Minha casa

1179 Words
Capítulo 21 Lucia Bianchi Acordei com o sol já alto, filtrando-se por entre as cortinas e trazendo um movimento que eu não esperava. Ao abrir a porta do quarto, fui recebida por um frenesi organizado: criados corriam de um lado para o outro, cozinheiras ajeitavam travessas, seguranças conversavam a caminho da entrada e um homem com prancheta apontava coisas para outro, com a seriedade de quem supervisiona uma pequena tropa. Era como se a casa inteira tivesse virado um formigueiro de propósito. Na mesa da sala, o café já estava posto — xícaras alinhadas, pães quentinhos e uma bandeja com frutas. Sentei-me por reflexo e esperei pelo primeiro rosto conhecido. A primeira pessoa a me atender foi uma senhorinha de cabelos brancos presos num coque frouxo, a pele marcada pelos anos, os olhos atentos como se soubesse de tudo antes de mim. — Buongiorno, signorina — disse ela, com uma voz que misturava afeto e costume. — Buongiorno. Onde está Vinícius? — perguntei, já sentindo meu estômago apertar. Ela sorriu, encolhendo os ombros com a naturalidade de quem viveu naquela casa desde antes de eu nascer. — Ah, o futuro Don foi cedo para o reduto — respondeu, como quem anuncia uma coisa corriqueira. — Ele não tomou café? — Não se preocupe. Ele toma sempre um golinho de café e sai cedo. Eu morei na casa dos pais dele desde que era bambino; a sua mãe me enviou para cá como garantia de que tudo estaria em ordem para a senhora e o novo Don até a equipe se estabelecer. Um frio percorreu minha espinha. A ideia de que a sogra — ou alguém enviado por ela — mantinha um olho em mim não era nova, mas ouvir aquilo em voz alta fez o vigilante dentro de mim despertar. Ainda assim, o tom daquela mulher tinha mais carinho do que malícia; parecia querer cuidar. — Entendo — falei, forçando um sorriso. — Obrigada. A governanta, uma mulher mais jovem e de postura reta, aproximou-se com um lenço nas mãos e anunciou com eficiência: — Chegaram muitas caixas de sapato, roupas e sacolas para a senhora. Eu a ajudarei a se vestir muito bem para o evento desta noite. A apresentação para a família é importante. — Nossa! Mais coisas? Quem será que enviou? Foi o Vinícius? — Sim senhora. A família dele que escolheu. No início, senti um sopro de alívio e até uma pontada de vaidade. Escolher o que vestir, vestir-se bem para ser apresentada — era um rito, uma chance de me encaixar. Mas o medo, insistente, voltou como uma maré. E se houvesse um Moretti entre os convidados? Tentei afastar o pensamento. Nunca vi um Strondda em reunião dos Moretti; não fazia sentido. Respirei fundo e me concentrei nas caixas. Passei a manhã abrindo pacotes como quem abre presentes que não pediu. Sapatos — muitos sapatos —em várias cores, vestidos longos, lingerie delicada, e cartas com recomendações de estilistas que eu não conhecia. Organizei as coisas: um vestido para a cerimônia, outro para a recepção, sapatos alinhados, acessórios separados em caixas forradas. Era tudo tão perfeito que me surpreendi com a aflição que crescia por baixo do arranjo. Depois, comecei a avaliar tudo dentro da casa. Algumas coisas poderiam mudar. Segui alguns conselhos da Fabiana, minha sogra. A certa altura, reparei que o jardim, imenso e completamente verde, estava estranho de tão vazio. Não havia jardineiro por perto — nada plantado, gramado curto e um silêncio que destoava da casa cheia. Achei curioso. Já tinha notado que precisava de vida. — Não contrataram jardineiro? — perguntei a um dos homens que carregavam caixas. Ele trocou o olhar com outro e encolheu os ombros. — Só a informação que me passaram é que Don Vinícius contratou alguém para vir cortar a grama no início da semana. Não há plantação aqui fora, deve ser isso. — Respondeu sem muita convicção. A imagem daquele jardim limpo demais ficou presa na minha cabeça. Havia tempo antes da cerimônia, algumas horas; pensei que poderia ocupar esse tempo com algo simples, humano: plantar flores. Lembrei-me das histórias que Fabiana contou das casas italianas cheias de rosas com mudas do próprio Don, e pensei que algumas mudas poderiam trazer vida ao chão árido. — Vocês acham que alguém pode trazer mudas de flores? — perguntei à governanta. Ela sorriu, satisfeita com a ideia. — Claro, signorina. Os Strondda são conhecidos pelo zelo com as flores. Em breve alguém voltará com algumas mudas de rosas pra você. Logo colocará vida a casa. Grata, prendi o cabelo num coque alto, calcei um par de luvas simples e saí para o jardim quando o sol já batia forte — quase três horas. O ar tinha cheiro de terra aquecida. Quando o homem da floricultura chegou com as mudas, escolhi rosas vermelhas e algumas brancas, pensando que as cores não trairiam intenção — apenas beleza. Com as mãos na terra, senti um tipo de paz que não sentia a anos. Enterrei as mudas com cuidado, ajustei a terra ao redor das raízes, molhei-as com um regador que encontrei num canto. O trabalho era simples, físico, e meus pensamentos — por alguns preciosos minutos — se aquietaram. Não plantei muitas, deixaria outras para amanhã. Foi quando o som de um motor que eu conhecia inundou o silêncio. O carro de Vinícius parou com um arranco perto do portão. Ouvi passos rápidos, o som de botas no cascalho. Levantei a cabeça e sorri ao ver que ele estava de volta, mas quando o vi sair do carro: o terno impecável, o rosto fechado como ferro, os olhos achando um ponto de fúria, parei. Ainda estava com as mãos sujas de terra, o cabelo preso num coque improvisado, e o cheiro de rosas recém-plantadas subia ao vento. — Eu não deixei ninguém plantar p***a nenhuma aqui! — ele gritou ao chegar, a voz cortando o ar como um açoite. — Quem te deu autorização para plantar no meu jardim? Estremeci enquanto ele se aproximava. As palavras bateram em mim. Fiquei tonta por um segundo, as mãos ainda segurando o cabo da enxada. Ao redor, alguns funcionários congelaram, olharando entre nós dois como se uma faísca pudesse incendiar a manhã. — Eu... Eu achei que... — ele veio até mim batendo os pés na grama. Dava pra notar que tinha a intenção de arrancar o que pudesse com os pés. — Você achou o quê? Nem me pergunta sobre as coisas e vai tomando decisões na minha casa? — Puxou a inchada da minha mão. Todos olhando e vendo o espetáculo. Fiquei furiosa. — Ah, então a casa é sua? Enfie no r**o, Don de meia tigela! Se não sabe lidar com uma rosa, não sabe lidar com nada! Inclusive comigo! — Io vou te matar ragazza! — ele veio com raiva e me ergueu pelas pernas enquanto eu me debatia. — Me solta! Se vai matar mata, não precisa me mudar de lugar! — gritei e bati nele enquanto via pessoas tentando disfarçar o riso ou o constrangimento.
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