Késsia.
Minha perna estava totalmente sarada, os pontos já tinham caído, e eu não precisava mais ficar deitada o tempo todo, essa era a melhor parte.
Meus pais decidiram não curtir mais a velhice, pelo menos não por enquanto, a desculpa deles é que precisam cuidar de mim e do Thomas.
Os dois não querem ir por nada, já disse que ficaria tudo bem se eles quisessem ir, mas não querem.
Ultimamente Thomas estava mais atencioso, com as crianças e comigo também, todos os dias ele aparecia com uma surpresa diferente, e a cada vez meu coração parecia acelerar mais e mais, não sei que tipo de doença eu tinha, mas parecia está ficando séria.
Eu estava no jardim, pegando um pouco de sol, de tanto ficar dentro do quarto eu fiquei pálida pra caramba, parecia até que meu sangue tinha sumido completamente.
Thomas apareceu ali, com uma rosa na mão, eu gostava de rosas, eram lindas, e ele sabia disso.
--- Ver você pegando sol parece mais uma obra magnífica.
--- Mais uma cantada, até quando vai fazer isso?
--- Eu disse, vou conquistar você, agora que comecei.
--- Sei.
--- Queria te chamar pra ir a uma festa.
--- Rápido demais.
Ele gargalhou e p***a, meu coração acelerou novamente, o que merda tava acontecendo?
Ele realmente tava me fazendo apaixonar por ele? Me recusava a acreditar nisso, eu devia odiar ele e nada mais que isso, ele não merecia que eu me apaixonasse por ele assim tão fácil, mas meu coração estava sendo um traidor do caramba.
--- Só pra me acompanhar, preciso de uma mulher do lado, não existe alguma melhor que você.
--- Boa jogada.
--- Então, você vai?
--- Vou pensar, caso eu vá, desço do quarto até o horário.
Eu não sabia ainda se iria, não por ir com ele, é só que não gosto de sair para eventos desse tipo.
Também não sabia se a Melissa iria, eu não chegaria lá sozinha sem ter ninguém pra conversar comigo quando os homens tivessem conversando entre si, iria parecer deslocada, é muito r**m, muita coisa teria que ser levada em consideração para que eu tomasse a decisão de finalmente ir.
O meu quarto parecia ser o melhor lugar no momento para se pensar, meu quarto era meu companheiro pô, todas as decisões importantes eu sempre tomava dentro dele, talvez exista uma força sobrenatural ali, quem sabe?
Me deitei na cama, mas ainda assim não conseguia tomar minha decisão, lembrei de ligar pra Melissa, saber se ela estaria lá também.
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--- Diz aí
--- Mais respeito p*****a.
--- Hunrum, o que foi?
--- Levi chamou você para acompanhar ele até a festa?
--- Chamou.
--- Iae?
--- Iae o que?
--- Se você vai caramba.
As vezes Melissa era lerda demais, tanto que me dava nos nervos, era como se nós duas nem falássemos a mesma língua em algumas momentos.
--- Ah, eu vou, você vai?
--- Espera, e por que mesmo cê vai com ele? Cê também odeia esse tipo de festa.
--- Nada demais eu só quis ir.
--- Cê não tá devendo ele está?
--- Tchau.
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Vagabunda desligou na minha cara, eu realmente estava ficando sem credibilidade, mas aí tem, ela não aceitaria acompanhar Levi em uma festa assim do nada, nos últimos dias Melissa tá estranha, mas não quero perguntar nada, vou esperar que ela compartilhe comigo.
Bom, como a Melissa iria, não custava eu ir, não estava cem por cento com vontade de ir, mas iria, talvez lá eu me animasse mais.
Estava bem longe de ser a noite ainda, então fui procurar pela minha mãe, faz tempo que não converso um pouco com ela, tô até sentindo falta.
Ela estava brincando com as crianças, o pai também estava junto com ela, mó crianção.
--- A criança de dentro dele adora.
--- Difícil dizer quem é a criança e quem é o adulto.
--- Realmente.
--- O que tá fazendo aqui?
--- Vim conversar um pouco com a senhora.
--- Sobre?
--- Não sei, tudo.
Minha mãe sempre costumava deixar nossa mente clara, ela era a ouvinte de toda a família, quem quisesse conversar com alguém, era só ir até ela.
--- A Melissa não vem aqui faz dias, brigaram?
Parando pra pensar, ela tinha estado aqui ainda quando descobriram o que nós duas fazemos, depois disso ela não veio aqui em casa, não me lembro de nós duas ter discutido.
--- Não, pelo menos não me lembro.
--- A senhora sabe de algo, não sabe dona Angel?
--- Você vai descobrir logo, vão brigar muito também, nunca brigaram, amizade boa é aquela que se desentende.
--- Vira essa boca pra lá mãe, nós não vamos brigar nunca.
--- Se você diz.
Minha mãe costumava falar sempre a verdade, dificilmente ela dizia algo que não acontecia, era como se fosse uma vidente, habilidade que ela ganhou depois de ficar velha.
Melissa sempre foi uma boa amiga, nunca brigamos antes, desde pequenas fomos muito unidas, e nunca ouve um só desentendimento entre a gente, não sei se isso é bom ou r**m.
Eu achava que seria invasiva se perguntasse a ela exatamente o que estava acontecendo, por isso decidi que não faria isso, ao menos não por enquanto, talvez ela viesse me falar o que estava acontecendo antes de eu ir falar com ela.
Optei por deixar esses pensamentos um pouco de lado, se eu ficasse pensando tanto naquilo minha cabeça iria explodir, não é como se eu tivesse certeza que ela escondia algo.
A noite tinha chegado, fui me arrumar, bem tranquila e sem pressa, talvez Thomas chegasse atrasado, mas que se f**a, não mandei ele me convidar mesmo.
Raramente eu comparecia em alguma festa que era convidada, quase nunca eu saia de casa para essa finalidade, talvez fosse preguiça, como meu pai sempre falava, mas acho que não era isso, eu só era anti social.
Acho que era por isso que eu não tinha muitos amigos, além da Melissa, não existia outra pessoa que tinha o título de amigo pra mim.
Meu vestido era preto, minha cor favorita, eu não gostava muito de pessoas olhando minhas pernas, não fora de casa, então escolhi um vestido sem f***a mesmo, ao menos era bonito, combinava comigo, era isso que importava.
Usar salto era um horror, eu temia colocar aquilo no pé mais que qualquer coisa, não gostava nem um pouco desse trem me arrochando até os ossos do meu pezinho.
Depois de pronta desci as escadas, Thomas não me esperava na ponta da escada, ele estava esparramado no sofá como um adolescente que chega cansado da escola, mas ele se levantou rapidamente quando me viu chegar próxima a ele.
--- Uau, está magnífica.
--- Também está bonito. Vamos?
--- Vamos.
Ele entrelaçou seu braço no meu e andamos assim até o carro dele, a porta foi aberta por ele para mim e eu entrei, ele se ajeitou no banco do motorista e deu partida.
O local estava cheio, não era como em uma boate que as pessoas passavam se esfregando uma na outra, mas isso só por que o local era muito grande, fiquei até chocada com o tamanho, parecia nem ter fim.
Os convidados estavam espalhados pelo salão, cada um deles conversavam entre si, mas quando notaram a presença de Thomas todos dirigiram suas atenções a ele.
Muitos sussurros rolaram, sussurram entre si como se contassem algum segredo, e era exatamente por aquilo que eu não queria vir, suspirei de raiva, era isso que estava sentindo naquele momento, e Thomas percebeu.
--- Está tudo bem?
--- Hum, não gosto disso.
--- Podemos ir embora.
--- Nem pensar, se eu sair vão continuar sussurrando que não aguento pressão.
--- Certo, então vamos lá.
Thomas cumprimentava os demais homens que estavam presentes, e eu só acenava com a cabeça, não conhecia nenhum, e nem queria conhecer, que se f**a que eles me acharam m*l educada.
Mais uma vez a atenção dos convidados foi direcionada para a entrada do salão, Estéfane entrava com um cara que eu não conhecia, mas acho que o Thomas conhecia ele, já que os dois vieram na nossa direção, hoje eu poderia aliviar meu estresse em alguém, se ela me provocasse, dessa vez ela não sairia inteira.
--- Que bom ver você aqui meu amigo.
--- Digo o mesmo.
Thomas estava claramente mentindo, os dois não pareciam ser tão amigos assim agora.
--- Se divertindo Késsia.
--- Muito, mais ainda agora que você chegou.
Sorri pra ela falsamente, se ela sabia ser falsa eu era melhor ainda, não ia ficar pra trás.
--- Licença, preciso falar com alguns aliados.
Saímos de perto deles e andamos novamente pelo salão, esse cara era conhecido demais nesse mundo, não existiu uma só pessoa por qual passamos que ele não tenha cumprimentado.
--- Parece famoso.
--- Um pouco.
--- Aquele cara é seu amigo?
--- O que você acha?
--- Que são dois falsos, nunca vi alguém conversar com tanta falsidade na voz.
--- Cê também não fica pra trás Késsia.
--- E por que ficaria? O certo é devolver o que recebe não acha?
--- E por que não me devolve o sentimento de amor que recebe de mim?
O verdadeiro significado de a caça virou o caçador, p***a, como falo uma coisa dessas sem antes analisar a situação? Burra demais.
Nem mesmo respondi ao que ele disse, só iria me enrolar mais ainda, eu realmente não sabia o que falar, ele tinha tirado toda a minha atitude.
Até agora eu não tinha visto Levi ou Melissa por ali, ou os dois estavam enfiados entre os convidados ou não estavam ali.
--- Levi não veio?
--- Não sei, ele disse que viria.
--- A Melissa vinha com ele, não vi ela ainda.
--- Devem estar por aí perdidos entre os convidados.
Assenti, talvez poderia ser isso, ela poderia ainda não ter me visto também, caso contrário já teria me procurado, não seria possível ela me ver e não me procurar.
Já estávamos naquela festa chata a exatas duas horas, eu estava cansada, e sem humor nenhum para continuar ali, meus pés doíam por conta do salto, eu só queria tirar ele do pé e jogar longe, mas não faria isso.
--- Thomas.
Chamei ele baixinho, ele era mais alto que eu, minha altura dava no ombro dele, ele abaixou um pouco a cabeça até minha boca.
--- Qual o problema?
--- Quero ir embora, meu pé dói, não aguento mais ficar aqui.
Eu disse isso choramingando, se eu ficasse ali por mais algum tempo cairia no chão logo logo.
Ele se despediu dos homens com que estava conversando e saímos dali, quando entrei no carro consegui respirar, a merda dessa festa tinha me tirado até meu ar.
--- Se sente melhor?
--- Claramente, acho que não nasci para participar dessas coisas com certeza.
--- Concordo plenamente com você.
Fomos pra casa, acho que Thomas estava agradecido por eu ter chamado ele pra vir embora, já que ele também parecia um pouco cansado, era de se esperar, eu também ficaria mais cansada ainda se tivesse conversado com tantas pessoas como ele conversou.
Ele estacionou o carro na garagem, antes de entrar em casa ouvi a voz dele.
--- Obrigado por ir Késsia, sei que não gosta desses eventos.
--- Não conte mais comigo, comparecer nessas ocasiões é uma bosta.
--- Tudo bem, não vou mais chama-la para me acompanhar.
--- Boa noite.
--- Boa noite.