AYRON NARRANDO
Tem dias que a vida parece ter passado num piscar de olhos. Quando percebi, a Alana já era quase uma mulher. A menina tímida que chegou na minha casa aos oito anos, toda fechada, calada, com os olhos marcados por coisas que ninguém da idade dela devia ter visto… agora usava roupas curtas, batia a porta do quarto quando queria privacidade, e me encarava como se esperasse que eu dissesse alguma coisa sobre isso.
Mas eu nunca disse.
Porque, pra mim, ela continuava sendo aquela menina.
A casa estava em silêncio naquela noite. A Catarina tinha saído pro plantão no postinho e o Ian já dormia no quarto ao lado, com os lençóis enrolados nas pernas, como sempre fazia , ele ficou mais agitado dormindo. Já a Alana… era diferente.
Alana era silêncio. Olhar atento demais, gestos suaves demais. Desde pequena, depois que a Sabrina morreu, ela ficou assim: quieta por fora, mas com os olhos sempre gritando alguma coisa. E eu aprendi a decifrar os olhares dela. Ou pelo menos achava que tinha aprendido.
Criei aquela menina como se fosse minha. Não porque alguém me obrigou, mas porque eu quis. No dia em que enterrei a Sabrina, prometi a mim mesmo que faria o que fosse preciso pra aquela garota não sentir o mundo desmoronando de novo. E cumpri. Dei teto, comida, escola, apoio. E carinho — o tipo de carinho que se dá a alguém que você protege com o corpo inteiro.
Mas nos últimos tempos… algo tinha mudado.
Ela não era mais a menina que me chamava de “tio Ayron ” quando sonhava alto. Era uma mulher agora. Com curvas, com olhar firme, com presença. E com atitudes que me faziam franzir o cenho às vezes. Como naquele domingo, por exemplo.
Estava sentado no sofá, assistindo uma luta antiga de boxe, quando ela se jogou no sofá do meu lado e encostou a cabeça no meu ombro. Até aí, nada demais. A Alana sempre foi carinhosa. Só que, dessa vez, a mão dela ficou na minha barriga por tempo demais. E os dedos… alisavam. Não de forma inocente. Era um gesto lento, suave demais. Intencional demais.
Segurei a mão dela, com calma, tirei de cima de mim e apertei levemente, como se estivesse distraído, como se fosse só um gesto automático. Não falei nada. Nem olhei pra ela. Só continuei olhando pra televisão como se não tivesse notado.
Porque eu notei.
Mas não quis dar nome a isso.
Ela tem dezessete. É praticamente uma criança. E ainda que o corpo dela não diga isso, a cabeça dela… ainda tá presa numa confusão que nem ela entende.
Às vezes, ela me abraça por trás na cozinha. Do nada. Me pega desprevenido. E eu sinto — sinto o corpo dela se encaixar, o rosto afundar nas minhas costas, os braços apertarem minha cintura. E tem algo naquele gesto que me deixa desconfortável, não por ser r**m — mas por ser diferente. Carinho tem cheiro. O dela, às vezes, tem outro cheiro. Tem intensidade. Tem desejo contido. Só que desejo de menina.
Menina confusa.
Teve um dia, ela tinha uns catorze ainda… lembro como se fosse hoje. Sentou no meu colo, feito sempre fazia desde pequena. Mas não foi do mesmo jeito. Sentou devagar, mexendo o quadril. Rebolando. Como se não soubesse o que estava fazendo — ou talvez soubesse. Na hora, eu apenas a tirei do colo, disfarçando, dizendo que estava com dor nas costas. Depois daquele dia, nunca mais deixei ela sentar no meu colo de novo.
Ela percebeu. E parou.
Mas os olhos dela nunca pararam de me olhar daquele jeito. Um jeito que só alguém que já foi olhado com desejo entenderia. Não era só carinho. Era admiração misturada com… sede. E isso me deixava tenso.
Não porque eu a desejava.
Mas porque ela não devia sentir isso por mim.
Sou o único homem constante da vida dela desde os sete anos. Sou quem segurou a cabeça dela no colo quando teve febre, sou quem ensinou a amarrar o cadarço, quem foi na escola, quem pagou psicólogo, quem a acalmou nas crises. Ela cresceu me olhando como tudo o que um homem pode ser.
Mas isso não é amor. É projeção.
E eu sei disso.
Ou pelo menos é isso que repito pra mim mesmo.
Naquela noite chuvosa, a luz caiu. A Catarina me avisou por mensagem que só voltaria na manhã seguinte. Eu travei a porta, apaguei as velas da cozinha e subi com a lanterna do celular. O Ian já estava roncando. Mas Alana… ela me esperava na porta do quarto.
Alana — Ayron … — a voz dela veio baixa, os olhos molhados pelo medo — tá muito escuro. Posso dormir com você hoje?
Respirei fundo. Ela nunca pedia isso. Desde que virou adolescente, fazia questão de manter certa distância, de ter o quarto dela, de se fechar no próprio mundo.
Mas ali… era só uma menina com medo da escuridão.
Assenti com um gesto e indiquei meu quarto. Mas ela hesitou.
Alana — Pode ser aqui? No meu quarto? — ela perguntou, olhando pro próprio colchão. — Me sinto mais segura aqui — Concordei. Deitei do lado esquerdo da cama, ela do direito. O quarto cheirava a lavanda, o aroma que ela usava sempre nos travesseiros — Obrigada — ela sussurrou, virando de lado, de costas pra mim.
A tempestade lá fora fazia a janela tremer. Eu ouvi um trovão e, no reflexo, senti o corpo dela se colar ao meu. Percebi as pernas dela roçarem nas minhas, o quadril encostar. Ela tremia, mas não era frio.
— Foi só um trovão, Alana — falei com a voz calma, colocando o braço por cima do ombro dela, como se fosse um cobertor protetor.
Ela se virou de frente pra mim, e ficou ali, o rosto perto demais.
Alana — Me abraça, Ayron — pediu com a voz fina.
Abracei. Porque era o que qualquer pai de coração faria por uma menina assustada.
Mas o que eu senti foi mais que um abraço.
Ela se apertava. O corpo dela colado. A respiração quente. E os dedos dela deslizaram pela minha costela, como quem busca conforto… ou como quem quer provocar.
Fingi dormir.
Ela não precisava saber que eu percebia.
Porque eu percebia.
Só que escolhi não ver. Não alimentar. Não responder.
Quando abri os olhos, o quarto estava claro. A chuva já tinha passado. O cheiro de terra molhada tomava conta da casa. Me levantei devagar, Alana ainda dormia, com a mão perto do lugar onde meu corpo esteve. Fiquei olhando por alguns segundos, antes de sair.
Na cozinha, Catarina já tinha voltado do plantão. Estava tirando o casaco e esquentando café.
Catarina — Bom dia, amor — ela sorriu, cansada, mas doce. — Dormiu com o Ian ? Não te vi no quarto..
— Não… com a Alana. Ela tava assustada com a chuva.
Catarina — Ah, coitada — ela suspirou. — Ainda carrega tanta coisa dentro.
Sentei à mesa. Me serviu café.
Minutos depois, Alana apareceu, de shorts e camiseta larga, o cabelo amassado. Me deu um beijo na bochecha — perto demais da boca — e sentou. Me encarou por alguns segundos antes de falar.
Alana — Dormi muito bem — disse, com um meio sorriso. — Bem melhor com você lá.
Catarina sorriu.
Catarina — Que bom, né? Ainda bem que o Ayron é nosso super-herói.
Eu engoli o café, tentando ignorar o calor que subiu por dentro. Alana riu. E passou o pé no meu embaixo da mesa. Discretamente. Como sempre fazia.
Fingi não notar.
Mas eu sabia.
Eu sempre soube.
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