Ele remexia distraidamente entre os papéis sobre a mesa — currículos, aparentemente.
— Senhorita Dawson, não estou encontrando seu currículo aqui — disse ele, erguendo os olhos com aquela calma perigosa, quase provocante. — Então… que tal conversarmos um pouco sobre a vaga?
— Claro… como preferir — respondi, tentando soar segura. Mas meu coração disparou: se meu currículo não estava ali, só podia significar uma coisa. E não era nada bom.
Foi então que percebi algo fora do comum no que ele dizia — não parecia uma entrevista de estágio, mas uma conversa com alguém que teria acesso direto à vida dele. Eu estava certa de que a vaga era apenas um estágio, mas conforme ele falava, ficou claro que as coisas estavam muito além do que eu imaginava.
Por um instante, pensei que talvez tivesse entendido errado a vaga. Talvez fosse para uma espécie de assistente pessoal… e, pensando bem, aprender diretamente com o CEO não seria nada r**m.
Estava me convencendo de que podia ser isso… até que ele disse algo que me fez estremecer:
— Anna é minha sobrinha. Tem três anos. — Ele fez uma breve pausa antes de completar: — E você ficará encarregada de cuidar dela.
Meus olhos se arregalaram. Era oficial: eu estava completamente no lugar errado. E, claro, provavelmente já tinha perdido a entrevista que realmente importava. Aquela recepcionista tinha me mandado para o andar errado.
Fiquei sem reação. Não podia simplesmente interrompê-lo e dizer que estava ali para uma vaga totalmente diferente — ele iria achar que eu era louca ou, pior, completamente incompetente. Como alguém que não consegue chegar ao local correto de uma entrevista poderia ser capaz de preencher uma vaga de estágio em uma das maiores empresas do país?
Tive que pensar rápido. Duas semanas desempregada, sem economias, universitária, contas atrasando… precisava de qualquer coisa. Quando percebi que a vaga era para babá, não apenas estágio, me dei conta do salário — e que, apesar de tudo, era uma chance rara de estabilidade. A realidade era clara: eu estava desesperada. Respirei fundo, me recompus do susto e resolvi fingir que estava tudo bem. Para minha surpresa, ele nem pareceu notar.
— Você tem alguma referência? — ele perguntou, olhando-me atentamente, como se quisesse analisar cada palavra que eu dissesse.
— Referência? — eu gaguejei, tentando ganhar tempo para pensar na resposta, ainda um pouco abalada.
— Sim, algum trabalho anterior… como babá — acrescentou, franzindo o cenho, a impaciência evidente na voz.
— Claro… eu posso deixar o telefone dela. Infelizmente a família precisou se mudar e… bom, a criança já estava crescida, não precisavam mais de mim.
Mentira, claro. Nunca tinha cuidado nem de um peixe-dourado. Mas me lembrei de uma vizinha que fazia uns trocados cuidando das crianças da rua quando os pais saíam pra jantar. Se ela podia, por que eu não? Precisava de alguém que pudesse confirmar minha história… e então pensei em Chloe, minha melhor amiga. Ela poderia ser a referência perfeita para aquele emprego.
— Perfeito! — disse ele.
Minha resposta pareceu satisfazê-lo. Um quase sorriso surgiu em seus lábios — contido, calculado. Mas havia algo nos olhos dele, algo que me fez endireitar na poltrona, como se eu estivesse sendo despida por dentro.
Ele continuou fazendo perguntas, e eu mentia em todas, respondendo apenas o que achava que ele queria ouvir. Apesar de não entender muito sobre crianças, consegui presumir as respostas. Quando se estuda marketing, o principal é ser criativo, e eu estava usando toda a minha criatividade e improviso naquela entrevista.
Ele explicou que, desde que a garota nasceu, tinha a guarda dela, sem entrar em muitos detalhes. A atual babá estava se aposentando, e ele precisava de alguém de confiança para assumir a rotina da menina — levá-la à pré-escola, organizar atividades, garantir que tudo corresse bem. Enquanto ouvia, percebi a dimensão daquela responsabilidade: não era apenas um emprego, era cuidar de alguém como se fosse parte da família. Meu coração disparou só de imaginar cada detalhe, mas junto veio um frio na barriga… desafiador, inesperado, e, de alguma forma, excitante. Eu queria provar que podia dar conta.
Quando saí de lá, sentia um misto de alívio e triunfo. O começo havia sido atrapalhado, minhas mãos tremiam, minha mente corria em mil direções… mas no final, acredito que consegui convencê-lo de que era a pessoa certa para o trabalho. Saí com a sensação de ter passado no teste mais improvável da minha vida — e com uma adrenalina que não diminuiria tão cedo.
Me afastei o suficiente para que ninguém pudesse me ouvir e liguei imediatamente para Chloe. Não podia arriscar mandar mensagem — eles poderiam ligar antes, e eu precisava orientá-la para que confirmasse que eu havia sido a melhor babá que a filha dela já tivera.
— Você quer dizer que caiu na entrevista errada? — a voz dela soava divertida, quase rindo da minha situação.
Não tinha tempo a perder. — Chloe, você pode tirar sarro de mim depois, mas agora preciso que se concentre no que realmente importa.
Do outro lado, ouvi uma risada alta, quase uma gargalhada. — Okay, pode deixar, Sam. Eu vou ser a mãe do ano e você vai ser a babá perfeita quando me ligarem.
Sorri, apesar do aperto no peito. Ela podia estar rindo da situação, mas eu sabia que podia confiar nela de olhos fechados. E, pensando bem, toda a situação era tão absurda que dava até vontade de rir.
Já era noite, e a secretária de Maxwell Thorne havia ligado e confirmado a referência com a Chloe. Ela se saiu perfeitamente, exatamente como eu havia pedido, sem hesitar. Nós já estávamos comemorando, mesmo sem ter a confirmação oficial de que a vaga era minha.
Depois de tudo o que aconteceu naquele dia, eu só queria uma coisa: dançar até esquecer. E, como sempre, Chloe estava pronta pra isso. Talvez, quem sabe, encontrar algum cara interessante, me divertir e esquecer o CEO, pelo menos por algumas horas.
Eu usava um vestido curto e justo, daqueles que desenhavam cada curva do meu corpo. O verde destacava meus olhos, e meus cabelos castanhos claros, longos e levemente ondulados, caíam soltos sobre os ombros, brilhando sob a luz quente da boate. Minha pele clara refletia o ambiente, e eu sabia que, naquela noite, não passaria despercebida.
Depois de algumas cervejas, Chloe e eu estávamos no banheiro. Como havia apenas um disponível, entrei primeiro. Ao sair, combinamos de nos encontrar no bar: onde eu pegaria mais uma rodada para continuar a comemoração.
Saí do banheiro de costas, conversando com Chloe, que já entrava na cabine. No escuro do corredor, esbarrei em alguém e derrubei a bebida dele.
— Sinto muito — murmurei, levantando o rosto.
E então o tempo parou.
Maxwell Thorne.