Capítulo 37
Vinícius Strondda
Meu pai segurou uma taça na mão, deu mais dois passos lentos, olhar que atravessava.
Acompanhei-o até o canto da sala, próximo ao retrato antigo de Don Pablo, ainda jovem, com a arma na mão e sangue fresco no punho. Ironia das gerações.
— Então Francesco disse isso? Com essas palavras? — perguntei, encostando o copo na mesa.
Ele respirou fundo, apoiando as duas mãos nas costas da cadeira.
— Sim. Giovanni está enlouquecido. Francesco me explicou por alto. Parece que a mulher do Moretti sumiu faz um tempo… e agora o carro. Um Lancia Delta Integrale.
Meu olhar subiu, calmo demais pro que senti.
— Lancia, é?
— É. Eles não tinham entendido o que estava acontecendo até receberem uma mensagem. — Ele deu um meio sorriso cansado. — O maledetto que fez tudo isso é tão bom que ainda avisou os Moretti que tinha feito.
Abaixei o olhar pro vinho, girando o líquido como quem medita.
— Estranho, não é? — falei. — Acha que foi sábia a ideia do inimigo em mandar mensagem ou burrice?
Meu pai inclinou o rosto, curioso.
— Ah, você está tentando me testar, huh?
— Só quero saber o que o senhor pensa, papà.
Ele deu uma risada curta, seca.
— Olha, eu tenho respeito pelos Moretti, mas confesso que fiquei curioso em conhecer o italiano audacioso. Gente que faz e ainda avisa o que fez... essa ousadia sempre me diverte. Ele é bom.
Engoli o vinho, fingindo relaxar.
— Hm. E você viu a mensagem que enviaram?
— Não. Foi uma ligação rápida. — Ele me estudava. O olhar dele sempre soube decifrar as rachaduras no meu silêncio. — Seus olhos dizem que você sabe de alguma coisa, Vinícius. Io non sono tonto. O que está acontecendo?
Soltei o ar devagar.
— Hoje é um dia de comemoração, papà. Amanhã eu quero conversar contigo. Não gosto de guardar segredo de ti.
Ele bufou, meio rindo, meio desconfiado.
— Dio santo. Eu sabia que tinha alguma coisa. Agora não vou conseguir dormir. Ecco.
Agarrei a taça dele e a enchi até a borda.
— Papà, descansa, va bene? Agora sou io o responsável por me estressar. Você só descansa.
Ele riu, um riso que parecia um grito contido.
— Isso me dá medo, bambino.
— Precisa me deixar resolver, hm?
Meu pai pousou a mão no meu ombro. O peso era o mesmo de sempre — o de quem já matou e viveu o suficiente pra saber o preço da liderança.
— Io ti ho creato. Mi fido di te. (Eu te criei. Confio em você).
— Io lo so. — Sorri, forçando leveza. — Agora sorria. Já viu que mandei esticar o lençol da consumação na sala ao lado?
Ele arqueou as sobrancelhas, quase rindo.
— Insistiu nisso?
— Sim.
— Tá explicado porque metade dos homens do conselho foi pra lá. — Deu um gole, divertido.
— Sim. O casamento foi consumado. Com sorte, logo teremos um bambino.
Meu pai sorriu pela primeira vez em horas.
— Que orgulho. Vamos festejar. Vinho branco?
— Tinto. Vou acompanhar os demais hoje. Sei que o tinto é o preferido do nonno.
— Va bene.
O vinho desceu como fogo.
Lucia se juntou a nós, discreta, o vestido vermelho ainda chamando atenção mesmo quando ela tentava se esconder nas sombras.
Falava baixo com a nonna, e de vez em quando, olhava pra mim.
Era estranho como até ali, entre o poder e o peso do juramento, meu corpo só se acalmava quando ela me olhava.
Ficamos até o último brinde, até o último homem ir embora.
O salão se esvaziou aos poucos, restando apenas o som da bengala do meu avô batendo ritmado no chão enquanto ele deixava o salão com a avó no braço.
Meu pai recolheu o casaco, me lançou um último olhar — desconfiado, mas sereno.
— Amanhã cedo quero te ver, Don Strondda. — O modo como pronunciou “Don” soou como teste, não como título. — Espero que me conte o que realmente está acontecendo.
Assenti, mantendo a face neutra.
— Combinado papà.
Quando ele subiu as escadas, o silêncio me engoliu inteiro.
A adrenalina da cerimônia tinha passado.
Agora só restava o peso daquilo tudo.
Lucia se aproximou devagar, descalça, a mão ainda segurando o copo meio cheio. É a primeira vez que vejo uma Strondda tirão salto.
— Posso te fazer uma pergunta? — sussurrou.
— Faça.
— Giovanni… ainda será um problema?
Olhei pra ela, um meio sorriso nos lábios.
— Não.
— E quando ele descobrir?
— Que Isabella Romano não morreu? — inclinei o rosto até quase tocar o dela. — Então vai descobrir tarde demais.
Ela respirou fundo, o olhar se fixando no meu.
— Eu não quero que nada disso recaia sobre você.
— Já recaiu. — toquei o queixo dela, firme. — O sangue já foi misturado.
Ela engoliu seco.
— E se os Moretti desconfiarem?
— f**a-se aqueles figlios de puttana. Agora io sou o Don. Quem ousar questionar, morre.
No fundo, o eco da voz do meu pai ainda ressoava: “Io mi fido di te.”
E essa confiança... era mais perigosa do que qualquer rival.
Apaguei a última vela e estendi a mão pra ela.
— Vamos pra casa, ragazza. O Don precisa dormir.
Ela sorriu, cansada, mas orgulhosa.
Quando cruzamos as portas do reduto, já era madrugada.
O ar de Roma parecia outro.
E eu sabia — a noite que me deu o título também me deu o primeiro inimigo oficial.
Os Moretti não deixariam barato, mas eu também não.