Késsia.
Parei meu carro bem longe do local que a briga acontecia.
Eu em, vai que arranham meu bebê?
Fui correndo, àquela altura do campeonato ela já devia tá machucada.
Quando cheguei ela já estava ao chão.
--- Ou seus covardes, gostam de bater em mulheres?
--- O que a garotinha quer?
--- Talvez ela queira brincar.
O beco foi preenchido pela risada dos homens.
Ali deveria ter no máximo uns dez deles.
Eu não tinha escolha a não ser enfrentar.
Não estava no momento de correr ainda.
Ela estava longe de mim, eu não sairia sali sozinha.
Peguei minha faca pequena que sempre carrego comigo.
Presente do meu pai.
Ali estava a prova de que ela era mais que útil.
Fui pra cima deles, tentava cravar a faca em lugares certeiros.
Desse modo eles poderiam cair logo ao chão.
E foi isso que aconteceu.
Alguns caíram, mas a maioria ainda estava de pé.
Eu não daria conta.
Se ficasse um pouquinho mais ali estaria no chão logo logo também.
Estava a uma distância razoável deles.
Fui até a garota que estava no chão e gemia.
O rosto dela estava bem machucado.
Assim como todo o restante do corpo dela.
--- Ei, consegue correr?
--- Pensei que não corria de uma briga.
--- E não corro, mas não sou invencível, enfrentamos eles depois, quer morrer ficando aqui?
--- Acho que consigo correr só um pouco.
--- Tudo bem, meu carro está a uma boa distância.
--- Então vamos.
Agarrei o braço dela passando por meu pescoço.
Quando eles viram que íamos correr vieram atrás de nós.
Por sorte conseguimos sair na frente.
Nós duas não chegamos muito longe.
Thomas, Levi, Oliver e Enrico estavam parados na rua.
--- Vão ficar aí parados? Enfrentem eles.
Eles foram lutar enquanto eu coloquei ela sentada no chão.
Ela se encostou no carro e gemeu, aquilo devia estar doendo muito.
--- Eu volto logo, não saía daí.
Me juntei a eles e em poucos minutos todos já estavam no chão.
--- Késsia e suas confusões.
--- Conversamos outra hora Levi.
Os três ficaram lá de boca aberta.
Eu não poderia falar com eles naquele momento.
Ajudei a garota a entrar no carro e entrei logo depois dela.
No caminho de casa decidi ligar para a mãe.
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--- Chama o médico da família mãe, urgente.
--- Quem está morrendo?
--- Explico depois.
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Quanto mais eu chegava perto de casa mais ela gemia.
Eu já estava nervosa, não saberia o que fazer se ela desmaiasse de dor ali no carro.
A minha mãe era uma deusa.
Assim que estacionei o carro avistei o médico.
Levei ela pra dentro e a coloquei sentada no sofá.
O médico fez uns curativos, deu alguns remédios e passou pomadas.
Por pouco ela não quebrou nenhum osso.
Mas em compensação os machucados estavam feios.
Em poucos dias ela estaria recuperada.
--- Qual o seu nome?
--- Me chamo Paola.
--- Deve ser você a garota que matou uma velha asquerosa.
Ela olhou para mim e eu dei de ombros.
--- O que? Minha mãe sabe de tudo.
--- Sei também que deseja trabalhar com minha filha. Não me leve a m*l, mas preciso saber quem é você.
--- Mãe, que tal deixarmos as perguntas pra depois?
--- Tudo bem, leva ela pra o seu quarto.
Mais uma vez fui servindo de apoio pra ela.
Ajeitei ela na cama.
Fui no banheiro e molhei uma toalha.
Voltei para a cama e comecei a limpar as partes visíveis do corpo dela.
--- Desculpe pela confusão.
--- Não se preocupe com isso.
--- Quem aram aqueles caras?
--- Um deles é meu primo, dois meus amigos e o outro é filho da minha mãe.
--- Seu irmão?
--- Eu costumava chamar ele assim antes de saber que ele é apaixonado por mim.
--- Gostei da sua família.
--- É a primeira que diz isso.
--- Aquele com uma barba ralinha e óculos nos olhos era o seu primo?
--- Sim, gostou dele?
--- Se gostei? Amei, passaria horas em uma cama com ele fazendo coisas proibidas.
Eu ri dela, estava começando a me simpatizar com ela.
O fato de ela ser sincera contribuiu muito.
--- Vai ter oportunidade de fazer isso, por hora apenas descanse, precisa se recuperar logo.
--- Obrigada por ter me trazido pra cá, eu poderia agradecer e ir embora, mas não tenho para onde ir.
--- Durma tranquila, amanhã conversamos.
Saí do quarto, eu deixaria ela dormir ali hoje.
Amanhã eu poderia arrumar o outro quarto da casa pra ela.
Isso é, se ela ainda tivesse vontade de trabalhar comigo.
A noite eu veria onde iria dormir.
Assim que desci as escadas os quatro abriram a porta.
--- Não vá me dizer que você criou aquela confusão Késsia?
--- Claro que foi ela Thomas, quem mais faria algo desse tipo.
--- Deixem ela falar.
--- Obrigado Oliver, você é um amigo.
Fiz um coraçãozinho pra ele e Thomas ferveu.
--- Não sei bem o motivo daquela confusão, mas não fui que criei, estava apenas ajudando alguém.
Bastou eu dizer aquilo e euforia se acalmou.
Fui pra cozinha procurar o que comer.
Minha mãe já tinha preocupada um comida reforçada.
--- É pra ela?
--- Sim, vai ajudar na recuperação, organize a mesa para mim.
Ela foi levar a comida da Paola e eu fui arrumar a mesa.
Logo todo mundo foi se sentando para comer.
O pai estava acabando de chegar de um passeio com a Maya.
O jantar foi tranquilo, com Levi conversando o tempo todo.
Eu juro que ele deve ter a alma de uma criança dentro de si.
Depois do jantar a louça ficou para os homens.
Meu pai tinha fugido, sobrou para os quatro.
Fui dar uma olhada ver como Paola estava.
Abri a porta do quarto lentamente, ela dormia como um anjo.
Aquele parecia ser o melhor sono dela em anos.
Eu não sabia quais os problemas da vida dela.
Mas só em olhar dava pra ver que ela tinha uma vida complicada.
Não o tipo da minha que é complicada pelas escolhas.
Ela parecia ter sofrido horrores nessa vida.
Eu odiava sentir pena de alguém, mas meu coração doeu por pensar no sofrimento dela.
Fui pra o segundo lugar nessa casa que me faz pensar bem.
Me sentei no jardim, o céu hoje estava magnífico.
--- Precisando pensar em que?
Minha mãe dificilmente não sabia sobre cada detalhe do filho.
Ela me conhecia muito bem.
--- Nem eu mesma sei.
--- Está com inveja de Paola não está?
--- Estou?
--- Viu como ela é decidida, mesmo com a vida fudida que ela tem, você só enrola.
--- Também não é assim mãe.
--- Claro que é, olha só o Thomas, bastava você machucar ele como tanto deseja e depois se acertarem, mas não fez isso até agora.
--- Tudo parece complicado mãe.
--- Nada é complicado, nós que somos complicados.
Aquilo parecia certo.
Mas ainda assim eu estava enrolada com tudo.
Eu queria ser descomplicada, assim como a Paola era.
--- Pare de enxergar dificuldades onde não tem filha, apenas o rejeite ou aceite de uma vez, se quer machucar ele vá em frente.
--- É surreal o jeito que defende os seus filhos.
--- Eu só defendi quando sei que não fizeram nada, Thomas fez muita coisa.
--- Já o perdôo por ter se distanciado de vocês?
--- Não existe essa de perdão entre mãe e filho, a gente só segue a vida, não é como se eu odiasse aquele menino.
--- As vezes eu acho que ele é muito mais parecido com a senhora que eu.
--- Também acho isso.
A minha família não era normal.
E na verdade nenhuma família era.
Cada uma com seus problemas, dificuldades e diferenças.