Capítulo 17 – Conselho das Mulheres do Santuário – Vozes que a lembram: você merece amar

1737 Words
O salão principal do Santuário estava cheio naquela manhã. O espaço, simples e iluminado pela claridade que entrava das janelas grandes, parecia respirar junto com cada mulher que ali se sentava. As novas acolhidas ocupavam cadeiras dispostas em círculo — algumas de braços cruzados, defensivas, outras com os olhos baixos, incapazes de sustentar o olhar de quem quer que fosse. Todas, porém, tinham em comum a mesma marca: o corpo rígido, como flores que haviam esquecido como se abrir. O silêncio pesava mais que palavras. Era o silêncio de quem já fora julgada, usada, ferida. O silêncio de quem não sabia se ainda havia espaço no mundo para existir sem medo. Dona Ofélia caminhava entre elas com passos lentos, mas cheios de firmeza. Não havia pressa em sua presença, apenas a certeza de quem sabe que cada olhar pode ser um remédio. Vestia-se com a simplicidade que sempre a acompanhava: uma saia longa, uma blusa clara, e nos ombros, o xale colorido que se tornara símbolo dela. Sua voz não era alta, não precisava ser. Era calma, serena, mas carregada de autoridade que não gritava, curava. Foi essa voz que fez Analee parar no corredor. Ela havia passado a manhã inteira tentando se esconder atrás do trabalho — papéis, relatórios, atendimentos —, mas ao ouvir a entonação firme de Ofélia, seu coração hesitou. Não foi apenas curiosidade. Foi algo mais profundo. Algo que a puxou, como se aquelas palavras fossem destinadas também a ela. Encostou-se à porta semiaberta, respirando fundo, deixando o som atravessar. Do outro lado, Ofélia se inclinava para uma das jovens, uma menina que m*l deveria ter vinte anos e que parecia querer desaparecer dentro de si. Tocou-lhe a mão com cuidado e disse: — Aqui, vocês não são culpadas. Aqui, não são números, nem objetos. Aqui, são mulheres que ainda têm asas, mesmo que tenham esquecido como voar. As outras mulheres do círculo ergueram os olhos, algumas com lágrimas contidas. Era impossível não ser tocada. E Analee… sentiu o impacto no peito como se a frase fosse dirigida a ela. A fênix dentro dela estremeceu, porque, apesar de todas as cicatrizes que havia transformado em tatuagem, havia um pedaço que ainda resistia: a crença de que não merecia amar. Naquele instante, mais do que psicóloga, mais do que diretora do Santuário, Analee era apenas mulher. Uma mulher ouvindo a mãe do coração lembrar que asas existem para abrir, não para se esconder. Ela permaneceu ali, imóvel, com os olhos marejados, sabendo que aquela manhã não era apenas para as recém-chegadas. Era para ela também. — Vocês não estão quebradas — disse Dona Ofélia, caminhando lentamente pelo círculo, olhando cada uma daquelas mulheres nos olhos como quem planta sementes. — Vocês foram feridas, sim, mas ferida não é sentença. O silêncio pareceu se curvar diante dela. Algumas das recém-chegadas se encolheram ainda mais, como se não merecessem ouvir. Outras ergueram o rosto pela primeira vez, desarmadas pela serenidade daquela voz. — Cicatriz não é vergonha — continuou, com a firmeza que vinha da experiência de uma vida inteira — é lembrança de que sobreviveram. De que não se renderam. Ela parou, respirou fundo, e sorriu. O sorriso dela não era só expressão; era bálsamo. O tipo de sorriso que diz “eu sei” sem precisar de palavras. — Muitas de vocês pensam que nunca mais vão merecer o amor. — A voz dela baixou, carregada de ternura. — Pensam que ninguém será capaz de enxergar além do que viveram. Que os olhos dos outros vão ver apenas as marcas, os erros, as dores. Mas eu digo: isso é mentira. Uma mentira que o mundo contou para que vocês acreditassem que não têm valor. Fez uma pausa, deixando que cada palavra repousasse no ar como uma oração. — Vocês merecem. — repetiu, mais firme. — Mereço. Todas merecemos. O impacto foi imediato. Uma das mulheres começou a chorar baixinho, cobrindo o rosto com as mãos. Outra, mais velha, ergueu o queixo como se aquelas palavras fossem força nova em seus ossos. O círculo parecia respirar junto, transformado pela coragem que Ofélia compartilhava. E então, sem perceber, Analee se viu atingida. Ela, que tantas vezes dissera coisas semelhantes às acolhidas. Ela, que usava a própria dor como exemplo de superação. Agora, parada à porta, se deu conta de que era fácil falar. Difícil era viver. Cada frase da mãe do coração entrava nela como flechas silenciosas. A fênix tatuada em suas costas parecia se mexer, latejar, como se lembrasse que nem mesmo suas asas estavam completamente abertas. Porque sim, Analee havia sobrevivido. Sim, havia renascido. Mas amar? Permitir-se amar? Isso ainda era território proibido. O coração dela acelerou, porque as palavras ecoavam exatamente na ferida que John havia tocado sem perceber. No olhar dele, ela vira a promessa de algo maior que o desejo. E era isso que a assustava. Ofélia ergueu novamente a voz, encerrando com suavidade: — O amor certo não prende, não fere, não humilha. Ele protege, respeita, devolve a vida. Se o mundo tentou convencer vocês do contrário, saibam: o mundo estava errado. Vocês merecem ser amadas. Por inteiro. Sem medo. Analee fechou os olhos por um instante. Uma lágrima traiçoeira desceu antes que pudesse contê-la. E, pela primeira vez, deixou-se perguntar em silêncio: E se eu também merecer? Ofélia continuou, sua voz firme, mas doce, preenchendo cada canto do salão: — O amor não apaga a dor, minhas filhas. — Ela caminhava devagar pelo círculo, os olhos brilhando de uma sabedoria conquistada à custa de cicatrizes próprias. — O amor não é um milagre que apaga o passado. Mas ele nos ensina algo maior: que não precisamos mais carregá-lo sozinhas. Houve um leve burburinho entre as mulheres, como se cada palavra abrisse rachaduras em muros antigos. — O amor certo não prende. — repetiu Ofélia, fazendo questão de marcar cada sílaba. — O amor certo não domina, não fere. O amor certo protege, respeita, devolve a vida. Uma das acolhidas ergueu os olhos marejados, como se estivesse ouvindo aquilo pela primeira vez. Ofélia se inclinou para ela e completou: — Vocês merecem ser amadas não pelo que sobreviveram, mas pelo que são. Não pelo sofrimento, mas pela essência. Foi nesse instante que Analee sentiu a garganta apertar. De repente, não estava mais ouvindo como psicóloga. Não era a cuidadora, a profissional que tantas vezes usara discursos semelhantes para confortar outras mulheres. Estava ouvindo como mulher. Como a menina que fora ferida e marcada pelo fogo. Como a fênix que aprendera a se levantar, mas que ainda tremia diante da ideia de amar. As palavras de Ofélia atravessaram sua armadura e tocaram o ponto que ela escondia até de si mesma: o medo não era do mundo, era dela. O medo era de se entregar. De acreditar que merecia algo além da sobrevivência. E então, inevitavelmente, o rosto de John surgiu em sua mente. Ela se lembrou do olhar dele — não apenas intenso, mas reverente, como se tivesse visto nela não uma ferida, mas um milagre. Lembrou-se da forma como ele a segurara na noite em que quase caíra, as mãos firmes em sua cintura, como se fosse algo precioso demais para ser deixado ao chão. Analee fechou os olhos, numa tentativa inútil de afastar a lembrança. Mas não podia. Quanto mais lutava contra, mais viva a imagem se tornava. O olhar dele, a respiração dele, o silêncio carregado de promessas que ela não ousava decifrar. Seu coração disparou, batendo no ritmo das palavras de Ofélia. O amor certo protege, respeita, devolve a vida. John. O homem que prometera a si mesmo nunca mais amar. O homem que carregava uma filha silenciada pelo trauma. O homem cujas costas, queimadas como as dela, exibiam a águia tatuada em dor e coragem. Era como se, de repente, Ofélia não estivesse mais falando apenas às recém-chegadas. Falava a ela. À sua fênix. À mulher que sobrevivera, mas ainda não acreditava que podia ser amada sem queimar. E no silêncio da porta, Analee percebeu: talvez já estivesse amando — e isso a apavorava mais do que tudo. Quando a roda se dispersou, as cadeiras foram sendo empurradas devagar, algumas mulheres se abraçaram em silêncio, outras apenas enxugaram lágrimas discretas. Mas Analee permaneceu imóvel na porta, como se os pés estivessem cravados no chão. O corredor atrás dela estava vazio, mas o coração parecia cheio demais. As palavras de Dona Ofélia ecoavam como sinos dentro dela: “Vocês merecem ser amadas.” Simples. Diretas. Definitivas. E, ainda assim, era como se cada letra fosse um peso esmagador sobre seu peito. Analee tentou negar. Tentou repetir mentalmente a promessa que fizera a si mesma tantas vezes: que não precisava de ninguém, que a fênix tinha a si mesma como família, que renascer sozinha era suficiente. Tentou acreditar nisso, mas não conseguiu. Porque a verdade ardia sob a pele como brasa que não se apaga: ela desejava. E não era apenas o desejo físico, aquele que queimava toda vez que John a olhava com reverência, toda vez que o corpo dela respondia antes mesmo da mente. Era outro tipo de desejo, mais profundo, mais perigoso. O desejo de viver algo além da dor. O desejo de acreditar que poderia ser amada não pela cicatriz, mas apesar dela. O peito subia e descia rápido, como se o ar tivesse se tornado insuficiente. A fênix dentro dela tremia, as asas ainda fechadas, mas pulsando para abrir. Ela fechou os olhos, encostou-se contra a parede fria do corredor e permitiu-se ouvir a própria voz interna — aquela que passara anos calando. E se? Duas palavras apenas. Mas foram como um portal. E se ela realmente merecesse? E se o amor que tanto negava fosse, na verdade, a forma mais plena de renascer? E se deixar-se amar não fosse perder a si mesma, mas finalmente encontrar-se? O coração disparou, batendo forte como asas contra grades invisíveis. Pela primeira vez em anos, Analee não fugiu da ideia. Não ergueu muralhas. Não se refugiou em discursos ou em tarefas. Permitiu-se pensar, apenas por um instante, que talvez estivesse pronta. Não para se entregar cegamente. Não para esquecer a dor. Mas para acreditar que havia algo além dela. E quando abriu os olhos de novo, sentiu-se mais leve. Não curada, não inteira, mas aberta. Como se dentro dela a fênix tivesse batido as asas pela primeira vez em muito tempo, pronta para voar.
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