Narração de Camila...
Talvez eu tivesse ficando louca quando aceitei conversar com ele. Observei ele puxar a cadeira e se sentar suspirando e colocando o boné em cima da mesa.
Servi o café e o entreguei, também coloquei dois pratos em cima da mesa.
- Obrigado Camila. - Forcei um sorriso. Os olhos verdes claros do Fernando chamavam tanta atenção.
- De nada. - Também servi um café para mim e me sentei de frente para ele olhando apenas minha xícara. Ele pegou uma faquinha de serra que estava ao lado do bolo e cortou duas fatias, serviu uma fatia para mim e depois se serviu. Eu estava constrangida...
- Agora me fale. - Fernando assoprou o café e deu um gole me analisando.
- Bom... Meu passado não é nada legal, e resumindo. Esse foi o motivo! - Falei sem olhar para ele.
- Você resumiu tanto que eu não consegui entender nada Camila. - Fernando se inclinou tentando encontrar com meus olhos que fitavam apenas a madeira antiga da mesa.
- Eu sofri *maus tratos Fernando. Um homem me machucou por alguns anos e agora carrego traumas. - Finalmente falei olhando nos olhos do Fernando e seu sorriso diminuiu ao ouvir as palavras que saíam da minha boca.
- Eu realmente sinto muito Camila.
- Obrigada. - Dei um gole em meu café.
- Por acaso esse homem pagou por isso? - Fernando carregava irritação em sua voz.
- Ele está pagando, mas não é por isso. Foi preso por tráfico. - Fernando voltou a ficar mais sério.
- Qual é o nome dele?
- Prefiro não voltar muito no passado. - Minha voz tinha uma angústia, a qual eu carregava a muitos anos! Apenas o nome dele me assombrava!
- Está bem...
- E você? Como conheceu minha tia?
- Bom. Comprei a casa ao lado, como há um feriado prolongado eu decidi ficar aqui com minha filha.
- E a mãe dela?
- Faleceu a alguns anos.
- Eu sinto muito. - Segurei a xícara mais firme sentindo por ele.
- Não se preocupe... Já me acostumei com a dor. Mas a pior fase foi quando minha filha sentia falta dela... Mas hoje ela está melhor.
- Entendi... - Olhei para a fruteira na bancada e alguns frutas querendo estragar e tive uma idéia! Eu precisava ajudar minha tia com esse aperto. E eu sentia sinceridade em Fernando.
- Você por acaso está precisando de alguém para trabalhar em sua casa? - Eu estava passando por cima dos meus traumas para tentar salvar a minha tia. Fernando me olhou confuso com aquela pergunta repentina.
- Como assim? - Fernando riu.
- Eu sei fazer faxina, lavo, passo e sei cuidar de criança. Eu cheguei agora e preciso de um trabalho. - Fui direta. Para mim era um ótimo trabalho! Minha tia disse que ele não era de ficar na casa direto e vivia em viagem a trabalho.
- Você quer trabalhar para mim? - Fernando riu. Levantei as sobrancelhas esperando a resposta dele.
- Bom... Podemos combinar, tenho duas funcionárias mas posso te incluir para ajudar vocês. Quanto você pretende receber?
- Quanto você puder pagar! - Falei em alívio e ele sorriu novamente tomando seu café.
- Bom... Pode ser dois salários e meio? E aos finais de semana você terá sua folga.
- Obrigada! Muito obrigada Fernando. - Nunca pensei que estaria tão agradecida com um homem. Até ontem eu não tinha coragem de me aproximar dele! E hoje estou em alívio por ele ter aceitado o meu pedido de trabalho.
- Bom! Então você começa amanhã. Eu vou te apresentar as duas empregadas, uma se chama Kelly e outro Maria. Elas são legais na maioria das vezes...
- Legal! - Sorri animada.
- Bom! Preciso voltar ao meu trabalho, prometi para minha filha que entraria com ela na piscina depois que eu terminasse de cortar a grama! Ela deve estar ansiosa não ouvindo o cortador de grama. - Fernando se levantou sorrindo e colocou seu boné na cabeça.
- Obrigada! - Agradeci novamente enquanto ele se afastava saindo da casa, eu estava com o coração cheio de alegria! Dois salários e meio! Ele vai me pagar bem! Já consigo fazer as contas mentalmente! Consigo pagar uma parcela da casa e algumas contas atrasadas... Eu estava começando a sentir vontade de viver de novo! Mas a alegria durou pouco quando cortaram a energia desligando os aparelhos domésticos. Meu semblante caiu... Três contas atrasadas, era de se esperar. Ao menos o Fernando saiu antes que presenciasse o corte da luz. Esfreguei as mãos no rosto angustiada pela situação da minha tia! Como chegou a esse ponto? Ela estava sozinha e se endividando cada vez mais e sem nenhuma ajuda! Imagino o desespero que ela passou sozinha e o quanto deveria ter chorado olhando o excesso de papeladas de dívidas! Mas estava disposta a ajudar minha tia! Eu ainda tinha um pouco de dinheiro em minha carteira quando fugi do
Marcos. Eu estava disposta a fazer aquele dinheiro dobrar! Abri a geladeira e vi uma bandeja de peito de peru e tinha alface! Ótimo! Saí da casa e andei alguns quilômetros a pé para ir até um mercadinho que não era muito longe. Torcia para não ter fechado afinal aquele lugar era deserto e carente de comércio! Mas para o meu alívio o mercadinho continuava no mesmo lugar!
Comprei dois sacos de pães de forma e também um uma lata de atum e alguns tomates. Estava torcendo para conseguir pagar tudo aquilo! E cada coisa que passava no caixa eu olhava o valor e depois olhava os míseros trocados em minha carteira. Mas para o meu alívio... Deu certo! Voltei para casa rapidamente e comecei a fazer sanduíches naturais de patê de atum e outros de peito de peru. Deixei tudo bem embalado e coloquei em uma bolsa térmica. Olhei a hora e ia dar meio-dia! O melhor horário! Criei coragem e fui até a casa do Fernando, aquele casarão era lindo demais. Apertei a campainha e não demorou até uma mulher ruiva abrir a porta.
- Pois não?
- Fernando está? Sou a vizinha dele. - Acho que ele escutou e logo apareceu atrás da ruiva.
- Sim Camila?
- Eu posso te pedir uma carona até a praia? Eu não tenho como pedir um uber. E preciso trabalhar. - Fernando olhou a bolsa térmica pendurada em meu ombro e levantou as sobrancelhas.
- Claro!