O coração dela estava descompassado. Toda a pele arrepiada devido ao frio. Os braços em volta do corpo não passavam de uma medida meramente paliativa.
Serena tinha os olhos no mar porque não queria olhar em volta e ver-se perdida. Perdida em todos os sentidos possíveis.
Aparentemente o vexame que passou por causa de Hector não só a fizera perder o emprego na antiga companhia de modelos, mas em qualquer uma. Eles não queriam empregar alguém que ficara difamada por pular a cerca do casamento com o influente empresário Hector Ferraz.
E agora, ela simplesmente não conseguia parar de pensar que talvez devesse estar passando por aquele sofrimento. Afinal, se ela ao menos fosse mais agressiva, e fizesse qualquer coisa além de ter esperanças que Hector mudasse...
Coração gigante. Era o que o pai dizia dela, para depois completar que aquela era uma característica boa e m*l. Pessoas como ela faziam um mundo melhor, mas pessoas ruim...a usavam.
Ela engoliu em seco, tomando nas mãos o celular desligado. Com todas as contas bloqueadas devido à medida judicial que Hector movera contra ela era difícil ter algum dinheiro, e principalmente, pagar um plano de internet.
Serena não tinha onde ir. Estava escuro, e tudo o que tinha da cidade em que se encontrava era um mapa que pegara no apoio de turistas no aeroporto. Se sentia i****a, mas não ia atrapalhar a vida de Bruno. Ele talvez nem viesse em seu socorro mesmo.
Uma música sem ritmo começou a sair de sua boca, tentando eliminar a solidão e o medo daquela cidade grande. Ela abraçou ainda mais o próprio corpo quando ouviu passos por perto. Talvez a boa hora de fazer uma oração...
- Serena.
Ela se virou. Bruno estava ali, em pé a um pouco mais de um metro de distância, a expressão carregada de seriedade. A cabeça protegida por um boné. No corpo, o mesmo calção que usava quando o havia deixado em casa. O peito nu, suado. O tronco extremamente definido e tatuado.
Lágrimas estavam brotando de seus olhos, lágrimas de puro alívio. Ele estava ali. Bruno conseguira, viera procurá-la.
Ele a analisou com aqueles olhos sagazes.
- O que foi? Alguém te machucou? – Agora ele averiguava o ambiente sujo e malcheiroso que ela estava, uma mistura ocre do cheiro de urina e maresia.
- Você veio. – Murmurou baixinho. Ele parou de olhar os arredores, agora mirando-a com as sobrancelhas franzidas.
- Sim, estou aqui. - Ele disse, assentindo levemente a cabeça.
Sem saber o que dizer, ela correu até ele, o abraçando. Seu corpo frio se chocou contra o corpo quente e quase nu dele.
- Obrigada. – murmurou perto da nuca dele enquanto tentava conter as lágrimas. Sem jeito, ele lhe proporcionou um rápido afago nos cabelos. Ela o soltou.
- Dá próxima vez, peça ajuda.
- Eu não quero atrapalhar a sua vida. – Ela disse. Ele meneou a cabeça e começou a andar.
- Já está um pouco tarde para isso, e me atrapalha muito mais saber que você corre perigo...Então, da próxima vez, peça ajuda.
- Não vou precisar pedir – ela tentava acompanhar as passadas rápidas dele enquanto passava uma mão na outra para se esquentar. – Vou dar um jeito de colocar crédito, e também...- Bruno parou e a segurou nos ombros, fazendo-a encará-lo.
- Serena, prometa que vai pedir ajuda. Para qualquer coisa, até ir num mercado... Mas se não quiser pedir, pelo menos avise. Eu não preciso ir com você, não é isso. Só preciso que me diga para onde vai, caso eu precise encontrá-la.
- Bruno...
- Prometa. – a voz dele assumiu um tom imponente.
Ela torceu o nariz e assentiu.
- Prometo.
- Ótimo. – Bruno continuou a andar, praticamente marchando. Ela deu um sobressalto quando um calafrio a perpassou. Atento aos seus movimentos, ele pediu: – Vem cá. – o aceno de sua cabeça a chamava para mais perto.
- O quê foi? – ela indagou, a voz trêmula. Ele ergueu o braço num convite para um abraço.
- Anda Serena.
- Não, não precisa fazer isso.
Bruno sussurrou baixinho, algo que ela tinha certeza que era um palavrão, e encurtou a distância entre eles, até que o braço dele passasse por cima de seu ombros e a colasse na lateral de seu corpo quente.
Ela suspirou constrangida, mas um pouco mais aquecida. Um silêncio estranho se instalou em torno deles enquanto andavam sabe-se lá para onde.
- Você não está com frio? – ela perguntou para ele.
- Ainda estou com o corpo quente. – ele disse, a atenção focada no caminho e nos arredores. Ela o observou de baixo para cima. Algumas gotículas de suor ainda desciam de seu peitoral. – Por que você não trouxe um casaco?
- Estava muito calor mais cedo, não tinha como saber que ia esfriar. – ela respondeu à pergunta dele. O silêncio se fez novamente presente quando eles adentraram uma rua sem uma alma viva.
- E aí? Como foi? – ele indagou. Ela tinha impressão que Bruno só estava falante para não deixar o clima estranho.
- Como foi o quê?
- A entrega do currículo.
- Ah... – ela olhou para os pés enquanto caminhava com ele. – Eles não estão interessados em uma mulher que está grávida... – Serena murmurou a meia verdade.
- Entendo...sinto muito.
- Não, tudo bem, eu só preciso pensar em outra coisa.
Ele tirou uma chave do bolso, e um bipe soou. O carro dele estava estacionado um pouco mais a frente. Bruno só a soltou quando chegaram no veículo.
Ela suspirou aliviada dentro conforto e quentura do carro. Porém quando inspirou o cheiro de perfume e suor masculino todo o conforto se esvaiu, o cheiro viril quase a sufocando. Na verdade, torturando.
Bruno deu partida no carro somente depois que viu que ela colocou o cinto de segurança.
- Não precisa cuidar de mim. – Serena alegou, estando ciente sobre as normas de segurança de um carro.
- Não estou fazendo isso. Só a observei para ter certeza que o alarme não soaria avisando que estava sem o cinto de segurança.
- Então era só esperar para ver se ele iria avisar, não? – Serena perguntou. Eles pararam no sinal e Bruno olhou para ela com irritação.
- Você tem algum problema comigo, Serena? Eu não posso te ajudar, é isso?
- Não, não é isso. – ela sustentou o olhar dele. Na verdade, nem ela sabia o que era. Mas admitia que mesmo ele a ajudando ainda a irritava. – Só não preciso de uma babá.
A sobrancelha dele se ergueu, observando-a.
- Acho que estou muito longe de uma babá.... Eu só estou ajudando para que você não se meta em nenhuma furada. O Rio é uma cidade maravilhosa, só não é segura.
- Certo. Tem razão. – murmurou, o olhar escorregando do rosto dele para o peitoral e depois correndo para a paisagem ao lado.
- Minha mãe está a sua espera. - Ele comentou. Serena levou uma das mãos à testa.
- Ai meu deus! Eu tinha até me esquecido.
- Tá tudo bem... ela vai gostar de saber que está segura.
O restante da viagem foi silenciosa até a casa deles. Bruno entrou com o carro, guardando-o na garagem. Assim que saíram, Dona Izabel e Chicória Maria foram recebê-los.
- Estava começando a ficar preocupada... – Izabel murmurou abraçando Serena. – Está tudo bem? Você está gelada!
- Agora eu estou bem... Graças ao seu filho. – Serena deu os devidos créditos à Bruno. Chicória Maria ronronou se esfregando no pé dela.
- Obrigada, Filho. – Izabel se dirigiu a Bruno.
- Não foi nada. – Ele resmungou, com um dar de ombros.
Eles entraram e Bruno desapareceu corredor a dentro. Izabel pegou a mão de Serena e a levou até a sala.
- Serena eu vim para tomar um chá...mas agora é um jantar, né? – Izabel riu. – Temos sorte que Silvana fez uma lasanha maravilhosa...
Uma mulher baixinha e carrancuda com um coque perfeito entrou na sala.
- Oxi, você que é a mulher de Bruno? – a mulher secava as mãos na saia cinza. As bochechas de Serena queimaram.
- Ela não é a mulher dele, Silvana. – a mãe de Bruno explicou com o cenho franzido.
- Ué, mas está esperando o filho dele, não?
- Não, não estou esperando o filho dele...
- Menina, não precisa mentir... Todo mundo já sabe. – Silvana falou como se fosse uma mera informação. E observando a cara de taxo de Serena e Izabel, tirou um celular de um bolso interno daquele emaranhado de tecido, e teclou com alguma rudeza nele por alguns segundos. - Olha só, menina. – Silvana estendeu o celular. – Eu vi isso aqui hoje.
Serena sentiu o corpo gelar. Era uma foto dela e Bruno na saída do hospital, eles caminhavam lado a lado, uma das mãos de Bruno na aba do boné, a outra, tocando de leve a cintura dela. A manchete dizia: BRUNO TOURO, ARTILHEIRO DO FLAMENGO, FAZ MAIS UM GOL: VEM UM BEBÊ POR AI!
Ela simplesmente não tinha palavras e nem estômago para ler que teoria eles embasaram aquela alegação. Izabel pegou o celular de Silvana da mão dela.
- Nem tudo o que se vê na internet é verdade, Silvana. – A voz de Bruno ressoou séria atrás delas. Serena se virou com uma pergunta na ponta da língua.
- Você sabia?
- Não, acabei de saber. Um dos meus amigos me enviou a reportagem.
Serena passou as duas mãos no rosto. Estava tão cansada daquele emaranhado de mentiras e escândalos. Depois de Hector achou que estivesse livre delas, mas parecia que tinha se embrenhado em enrascada bem maior.
- Desculpa, menina – Silvana murmurou baixinho enquanto guardava novamente o celular. – Eu não queria magoá-la...
- Não, tudo bem... - Ela tentou sorrir para a senhora.
- Que tal se formos comer agora? – Izabel perguntou, tentando tirar o peso que o ar tinha adquirido. Serena estava sentindo a face vermelha, os olhos anuviados.
- Serena, será que eu poderia falar um instante com você? – Bruno perguntou.
Ela assentiu e o seguiu até o quarto dele. Serena entrou e sentindo-se desconfortável, sentou na cama.
- Não podia me levar para outro lugar?
- Aqui tem barreira acústica... assim elas não poderão ouvir. – ele disse fechando a porta.
Ela até pensou em algum motivo pelo qual alguém poderia colocar barreira acústica no quarto, mas se tratando de Bruno, pelo pouco que vira, só conseguia pensar em coisas libidinosas. Ele parou em pé na frente dela e tirou o boné, bagunçando o cabelo.
Aquele suspense estava matando ela.
- Isso é culpa minha. – Ele admitiu com os olhos negros nos dela.
- O que é culpa sua?
- O fato de estarem especulando que está esperando um filho meu. – as sobrancelhas de Serena se juntaram enquanto ela fitava Bruno, tentando entender do que ele falava. – Quando a levei para o hospital... para entrar... bem, só podia ser pessoa da família. Então eu disse que era o pai.
Os olhos dela se arregalaram.
- Por que você fez isso? Tem noção do que pode ter nos colocado? Do que pode ter feito com a minha e a sua carreira?
- Se eu não fizesse aquilo, não poderia vê-la. – ele abriu os braços. – Como iria saber que estava bem?
- Era só ter esperado eu sair!
- Como que eu iria saber que você ia sair?! Eu não te conhecia quando a encontrei na minha sala, e depois você desmaiou nos meus braços. Pensei que fosse algo grave. – ele explicava enquanto ela respirou fundo e deixou o corpo cair na cama dele. – Olha Serena... de qualquer jeito, não tem mais o que fazer.
Ela estava de olhos fechados quando aquela frase a alertou. Serena se sentou novamente, a expressão preocupada.
- O que você quer dizer?
- Acho que vai ser mais fácil se eu fingir que sou o pai do seu filho. - Bruno murmurou. Serena piscou algumas vezes como se não tivesse ouvido bem.
- O quê?! Essa é a pior ideia de solução que já ouvi. – ela massageou as têmporas. – Eu não consigo arrumar emprego por causa do escândalo que o meu ex marido me colocou e agora estou em outro escândalo mil vezes maior! – Ela admitiu o real motivo do fracasso em encontrar empregos, e continuou: - Eu m*l o conheço e agora me dou conta de que é algum tipo de astro do futebol... Isso quer dizer que não vou conseguir trabalho nunca no mundo inteiro?! E as repercussões disso para sua carreira! Já pensou?!
- Serena, eu não dou a mínima para que os tabloides dizem sobre mim...
- Mas para mim a imagem é algo essencial, Bruno! – as lágrimas já desciam dos olhos dela .Ele parecia estar perdendo a paciência. – As agências olham pra mim e não veem uma modelo, veem problema.
Bruno sentou-se ao seu lado na cama, avaliando a situação enquanto coçava a nuca. Ela tentava normalizar a respiração e a pressão que parecia se elevar.
- Ao meu ver, é muito melhor eu me passar por pai do seu filho do que a imprensa especular que você está esperando um filho do meu irmão morto, não acha? – Ele indagou. - Outra coisa, pelo pouco que me contou, a sua imagem está destruída, então não acho que isso vai mudar muita coisa. Mas talvez eu possa...
Serena olhou boquiaberta para ele.
- Você é um grosso, sabia?! – ela se levantou batendo o pé. – Não sei porque estamos tendo essa conversa se para você já está tudo decidido e não faz diferença. – disse entredentes antes de sair porta a fora e quase atropelar as senhoras que estavam tentando escutar alguma coisa.
Serena foi seguida de perto pelas duas.
- Eu sabia, ele te magoou não foi?! – Izabel acusou o filho.
- Bruninho é assim, trata os outros como nada...Tsc, Tsc ,Tsc – Silvana falou do outro lado.
- Você poderiam me deixar a sós por alguns minutos?! – Serena perguntou enquanto engolia o choro. As duas mulheres olharam preocupadas para ela. – Está tudo bem, eu já volto, prometo. Ela entrou às pressas dentro do quarto e trancou a porta, indo até a cama, onde a Chicória já estava esparramada.
Serena pegou o celular e checou as reportagens acerca deles. Pipocavam na tela: Quem será ela?! Outra já havia a descoberto: Serena Condeço é o nome dela! Ex-modelo envolvido em escândalos com o empresário Hector Ferraz.
Serena deixou o corpo cair na cama e fitou o teto. As lágrimas eram tão grossas que já chegavam até a sua orelha. Chicória miou ao seu lado, se levantando e se aconchegando-se na curva do seu pescoço.
- Você é a única coisa que me restou do que eu entendia por minha vida... – ela murmurou para a gatinha que parecia se solidarizar com sua tristeza.
Todos os amigos que ela pensava ter, de repente tornaram-se ocupados demais, ausentes demais. E sem seus pais, falecidos a 10 anos, não conseguia se lembrar de nada que lhe fosse familiar. Ela até tinha as tias, que estavam ocupadas demais com a fazenda no sul. E a mãe de Hector, que a chamava de filha, agora a chamava de vagabunda.
Ela, uma vagabunda?! Vagabundo era aquele filho dela, mentiroso e infiel! Ela se virou de lado, ficando de conchinha com a gata dela.
E pior de tudo, era que estava tão cansada... tanta coisa tinha e estava acontecendo.
Serena colocou a mão sobre a barriga, se lembrando do momento que soubera da gravidez e os sinais: os enjoos constantes entre um click e outro. O pavor estranho do cheiro do bacon. E por fim, o desmaio num Happy Hour entre os modelos depois da sessão. Quando deu por si, já estava no hospital, com um laudo medico positivo de Beta HCG na mão.
Os caminhos da vida são estranhos.Dizem que os piores momentos são aqueles que nos trazem mais oportunidades...Báh! Que besteira! A única oportunidade que vira ate o momento era para se debulhar em lágrimas.
Duas batidas foram ouvidas na porta.
- Já vai. – ela se levantou arrastando-se enquanto limpava as lágrimas. Era Izabel.
- Querida, eu tenho que ir indo senão fica muito tarde para mim... então eu queria dar isso para o bebê. – Izabel passou uma embalagem fofa para as mãos de Serena. – Não é muito, é só uma lembrancinha.
Serena levantou a cabeça, os olhos brilhando. Era o primeiro presente que seu bebê ganhava.
- Obrigada, Izabel. – sentiu os olhos embaçarem novamente.
- Ah... não chore... – Izabel a abraçou. – Sei que deve estar sendo difícil ser forte por você neste momento, então seja forte pelo bebê – Ela segurou o rosto de Serena entre as mãos. –Precisa levantar e sacudir a poeira, Serena.
Aquela mulher que estava passando por depressão era a mesma que estava lhe dando conselhos. Ela realmente devia estar muito m*l. Mas Izabel tinha razão. Devia ter qualquer outra perspectiva para ela olhar.
E bem, se não fosse por si... ela olhou para baixo, fitando a barriga. Que fosse pelo bebê.
Izabel deu um beijo na testa dela e virou as costas, seguindo pelo corredor até a porta de saída da casa. Serena entrou novamente no quarto e lavou o rosto. Não sentia vontade de comer, mas sabia que precisava. Então foi a cozinha.
Silvana estava lá, cantarolando algo enquanto limpava o fogão.
- Menina, que bom que veio até a cozinha! Você precisa comer. – Silvana se alegrou. – Veja só, eu já deixei um prato para a senhora.
- Ah, pode me chamar de Serena.
- Serena... – a mulher repetiu o nome. – Realmente é o seu nome?
- É sim. – Serena respondeu enquanto se sentava.
- É muito bonito. Nunca conheci ninguém com esse nome.
- Obrigada, foi meu pai quem escolheu... Ele amava as noites, principalmente as noites de lua cheia. – ela deu ombros. – Ele dizia que eram noites Serenas.
Já fazia tanto tempo...mal lembrava de seu pai. Mas se recordava de se debruçar no parapeito da casa para observar a lua com ele. Seu pai adorava ficar horas e horas falando sobre suas fases e curiosidades. E ela amava ouvi-lo.
Ficava tão orgulhosa de falar para os colegas sobre o pai astrônomo. Tao brilhante e elegante em seus ternos. Mas ele m*l ficava em casa, sempre precisava viajar para dar palestras. Foi assim que ele conheceu sua mãe, uma palestrante astróloga, animada e sensual. Também foi assim que eles faleceram. Em um acidente de carro a caminho de um congresso enquanto Serena dormia na casa da vizinha.
Silvana riu, despertando-a.
- O nome da minha filha é Solange porque eu amo o Sol. Então entendo seu pai. – a mulher disse enquanto a servia com um pedaço muito generoso da lasanha.
- Ah.. pode deixar que me sirvo. – ela se sentiu sem jeito.
- Não, Serena. Faço questão. Sei que já não é visita, mas acho que sua presença já alegrou essa casa.
Ela tentou, mas não conseguiu conter a risada cínica que escapou dos lábios.
- Oxi, cê está rindo por que não acredita? Eu nunca vi aquele menino assim.
- Assim como? – ela indagou antes de começar a comer.
- Preocupado com alguma coisa que não seja uma bola. – ela riu. – Desde menino Bruno foi assim, o tempo todo atrás de bolas e namoradinhas. Já Henrique...ele se divertia mais jogando com fotografias,vídeo game e ficando em casa. - Serena sorriu ao lembrar de Henrique. Silvana a observava mastigar com expectativa – Então, você gostou?!
Serena assentiu de boca cheia. Aquele pedaço que parecia grande já se tornava pequeno. Ela mastigou mais uma garfada, o queijo derretendo sob a língua. Fechou os olhos sentindo o sabor perfeito da combinação entre a carne e molho. Serena lambeu os lábios.
- Está uma delícia... – a voz foi sumindo quando viu que Bruno estava parado na entrada da cozinha a observando compenetrado. Até Silvana se virou para ele e dobrou os braços na frente do corpo.
- Ó, se vai tratar m*l a menina, pode ir saindo! – Silvana apontou o caminho de onde ele viera. Os olhos de Bruno se desviaram de Serena para Silvana.
- Eu só vim pegar água. – ele ergueu uma garrafa vazia na mão, logo depois indo até a geladeira para enchê-la. Um silêncio se instalou enquanto ele estava na cozinha. Até ela parou de comer. – Boa noite para vocês duas.
Ninguém respondeu. Enquanto ela finalmente pôde respirar e comer mais um pouco, Silvana ficou fitando as costas de Bruno com o cenho franzido até que ele desaparecesse do corredor. Serena teve vontade de rir.
Depois disso, as duas continuaram conversando amenidades até que os bocejos começaram a tomá-la.
- Já está na hora de ir dormir, Serena. Seus olhos já estão caidinhos.
Serena se levantou da banqueta, se espreguiçando. A coluna doendo um pouco devido ao próprio alongamento. Ela realmente esperava que o sono continuasse e a sequestrasse assim que batesse à cama, não dando espaço à insônia.
- Obrigada de novo, Silvana.
- Nada, menina! Até amanhã, vai com Deus. Se precisar de algo pode me chamar!
- Pode deixar! – ela respondeu antes de seguir para o quarto.
Finalmente, depois de um bom banho e barriga cheia, ela caiu na cama. Chicória já estava no décimo sono, embolada nos lençóis perto de seus pés. Ela apagou a luz do abajur e fechou os olhos, fitando a iluminação do jardim por um longo tempo, até que piscasse uma última vez.
- Serena! – alguém a chamou. – Serena, acorda!
- O que foi?! – ela abriu os olhos, um terror subindo ao reconhecer a voz dele.
- Eu estou aqui. - Ela olhou para o lugar de onde vinha a voz.
Na sua porta, Hector a olhava, a mala dela ao lado dele. Serena apertou os olhos.
– Vamos amor, eu vim te buscar.
Serena se encolheu na cama, querendo ficar o mais longe possível dele. Mas quando Hector veio vindo na sua direção, pânico a atingiu. Serena pediu para que ele não encostasse nela, falou que não queria ir. Mas não adiantou.
Então ela gritou.