A cidade parecia suspensa naquela noite. Do alto da cobertura, as luzes se espalhavam como constelações artificiais, refletindo nos vidros altos que cercavam o salão. Clara ajeitava o vestido com mãos incertas, sentindo o peso do silêncio entre ela e Jonas, quebrado apenas pelo som dos talheres repousando nos pratos e pelo sussurrar distante do trânsito. O jantar havia sido simples, vinho encorpado, carne ao ponto, algumas palavras escolhidas a dedo. Mas o que queimava de verdade não estava na mesa. Estava nos olhos dele, no jeito como a encarava sem pressa, como quem esperava a hora certa de atravessar a fronteira que separa amizade de desejo. Jonas apoiou o copo sobre a mesa e recostou-se na cadeira. O olhar era firme, mas havia nele uma vulnerabilidade escondida. — Clara… — disse, a

