— Sim, claro que eu sei. — Eu rio enquanto coloco as mãos na borda do sofá para saltar sobre ele e sentar-me — Só vou escrever as notícias, como o boa repórter que sou.
— Às vezes a tua frieza me assusta.
— Bem, ele não era meu parente. — Eu dou de ombros e inclino para a frente para pegar meu laptop da mesa de café — Por que chorarei por aquela ovelha n***a disfarçada de cordeiro?
— Para mim era um bom rapaz, mas como em tudo, tinha que pagar o preço de ser presidente.
— Você acha que há pessoas más por trás desse cara? — Sorria — Informações interessantes para um post no blogue.
— Fernanda, você será cancelado —Meu Deus — Deixe isso em paz agora. Espere pelo menos que aquele homem esfrie por alguns meses.
— Sim, sim, mas vou prepará-lo.
No meu computador eu abro um documento e trovejo meus dedos antes de começar a escrever.
— Traga queijo —Eu pergunto — O que vou escrever vai ser bom.
— Mas ...
— Traga queijo, Ravel.
O meu amigo não rejeita e vai para a cozinha, porque ele sabe que eu vou ficar muito r**m se ela não fizer. Eu também preparo suas sobremesas quando você exige isso de mim, então esse relacionamento é justo e útil.
Eu cruzo as pernas e começo com o teclado. A primeira linha que sai é. O presidente deixa este mundo hoje faleceu. Eu rio e apago. É um hábito escrever bobagens antes de começar algo muito sério. Isso tira meus nervos, embora uma vez, na sexta série, eu tenha tido problemas com um professor, porque eu sei que esqueci que eu tinha escrito sobre ela e meu desejo de arrancar suas orelhas para transformá-las em alças para minha garrafa térmica. Mamãe e Papai foram chamados por ela e fingiram estar preocupados e chateados comigo, mas papai começou a rir quando ele saiu e disse que não podia me culpar, que aquela mulher realmente tinha orelhas enormes e que ela realmente era uma bruxa. Mamãe queria ser a mais séria, mas ela também riu por cerca de meia hora. No final, eles não me puniram, mas me proibiram de escrever esse tipo de coisa nos livros da minha escola e me compraram um especial para minhas bobagens e meus relatórios.
Eu te amo, vocês são os melhores pais em todo o universo. Graças a eles, estou onde estou agora.
Ravel me dá o prato de queijo e um garfo. Eu começo a devorar os cubos distraidamente, enquanto estou focado em acelerar minha história. Quando estou prestes a terminar, o meu telefone toca.
— Diz, Editor Samuel —Ravel diz do meu quarto, querendo saber antes de mim e peço para me entregar logo meu celular.
— Diga. — Eu digo com urgência e ela traz o meu telefone — Olá?
— Bom dia, Fernanda Bule!
— Bom dia, Senhor Samuel —Eu interrompo-o —Não, bem nem tanto.
— Sim. — Suspiros — Uma grande perda para o país. Ele esperava que Cabrini fosse reeleito.
— É lamentável, também não esperava —Minto — Como posso ajudá-lo?
— Quero que chegue aos escritórios amanhã cedo, está bem?
— Antes? Quanto tempo estamos a falar?
— Uma hora antes de —dizer num tom baixo — Não quero problemas com os outros colegas. Tratamos questões sensíveis fora do horário comercial. Claro, você será paga por essa hora extra.
— Ok, está bem! — Eu respondo — Sou todos ouvidos.
— Você saberá os detalhes amanhã, Fernanda —me responde em um tom que soa desdenhoso para mim — Você tem muita sorte.
— Por quê?
— Amanhã você saberá —diz num tom agudo — Apresente-se e falaremos no meu escritório.
— Mais alguém estará presente?
— Claro, a minha assistente. Mas ela não vai dizer nada sobre isso.
— Ok, estarei lá amanhã —Asseguro — Tenha um bom dia.
— Até amanhã, Fernanda Bule —diz antes de desligar.
Debaixo do celular eu tropeço na tela. Ravel rodeia o sofá e senta ao meu lado. Ele olha para o prato de queijo, mas não põe as mãos neles, porque sabe que, embora eu desse a minha vida por eles, não suporto partilhar o meu queijo.
— O que aconteceu?
— Eu não sei, mas eles vão me dar um trabalho importante —Eu digo com um sorriso — Ele não parece querer que os meus colegas saibam.
— Ops, isso soa muito bem. —Ele esfrega as mãos.
— Sim, claro que sim.
Eu tento ser feliz e acho que é uma coisa muito boa, ignorando esse sexto sentido que me diz que as coisas vão dar errado e eu vou cair nas mãos de alguém escuro e louco.
Meu destino está prestes a mudar para sempre, já que a armadilha que eles colocaram para mim é perfeita.
O rato começou a caminhar em direção a um prato de queijo gigante.
Ravel e eu passámos o dia todo colados na televisão. Meu amigo faz isso por mero sentimentalismo e para que sua pele fique em pé até o ponto de chorar; eu, por outro lado, faço isso para analisar tudo o que a imprensa diz. Não há nada negativo, como sempre. Eles apenas passam suas fotos, as fotos com sua família, mencionam suas grandes conquistas como empresário, político e depois como presidente.
Um homem irrepreensível, penso sarcasticamente, segundos depois de o apresentador o dizer.
— A sua esposa e filhos saberiam que tipo de pessoa era? —murmurou.
— Um bom rapaz? Claro que —é defendido por Ravel.
— Claro, um bom rapaz que desvia fundos e ...
— Oh, agora, supere isso. Todo presidente tem uma mancha preta em seu registro, mas você tem que admitir que ele fez mais do que qualquer outra pessoa neste país.
— Sim, suponho. — Suspiro e começo a alongar — Acho que estou cansado, todos os programas dizem a mesma coisa. Eu gostaria que seus inimigos saíssem e um escândalo surgisse.