A boca desenhada de Renato estava a um palmo de seu rosto, e seu estômago estava quase se revirando em borboletas de alegrias. A mão direita dele envolveu a nuca dela enquanto a outra segurava firme sua cintura. Serena só conseguia ver aqueles olhos azuis à sua frente, e quando finalmente se preparou para o beijo umedecendo os lábios com a língua...
- Serena.
Ela conhecia a voz que vinha detrás deles, e não, simplesmente não podia acreditar que ele estava ali.
Bruno bufava plantado atrás do sofá, seu calção molhado pingando a sua volta e o peito nu brilhando em gotículas de água. Ao seu lado, uma mulher morena com corpo escultural fazia cara de paisagem. Renato soltou um suspiro de desgosto.
– Será que posso falar com você... – Bruno disse. Ela franziu o cenho para a indagação que mais pareceu uma ordem. – Por favor? – Ele tentou de novamente. Serena assentiu contrariada.
- Só um minuto, Renato. – ela sorriu e deu um beijo rápido na bochecha dele. – Se quiser, pode me esperar lá fora.
- Tudo bem. Leve o tempo que precisar... – Renato respondeu. Mas antes que ela se levantasse, ele segurou seu pulso, puxando-a para um selinho demorado. Bruno pareceu ter grunhido de irritação.
Ele partiu a passos duros em direção ao quarto depois que sussurrou algo para a mulher que o acompanhava, que também foi para fora da casa. Serena o seguiu.
Chegando no quarto dele, Bruno fechou a porta com a chave. O quarto dele estava perfeitamente arrumado e impecável. E parecia ter acabado de sair de uma loja de decoração, senão fosse pelo brasão do Flamengo na parede atrás da cama e o cheiro inconfundível do seu perfume amadeirado. Bruno ficou parado a sua frente, a expressão impassível.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa? – ela indagou preocupada. Ele pareceu controlar a respiração.
- Você não pode se misturar com aquele cara.
- Quem? – Serena franziu o cenho.
- O Renato.
- Ah é, e por quê? – uma das sobrancelhas se arqueou, surpresa em como Bruno parecia enciumado - Por que ele é gremista? – brincou. Bruno bufou.
- Não, porque ele está usando você para me atingir.
- Bruno, essa é uma acusação muito grave, e o mundo não gira ao seu redor. – Ela disse, cruzando os braços. Bruno revirou os olhos.
- Serena, ele veio convidado por Rebeca.
- Tudo bem... Mas o quem tem demais nisso? Na verdade isso só mostra que você deve dar um limite aos próprios colegas, já que convidado não convida.
As sobrancelhas de Bruno se ergueram, e um sorriso zombeteiro perpassou rapidamente pelo semblante dele.
- Engraçada, você. – ele murmurou sarcástico. Serena prendeu um riso.
- Mas é só isso? – Ela perguntou, trocando o peso dos pés. Bruno ainda parecia incomodado.
- Toma cuidado, ele pode ser comprometido.
- Ele disse que está solteiro. – Serena rebateu. Bruno deu um sorriso torto.
- O fato de um homem dizer que não está comprometido não quer dizer que é verdade.
- Eu sei! Não sou inocente. Mas levando em conta que a poucos dias Rebeca estava com você, não acho que ela esteja com Renato. Então acredito que ele tenha dito a verdade. – Serena explicou. Bruno se aproximou dela, lhe tocando o ombro.
- Serena, pelo amor de Deus! Eu jamais namorei com a Rebeca, e não estou falando dela... – explicou como se fosse óbvio. – Mas não é só isso. Eu o conheço a algum tempo.
- Então o que é? – ela quis saber, agora com as mãos na cintura. Ele ficou quieto, os lábios numa linha fina – Se não pode ser sincero comigo...
- Eu fiquei com a ex-mulher dele. – soltou. Serena tentou analisar a informação.
- E o que que tem o fato de você ter beijado a ex-mulher dele? – ela indagou com um dar de ombros. Bruno deu uma risada cínica.
- Serena, eu transei com a mulher dele enquanto ainda eram casados.
Os olhos dela se arregalaram.
- Que horror! Como você pode ter enganado ele dessa maneira? – ela o acusou, dando um passo para trás.
- Não enganei ninguém, Serena. Eu a conheci em uma festa...
- E não perguntou se ela era comprometida?
- Por que eu deveria fazer essa pergunta? Eu sou solteiro. Se a mulher que vai ficar comigo está comprometida ou não, o problema é dela!
- Você é um.... – ela não encontrou palavras para expressar o horror que sentia. Serena encarou ele com os olhos acusadores, mas tentando entender o que estava havendo ali, decidiu abstrair. – Tudo bem, Bruno. Supondo que você tenha razão e ele queira me usar... seguindo essa sua teoria, eu também sou solteira.
O modo como os olhos dele faiscaram revelou desagrado.
- Eu sei. – ele murmurou com o maxilar cerrado. – Só que quando Renato descobriu a traição, ele humilhou a mulher e depois reatou a relação deles só para que pudesse traí-la. Desde então... é uma galinha. - Serena fez uma careta, pasma por toda aquela história – Posso não ser o melhor homem do mundo, mas alguém que faz isso...Não é digno.
- Você parece querer justificar um erro com o outro. – Serena murmurou com um suspiro. Porém tinha que admitir, Renato realmente não parecia flor que se cheirasse. Bruno deu de ombros e continuou:
- Então, o que quero dizer é... ele só quer te comer. – concluiu pesaroso. Serena colocou uma mão na frente da boca, segurando um riso. Ele franziu o cenho sem entender.
- Olha Bruno... – ela encarou os olhos negros dele, sentindo as bochechas arderem em chamas. – Eu também só quero isso.
- O quê?! Você quer ser usada? – Bruno parecia perplexo. Ela suspirou jogando a cabeça para trás.
- Eu fiquei alguns anos casada com um cara que quero esquecer. Tudo o que preciso é me divertir... então, se isso significa ser usada, sim! Eu quero ser usada e também quero usar ele! – os olhos de Bruno se arregalaram. Uma das primeiras vezes que ela o via expressar algo naquele rosto indecifrável. – está satisfeito?!
- Se você se apaixonar , ele vai te machucar.
- Não vou me apaixonar por ele! Que loucura! – exclamou estupefata. - Olha só, não tem aquela mulher que está lá fora te esperando? – ela perguntou e ele assentiu. – Você a ama? Está apaixonado?
- Claro que não.
- O que quer então?
- Só quero me divertir.
- Exatamente. Só quero me divertir também! Eu posso?! Você me permite?! – ela foi irônica.
- Se você só quer que alguém te coma... eu posso...
- Ai Meu Deus...Não vou t*****r contigo, tá legal?! Você é o tio do meu filho!
- Não ia propor essa asneira, Serena! – Ele exclamou, abrindo os braços. - Mas da maneira que você sempre supõe isso estou começando a achar que é exatamente o que quer...
Algumas gotas de água caíram nos pés dela, indicando a proximidade dele. Serena engoliu em seco, evitando respirar o perfume de Bruno.
A expressão dele estava nublada, e realmente parecia ofendido pela acusação dela. Mas o que realmente a chateou foi constatar o modo como o próprio coração parecia retumbar dentro do peito ao mesmo tempo em que seu centro feminino queimava. Bruno suspirou, se afastando dela.
- Ia falar que poderia te apresentar alguns amigos. Mas você me trata como se eu fosse um tarado..
- Porque tentou ficar comigo no início!
- É, mas me dei conta de que seria um erro. Então fica tranquila, ok? Você não faz o meu tipo!
Serena mordeu os lábios, de repente se sentindo muito irritada e envergonhada. Bruno bufou, meneando a cabeça. Ela engoliu a sensação de rejeição e passou por ele, em direção a porta.
Mas Bruno entrou em sua frente no último segundo, quase fazendo-a se chocar contra o peitoral dele. Ele a olhou de cima a baixo, a respiração pesada.
– Pode me deixar sair?!
- Você pode fazer tudo o que desejar, Serena.– Murmurou, antes de abrir a porta.- Só toma cuidado.
Serena saiu batendo o pé em direção ao quarto, e entraria no corredor se uma mão não segurasse seu antebraço.
- Serena?! – Era Sarah, que agora a acompanhava – Ih... pela sua expressão já vi que o ogro fez o trabalho dele.
- Eu não consigo entender como ele pode ser assim... – Serena desabafou, seguindo pelo corredor e abrindo a porta do quarto.
- É, ele é um doce. – Sarah foi irônica – Mas parece que com você está melhorando – a segunda frase dela não parecia conter sarcasmo.
- Melhorando... – Serena pressionou os lábios para conter um riso.
- Eu vi vocês somente por algumas horas, mas em anos de amizade com Bruno, ainda não tinha visto ele fazer para alguém o que fez por você. – Sarah murmurou, parecendo interessada. - Ele veio te buscar, depois ainda apresentou você, ainda tocou em você... não parecia ter intuito s****l. – ela analisava os últimos comportamentos de Bruno. – Vocês são amigos, Serena. Ele gosta de você!
- Nossa... se isso for gostar, imagina como deve ser ter o desgosto dele – ela murmurou desacreditada. Sarah riu.
- Acredite, não queira saber... mas acho que você vai ver a Rebeca sofrendo na pele.
- Coitada... – ela se compadeceu pela mulher, lembrando de vê-la chorando.
- Eu não teria tanta pena... – Sarah disse se esparramando na cama dela. – O modo como ela olhou pra você parecia querer te comer viva! – fez uma careta. – Eu sempre soube que aquela dali não valia 1 real! Mas o ogro não quis me ouvir...
- É interessante ver sua análise sobre essas coisas...– Serena retocou a maquiagem com a porta do banheiro aberta, omitindo da amiga a ameaça de Rebeca. Seus olhos estavam molhados, e ela não queria voltar pro churrasco com aquela cara de choro.
- Ah, eu sou psicóloga! Mas meio que sou obcecada por linguagem corporal e comportamento humano...
Serena a olhou de soslaio. Aquela mulher baixinha com um sorriso grande piscou para ela. Não, ela definitivamente não precisava de ninguém lhe analisando.
Já bastava a sua mãe quando em vida: "nossa, Serena! Mas você é mesmo uma canceriana" ou o preferido dela "Minha filha é uma autêntica canceriana". Sentia saudades da mãe, mas odiava rótulos.
- Você deu aquele olhar que as pessoas geralmente dão quando descobrem que sou psicóloga... só não vá me perguntar se sou louca, por favor!
Serena riu, voltando para o quarto. Ela já tinha ouvido dizer que psicólogos eram doidos. Mas ela não iria fazer aquilo com Sarah.
- Não vou perguntar isso, Sarah! Só... não me analise – pediu. Sarah fez sinal de zíper em frente a boca.
- Vou guardar pra mim minhas considerações. – prometeu, se esquivando um pouco do pedido de Serena. Mas tudo bem, só o fato de não ser surpreendida por relatórios acerca do seu comportamento já bastava.
Se a mãe dela estivesse ali, com certeza diria que isso era um medo dela de saber ou descobrir coisas que tentava ignorar. E ela admitia, às vezes mais gostava de uma mentira doce do que uma verdade amarga. Não à toa preferiu acreditar nas mentiras de Hector durante meses, ao invés de confiar na própria intuição e fazer o que era certo.
- Mas olha, de fato é bom escutar Bruno e tomar cuidado com Renato... ele é bonitinho, mas é ordinário... – brincou Sarah, a fazendo rir. Mas então, Serena franziu o cenho.
- Pera aí... como sabe que Bruno queria falar comigo sobre Renato?
- Ah, você sabe! Estava na cara que Bruno estava com ciúme de vocês.
- Quê?! – Serena exclamou, logo depois soltando uma risada alta. Ela até achou que fosse isso no início, mas depois do que Bruno dissera, estava convencida de que não. – Bruno não tem ciúme de mim, e pelo visto, nem de ninguém.
- Bom... – Sarah balançou a cabeça, analisando. – É bom que pense assim.
- Por quê?
- Acho que não vai querer saber a resposta, Serena... É uma análise. – Sarah deu de ombros.
- Sarah... Não acho justo não dizer depois de ter atiçado minha curiosidade.
- Tudo bem! – Sarah parecia muito feliz em contar – É melhor pensar que ele não sente ciúme de você, assim você também não saberá que sente ciúme dele.
Serena piscou algumas vezes, esperando Sarah retirar aquela baboseira que dissera. Mas a loira nada mais fez que continuar impassível.
- Ok... acho que eu não esperava por isso.
- Imaginei! – Sarah sorriu. – Então...só tome cuidado com o Renatinho.
Serena se lembrou de Renato, um pouco mais baixo que Bruno, mas ainda mais musculoso. E aqueles olhos azuis, aquela barba por fazer... Ah!
Talvez fosse a gravidez. Não, com certeza era. Tinha lido um livro a caminho do Rio de Janeiro que dizia que o desejo aumentava 100% para algumas grávidas. Bom, no caso dela, parecia estar atingindo um ápice muito maior que esse teto.
Mas para seu desgosto, estava sozinha. E estar naquela festa estava sendo difícil, os convidados de Bruno realmente eram lindos.
- Toc Toc... – Michele entrou – Fiquei procurando vocês feito uma louca.
Sarah e Serena tomaram um susto com a aparência de Michele. Os cabelos da ruiva estavam meio desgrenhados e a blusa justa um pouco torta.
- Sei... – Respondeu Sarah. – E onde você estava? Não vai me dizer que estava se engraçando de novo com Farley né...
Michele deu um sorriso amarelo e Sarah revirou os olhos.
- Tsc..Tsc..Tsc... às vezes eu acho que nós mulheres temos que nos ferrar mesmo, viu? – Sarah comentou aleatoriamente observando as unhas pintadas de laranja.
- Ué, amiga! Nem todo mundo tem um relacionamento perfeito que nem você tem com o Dodô. – Michele alegou – A maioria de nós têm relacionamentos conturbados... e às vezes nem sabe o que sentimos.
Serena parecia entrar dentro das duas possibilidades que Michele mencionara. Pra ela, saber o que sentia estava sendo impossível.
Quando lembrava de Henrique seu coração se apertava. E quando recordava de Hector era compelida por uma mistura de raiva, medo e nojo. Já quando via os olhos azuis de Renato, tinha desejo.
Mas com Bruno...uma torrente de emoções nebulosas caia em suas costas: desejo, segurança, proteção, raiva. Mas ele, ao contrário dela, às vezes parecia sentir nada, e noutras vezes, tudo.
- Serena... – Alguém lhe chamou, a tirando dos devaneios. Era Sarah.
- O quê?
- Conte para gente como conheceu Bruno. – Sarah sugeriu. Serena engoliu em seco, a coluna ficando ereta e rígida.
- Ah... foi rápido... – pigarrou – E quando eu o vi... – A testa dela começou a suar nas extremidades.
- Já sei! Sentiu um desejo louco, não é? – Michele indagou animada. Sem saber o que dizer, Serena assentiu. – Todo mundo tá sentindo esse climão entre vocês, menina! E pra dizer a verdade, é a mesma coisa que eu sinto com o Farley, só que a Sarah...
- Tá todo mundo sentindo esse climão? – Serena repetiu, uma palpitação estranha lhe cortando o coração.
- Sim! E como Bruno sempre é tão cuidadoso em relacionamentos, deve ter sido mesmo uma loucura. Afinal, vocês nem usaram camisinha! – Michele exclamou – Quer dizer, com certeza não usaram já que, hum, você está esperando um bebê dele.
- Michele! Você está constrangendo a mim e a Serena... – Sarah murmurou, boquiaberta. Serena estava sem reação. Na verdade, se o mundo acabasse naquele momento talvez oferecesse nenhuma objeção. Mas ainda assim, engoliu a vergonha em seco.
- É ! – Soltou uma risada nervosa. – Foi sim... eu nem sei como aconteceu... Mas hoje não rola mais nada!
- Interessante... – Sarah disse, parecendo analisar explicitamente Serena, que teve vontade de se esconder debaixo da cama. Serena alisou a barriga, buscando conforto no próprio bebê.
- Mas então, já sabem qual o sexo do bebê? – Michele perguntou distraída.
- Ainda não. Aconteceram tantas coisas... Estou atrasada pra fazer o pré-natal.
- Mas sua barriga já está bem grande!
- Sim... – ela se lembrou do evento de mais cedo. Uma alegria irrompendo pelo peito. – Hoje foi o primeiro dia que ele mexeu!
Sarah bateu palmas de felicidade e Michele ficou exultante.
- E como foi? Contaaa... -Sarah suplicou.
Talvez ela nunca tivesse sentido coisa mais linda e emocionante. Aquele puxão e depois aquele chutinho... m*l podia acreditar que estava gerando uma vida dentro de si própria. E quando Bruno falou e o bebê respondeu com cambalhotas...
- Foi lindo! Eu estava aqui e de repente o senti. Bem aqui. – ela mostrou o exato ponto no baixo ventre. – E quando Bruno falava, o bebê respondia.
- Sério?! – Michele abriu um sorriso largo.
- Sim! Ele parecia dar cambalhotas dentro da minha barriga!
- Isso deve ter sido lindo, Serena. – Sarah murmurou emocionada. Michele levantou de supetão e foi até Serena.
- Ah, eu posso? – Perguntou com a mão estendida.
- Claro! – Serena se levantou, expondo a barriga redonda.
- Como Bruno reagiu? – Sarah parecia entrevistá-la enquanto Michele quase chorava tocando a sua barriga.
- Surpreso... – ela se lembrou das sobrancelhas erguidas dele, e as mãos quentes e grandes tateando a barriga dela, e aquele sorriso torto com os dentes perfeitamente alinhados à mostras.
Suspirou, a imagem clara de Bruno aparecendo na mente.Estava fazendo um esforço gigante para desgostar dele, mas aqueles momentos realmente a balançavam.
E por pensar no diabo...