Capítulo 4 – A Despedida Forçada

1540 Words
O verão tinha cheiro de terra molhada e calor de sol queimando a pele. As tardes se alongavam preguiçosas, como se o tempo também quisesse se deitar nos campos e repousar sob o canto dos grilos e o perfume das flores. Para Rosa e Felipe, aqueles dias eram eternidades roubadas ao mundo, momentos escondidos entre fileiras de rosas que cresciam mais densas, como se a própria natureza conspirasse a favor deles. O labirinto das flores se tornara cúmplice. Caminhos estreitos, pétalas vermelhas e brancas, ramos fechados que pareciam erguer muros invisíveis para protegê-los. Quando estavam ali, não existiam Andrade nem Moura. Só dois corações, duas respirações, dois corpos que aprendiam juntos a linguagem secreta da paixão nascente. Eles se amaram por todo o verão, não no sentido pleno que os adultos dariam a essa palavra, mas com uma intensidade tão pura que chegava a ser avassaladora. Cada encontro era feito de beijos roubados, de mãos entrelaçadas, de risos abafados para não chamar atenção. Os olhos apaixonados agora tinham um brilho diferente, um fogo tímido, mas incontrolável, que transformava até o silêncio em declaração. Rosa lembrava do som dos passos dele correndo pela grama, do estalo da madeira quando Felipe saltava a cerca, do perfume de suor misturado a flores que anunciava sua chegada. E Felipe, sempre que a via, ficava imóvel por um segundo, como se precisasse se convencer de que aquilo era real, de que Rosa não era apenas um sonho que o campo lhe dava. O jardim guardava segredos que ninguém mais ousava tocar. Ali, entre rosas, eles aprenderam a primeira promessa: que o amor deles seria mais forte que o ódio das famílias. Mas o verão, como tudo que floresce, tinha prazo. E as famílias, cegas pela ambição, começaram a perceber que havia algo demais no modo como os dois se olhavam na missa, no jeito como Rosa sorria quando via Felipe passar a cavalo, na pressa dele em inventar desculpas para atravessar os limites da fazenda. Primeiro vieram os comentários sussurrados. Depois, os olhares desconfiados. Até que, por fim, vieram os planos. Naquela tarde, o jardim parecia mais vivo do que nunca. As flores estavam abertas, o vento soprava carregando o perfume das pétalas, e Rosa correu até Felipe como se cada segundo longe fosse insuportável. — Eles estão desconfiados — disse, a voz trêmula, encostando a testa no peito dele. — Minha mãe me perguntou por que eu passo tanto tempo aqui. Felipe a envolveu nos braços, apertando-a contra si. O coração dele batia rápido, como se fosse tambor marcando a guerra que se aproximava. — Eu não vou deixar que nos separem. Não vou, Rosa. Ela fechou os olhos, inspirando fundo o cheiro da camisa dele, misto de sol, campo e o calor que a fazia se sentir segura. — Eles são mais fortes do que nós, Felipe. Ele ergueu seu rosto, obrigando-a a encarar o brilho de seus olhos. — Não, Rosa. O que a gente tem é maior que qualquer cerca, maior que qualquer sobrenome. Eles não podem matar o que já nasceu aqui. E beijou-a com urgência. Foi um beijo longo, desesperado, cheio de medo e promessa. Rosa sentiu o corpo estremecer, como se aquele gesto fosse ao mesmo tempo despedida e juramento. Naquela noite, ambos sonharam com fugas, com horizontes distantes, com cidades onde ninguém saberia seus nomes. Mas ao amanhecer, a realidade foi c***l. Os pais de Rosa a chamaram para a sala, os rostos severos. — Você não pode mais se encontrar com Felipe Moura. Ela tentou protestar, mas a voz falhou. — Mas eu… — Ele não é para você — cortou o pai, firme. — Nunca será. Na mesma hora, do outro lado da cerca, Felipe ouvia a sentença parecida. Seu pai, duro como pedra, dizia-lhe que devia se preparar para os negócios da família, para um casamento vantajoso. — Esse namoro escondido acaba agora. A notícia caiu sobre eles como tempestade que arranca tudo pelo caminho. No dia seguinte, Rosa correu para o jardim, lágrimas borrando seu rosto. Felipe já estava lá, olhos vermelhos, respiração descompassada. — Eles sabem — disse ela, sem fôlego. — Querem me casar com Antenor. Felipe ficou imóvel por um instante. O nome soou como sentença de morte. — E querem me mandar para a capital — respondeu, a voz embargada. — Dizem que preciso estudar, esquecer você. Rosa soluçou, e Felipe a envolveu de novo. — Não vão conseguir. Eu juro, Rosa. Eu vou voltar. Eu vou lutar. Ela apertou os olhos, gravando cada detalhe: o calor da pele dele, o cheiro de suor e rosas, o som do coração batendo contra o dela. — E se nunca mais nos deixarem juntos? Felipe beijou sua boca, as lágrimas se misturando ao beijo. — Então vou te amar mesmo assim. Mesmo longe, mesmo se o mundo inteiro tentar arrancar você de mim. O vento soprou mais forte, espalhando pétalas pelo chão. Algumas caíram no rio, levadas pela correnteza. Rosa olhou para elas e sentiu um aperto profundo: como se fossem fragmentos do amor deles sendo arrancados. Naquele dia, sob o perfume das rosas e a dor da despedida, eles fizeram a primeira promessa verdadeira: amar para sempre, mesmo contra as famílias. E assim, com o coração partido e as mãos entrelaçadas, selaram o destino que os perseguir para sempre, um amor que nasceu no verão, floresceu em segredo, mas que estava condenado a viver entre espinhos. A tarde caía lenta, dourando as colinas, mas para Rosa e Felipe o tempo parecia correr como rio em cheia, levando consigo a inocência e a paz dos encontros secretos. O labirinto de rosas, antes abrigo e cúmplice, agora parecia mais apertado, como se também temesse perder sua função de esconderijo. As pétalas tremiam ao menor sopro de vento, refletindo o desespero que brotava nos olhos dos dois. Rosa segurava a mão de Felipe com força, como se aquele simples gesto pudesse impedi-lo de desaparecer. A palma dela estava úmida de suor, o coração batia como tambor descompassado, mas era o único laço que a mantinha inteira. — Eu não sei viver sem você — disse ela, num fio de voz que m*l ousou vencer o barulho dos grilos. — Eu não sei, Felipe. Ele a puxou para mais perto, abraçando-a como quem protege algo que já lhe querem arrancar. Os dedos dele se perderam nos cabelos dela, os lábios encontraram sua têmpora. — Vai ter que aprender, Rosa. Mas só até eu voltar. Só até conseguirmos romper esse destino que eles estão tentando nos impor. Ela ergueu o rosto, e os olhos deles se encontraram como faíscas em noite escura. — E se o tempo for c***l? E se eu estiver presa, obrigada a outra vida que não quero? Felipe deslizou o polegar pela boca dela, como se quisesse apagar qualquer possibilidade de dúvida. — Então você vai viver com a lembrança do que somos. Porque ninguém pode roubar isso. Ninguém pode matar o que nasceu aqui. Ele a beijou, e o beijo tinha gosto de lágrimas e urgência. Não era doce como antes, era feroz, um grito calado contra o destino. Rosa respondeu com a mesma intensidade, cravando as unhas nos ombros dele, sentindo a pele quente, como se quisesse gravar seu toque para sempre. Quando se afastaram, estavam ofegantes, como se tivessem corrido quilômetros. Rosa apoiou a testa na dele, tentando memorizar o cheiro, a textura da pele, o calor do corpo. — Eu vou esperar — disse ela. — Nem que seja a vida inteira. Felipe sorriu triste, mas o olhar tinha a força de um juramento. — Eu vou voltar para você. Nem que eu tenha que enfrentar o mundo inteiro. O vento soprou, mais forte do que antes, derrubando pétalas ao chão. Algumas pousaram nos cabelos de Rosa, e Felipe as retirou com delicadeza, como quem recolhe relíquias. Guardou uma delas no bolso, silencioso, como lembrança. Ao longe, um sino ecoou da cidade, anunciando a hora em que precisariam se despedir. Rosa sentiu o corpo gelar. — Está na hora. Felipe assentiu, os olhos fixos nos dela, como se não quisesse piscar para não perdê-la. — Não. Está apenas começando. Eles se abraçaram uma última vez, tão forte que doeu. Depois, Rosa recuou, dando passos vacilantes pelo jardim. Cada vez que olhava para trás, via Felipe ainda parado, imóvel, como estátua que a vigia. Ele não chorava, mas seus olhos ardiam como brasas. Na beira do caminho, Rosa sentiu as pernas fraquejarem. Caiu de joelhos na grama, as mãos pressionando o peito. O coração parecia quebrado em pedaços pequenos demais para serem recolhidos. O vento trouxe novamente o perfume das rosas, mas agora tinha gosto de despedida. Ela se ergueu, limpou o rosto com as costas da mão e seguiu para casa. Atrás dela, no labirinto das flores, Felipe ainda permanecia, jurando em silêncio que aquela não seria a última vez. Naquele instante, sob o céu de verão, duas vidas foram marcadas por um destino que não escolheram. E o jardim, testemunha fiel, guardou para si o som do choro de Rosa e o silêncio de Felipe. Porque às vezes, o amor não é arrancado de uma vez. Ele é separado em pedaços, costurado de dor e promessa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD