Deita e reza

1260 Words
Capítulo 29 Vinícius Strondda O chão ainda estava sujo de vidro e bebida, mas não era nada perto do caos dentro da minha cabeça. Eu só conseguia ouvir aquela frase repetindo: “Ele tentou tirar minha virgindade com uma vassoura”. Era grotesco demais para caber na mente de um homem. O sangue me latejava nos ouvidos, e eu apertava tanto a mandíbula que achei que meus dentes iam rachar. — Isso é desumano, Lucia… — as palavras escaparam sem eu querer, num tom mais baixo, mais pesado. — O que mais aconteceu? Como ficou depois? E por que usar um objeto? O cara era viado? Ela respirou fundo, se ajeitou na beirada da cama, ainda só de calcinha, as pernas coladas uma na outra. O jeito que encolhia os ombros me cortava por dentro. — Bom... senta, Vinícius. Vamos por partes. — Estou bem em pé — cortei, passando a mão nos cabelos, como se aquilo fosse me impedir de explodir. — Fala logo ou vou infartar, va bene? Ela desviou os olhos, mordendo o lábio, e a voz dela veio baixa, trêmula, mas firme o suficiente para me estraçalhar. — Nesse momento... — ela suspirou — eu agradeci Francesco mentalmente por interromper. Foi horrível. O velho me viu nua, viu o que estava acontecendo e impediu. Acabou que, no desespero, eu concordei em cortar a minha parte íntima para camuflar a perda de virgindade. Ele aceitou e, com o lençol manchado, acreditaram que o casamento tinha sido consumado.. Não sei se reparou num corte. — Não. Fechei os punhos. O som das minhas próprias unhas cravando na pele me acordou da náusea. — Per Dio! — cuspi, virando de costas e andando de um lado ao outro. — Mas por quê? Por mais i****a que fosse, por que não fez do jeito tradicional? Ela demorou um instante antes de soltar: — Porque ele não tem pênis. Parei de andar. Virei devagar. Travei. — O quê? — dei um passo à frente. — Espera... não ouvi direito. O que você disse, Lucia? — Ele não tem pênis, Vinícius. — os olhos dela brilharam de vergonha. — Só escroto e testículos. Sofreu um acidente. Um esmagamento... resultou em amputação. O silêncio me esmagou por dentro. Ri, mas foi aquele riso nervoso que sai quando a raiva não encontra lugar. Bati a mão na testa, bufando. — Madonna santa! — levei a mão ao rosto, ainda rindo, mas era riso de incredulidade. — Então o maledetto mijava sentado também? — Sim — ela respondeu, séria. — Agora tá explicado por que você continuou virgem, bella. Cara babaca! Um verme sem p*u, se achando homem. — Zombei. Mas o sorriso morreu rápido quando vi o jeito que ela apertava as mãos no colo, como quem esconde cicatrizes invisíveis. A raiva voltou, ainda mais forte. — E mesmo sem p***o, ele te machucava? — perguntei, a voz mais baixa, carregada de veneno. Ela assentiu. O riso saiu mais alto, quase debochado, mas morreu rápido. Porque logo em seguida ela disse: — Ele sentia desejo, Vinícius... um desejo doente. E como não conseguia fazer nada, transformava em raiva. Me batia. Me prendia. Usava objetos pra machucar, palavras, qualquer coisa para me diminuir. — passou a mão pelos braços, como se ainda pudesse sentir. — As cicatrizes não são só no corpo. Ele me quebrava por dentro. — sua voz falhava, mas não parava. — Ele dizia que eu o fazia lembrar do acidente. Algumas vezes me acusou de ter causado. — Che cazzo? — virei bruscamente. — Ele tinha vinte anos a mais que eu, Vinícius. — ela baixou o olhar. — Disse que quando me viu pela primeira vez, ainda menina, atravessando a rua, ficou obcecado. Me seguiu com o carro… e acabou batendo num trem. Depois, me culpou. Dizia que era minha culpa ele ter perdido aquilo que fazia dele um homem. Eu fechei os olhos por um segundo, a respiração arfante. A cena inteira se desenhava na minha mente como uma pintura grotesca. Giovanni, sem p***o, tentando afirmar poder na base da dor. E ela, minha Lucia, aguentando aquilo. — Dio mio... — sussurrei, passando a mão no rosto. — Ele não era homem, era um animal. Um animal mutilado e frustrado. Ela encolheu as pernas, como se estivesse se protegendo de novo. — Não pense que foi fácil — murmurou. — Eu precisei sobreviver, Vinícius. A cada dia eu pensava: "se eu aguentar mais um, talvez amanhã eu esteja livre". Mas nunca vinha esse amanhã. Até que fugi. Senti meu estômago embrulhar. Apertei o copo até quase estourar entre os dedos, depois joguei longe. O barulho foi seco contra a parede. Os meus olhos queimavam, mas eu não queria que ela percebesse o quanto me afetava. Ela tinha mentido para mim, tinha escondido. A verdade agora caía como ferro derretido, e eu me queimava por dentro tentando não mostrar. — Bastardo… — resmunguei, cuspindo a palavra. Andei até a janela, olhei para fora sem enxergar nada. Eu precisava de ar, mas o ar não vinha. Atrás de mim, ela se encolheu na cama. Só de calcinha, os joelhos juntos, os braços cruzados no peito. As lágrimas ainda escorriam, mas eu não me virei de imediato. Não queria dar a ela o consolo que parte de mim desejava. Eu estava chateado. Ferido pela mentira, pela omissão. — Ele me olhava como se fosse minha culpa — continuou, mesmo sem eu pedir. — Dizia que eu tinha roubado a masculinidade dele. Que eu devia pagar por isso. Meu maxilar travou. Virei devagar, encostando o ombro no batente da janela. Cruzei os braços para não atravessar o quarto e arrebentar alguma coisa — ou alguém. — Então, por vingança, ele fez de você a prisão dele. — Minha voz soou dura, controlada. Ela apenas assentiu. — Eu era só uma garota, Vinícius. — o sussurro dela cortou o ar. — Uma garota que ele viu na rua e transformou em maldição. — Lucia... — minha voz quase quebrou. — Enquanto eu respirar, nenhum filho da p**a vai encostar em você de novo. Nenhum. — Isso significa que vai me deixar ficar? Fechei os olhos por um instante. Quis atravessar a distância, puxá-la para mim, prometer que nada mais a tocaria de perto. Mas não. Ela me enganou. Me pôs diante de todo esse passado sujo só agora, quando não tinha mais saída. Não merecia meu afeto naquele momento — pelo menos não demonstrado. — Eu preciso pensar. Por enquanto ninguém vai saber disso, capisce? — Capisco. — Vou pensar no que fazer. — Só não deixe os Moretti descobrirem sobre mim. Por favor. Abri os olhos e a encarei. — Bastardos maledettos. — Foi só o que saiu, seco, cheio de veneno. Depois me servi de mais bebida, engoli de uma vez, e deixei o copo sobre a mesa com tanta força que rachou. Fiquei ali, em silêncio, sabendo que não havia como apagar o que ouvi. E sem mostrar a ela, mas já jurando por dentro: Giovanni Moretti não respiraria por muito tempo. — Vista alguma coisa e descanse. — Falei ao jogar uma camisa a ela. — Mas e você? O que vai acontecer agora? Preciso da sua palavra que não vai me entregar... — Você só precisa rezar Va bene? Deita e reza. Quem sabe eu não dou uma notícia até de manhã? Só não tenta fugir de mim de novo, que dessa vez posso aproveitar a oportunidade e deixar descansar com o diavolo. — Grosso... — saí dali.
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