágrimas escondidas sob o véu, Rosa foi obrigada a dizer “sim”. Um “sim” que não era dela, mas das dívidas, da doença, das intrigas. Um “sim” que não selava amor, mas condenava um destino. E o jardim, distante, emudecido, pareceu chorar junto.
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