Capítulo 14 – Primeiro Toque Proibido

1814 Words
O amanhecer trouxe consigo um silêncio desconfortável, diferente do habitual sossego do Santuário. Para John, parecia que até o ar pesava mais. Ele acordou antes de todos, como se o corpo tivesse pressa em se livrar de algo que não conseguia nomear. No espelho, ao ajeitar a gola da camisa, viu a águia tatuada nas costas refletida de relance. Não conseguiu encarar por muito tempo — a lembrança da noite anterior, do olhar de Analee sobre aquela marca, era um fantasma ardente. Decidiu que precisava de controle. Controle era sua única defesa. E o controle começava pela distância. Passou o dia inteiro evitando os corredores em que ela costumava estar. Enterrou-se em telefonemas para sócios, fingiu interesse em relatórios que já conhecia de cor, deixou que a mãe se ocupasse de Livy. A cada vez que pensava em caminhar até o jardim, lembrava-se da fênix tatuada nas costas dela e recuava. Fugir parecia mais seguro do que encarar o que o atraía como fogo. Analee, por outro lado, não fugiu. Não era de fugir. Manteve a rotina no Santuário com a postura firme de quem sabia que outras mulheres dependiam da sua força. Falou com acolhidas, organizou atividades, sorriu com delicadeza. Mas o sorriso não alcançava os olhos — havia neles uma centelha que queimava em silêncio. A mesma que surgira quando seus olhos encontraram os de John na noite passada. E cada vez que isso acontecia, o mundo parecia parar. Quando, por acaso, cruzaram no refeitório, foi apenas um segundo de contato visual. Mas bastou. O ar rareou. As mãos dela, que seguravam uma xícara, tremeram levemente. Ele, que segurava uma pasta, desviou rápido, como se o peso fosse súbito demais. Ninguém ao redor percebeu, mas dentro deles, algo se movia, algo que não podia mais ser silenciado. O jogo da distância estava armado. John fingia que os números e as reuniões eram suficientes para preencher o vazio. Analee fingia que a dedicação às outras mulheres era abrigo contra a própria vulnerabilidade. Mas ambos sabiam que era apenas encenação. Era como tentar apagar fogo com cinzas: cada tentativa de se afastar só escancarava a proximidade. John, em sua solidão mascarada de disciplina, sentia o gavião dentro dele se agitar. O instinto gritava que não bastava proteger Livy, que havia outra vida, outro coração que ele já queria guardar sob suas asas. Analee, no fundo do peito, reconhecia que a ousadia da noite anterior fora um disfarce. Ousara provocá-lo, mas apenas porque estava assustada. Nunca antes desejara um homem daquela forma. Nunca antes se permitira sentir a vulnerabilidade de querer. E essa descoberta era tão intensa que a fazia sorrir em público e tremer em silêncio. Assim, entre relatórios e sorrisos contidos, entre passos evitados e olhares rápidos, a distância que criavam era apenas fachada. Porque, no íntimo, já estavam perigosamente próximos. E cada batida de coração só confirmava: fugir não seria possível por muito tempo. O Santuário estava mergulhado em um silêncio doce naquela noite. O vento passava entre as árvores, carregando o perfume de flores noturnas, e dentro da sala principal, apenas a voz suave de Analee preenchia o espaço. Sentada em uma poltrona baixa, ela lia um conto infantil para Livy, que se aninhava em seu colo com o ursinho contra o peito. A menina lutava contra o sono, os olhinhos piscando cada vez mais devagar, até que a respiração profunda denunciou que havia se rendido. Analee fechou o livro com cuidado, como quem sela um segredo, e ficou alguns segundos apenas observando aquela pequena vida adormecida em seus braços. Um calor diferente a invadia. Era proteção, era ternura… mas também era a lembrança ardente de que amar era perigoso. Foi então que John apareceu à porta. Ele não fez barulho, mas ela percebeu sua presença. Sempre percebia. O moletom cinza não escondia a imponência do corpo, nem o olhar sombrio que ele carregava como armadura. Por um instante, os olhos dele repousaram na filha adormecida, e a dureza se dissolveu. Mas quando subiram para encontrar os de Analee, a tensão voltou, como corrente elétrica atravessando o ar. Ele se aproximou em silêncio, estendendo os braços para pegar Livy. O gesto deveria ser simples. Cotidiano. Mas não havia nada de simples naquele momento. Quando Analee entregou a menina, os dedos de ambos se tocaram. Pele contra pele. Foi apenas um roçar breve, quase insignificante. Mas, no íntimo, foi como fogo. A fênix dentro dela tremeu, despertando brasas que tentara sufocar. O gavião dentro dele agitou as asas, exigindo espaço para voar. O silêncio se alongou, denso, tão pesado que parecia impossível quebrá-lo. O corpo dela permaneceu inclinado por um instante a mais, como se não quisesse soltar completamente. O dele sustentou a filha com firmeza, mas os dedos demoraram a se afastar dos dela, como se estivessem colados por algo invisível. John tentou desviar o olhar. Queria. Precisava. Mas não conseguiu. Os olhos de Analee o seguraram, correntes invisíveis que o prenderam mais do que qualquer promessa. Não havia provocação, não havia ironia. Havia apenas verdade crua, uma intensidade que os deixava expostos demais. Ela, por sua vez, sentiu o coração acelerar, mas não recuou. Olhou-o de frente, como quem aceita o risco, mesmo que a coragem esconda o medo. Nenhum dos dois disse nada. Não havia palavras para aquele instante. Mas ambos sabiam: a promessa de distância estava ruindo. Porque às vezes o destino não grita, não empurra, não força. Às vezes, basta um toque. E aquele toque, por mais breve que fosse, já os marcara para sempre. O jardim do Santuário repousava em silêncio. As flores noturnas exalavam um perfume suave, quase inebriante, e a lua recortava o céu com sua claridade pálida. Analee saiu para respirar. Precisava de ar, precisava de distância daquilo que queimava dentro dela desde a noite anterior. O problema é que, por mais que buscasse refúgio, o fogo a acompanhava. Estava tatuado em sua pele, gravado em sua alma, e agora se inflamava cada vez que pensava em John. E John, como se fosse atraído pela mesma força invisível, apareceu. Não anunciou sua presença. Apenas caminhou até ela, as mãos nos bolsos, o moletom marcando a amplitude dos ombros. A respiração dele estava pesada, e cada passo parecia carregar uma decisão que ele não queria tomar. — Fugindo de mim? — a voz dele quebrou o silêncio, grave, rouca. Analee ergueu os olhos, o queixo erguido com ousadia. — Se eu quisesse fugir, você não teria me encontrado. — A resposta veio afiada, mas os olhos dela ardiam, denunciando a verdade: ela também não queria distância. A troca de palavras foi curta, mas carregada de tensão. Cada frase era uma máscara, uma tentativa de esconder que os dois já estavam perigosamente à beira do abismo. Foi então que o acaso os traiu. Analee tropeçou em uma pedra solta no caminho, o corpo vacilando por um segundo. Não chegou a cair — porque John foi mais rápido. A mão dele segurou firme sua cintura, trazendo-a contra si. E tudo desabou. Não houve tempo para pensar, não houve espaço para recuar. O choque foi imediato: pele contra pele, calor contra calor. O corpo dele sustentando o dela com firmeza, como se tivesse nascido para ser abrigo. A respiração de ambos se misturou, colidindo no espaço ínfimo que restava entre seus rostos. O coração de Analee disparou, e a fênix dentro dela tremeu, como se estivesse prestes a se erguer em chamas outra vez. O gavião em John rugiu, abrindo asas invisíveis sob a pele, dominando o instinto de protegê-la e desejá-la ao mesmo tempo. Por um instante, o mundo desapareceu. Não havia lembranças, não havia cicatrizes, não havia promessas. Havia apenas dois sobreviventes, duas almas marcadas pelo fogo, se reconhecendo no reflexo do outro. Os olhos dele desceram para os lábios dela. O corpo dela se curvou, quase se entregando ao movimento. Tudo pedia pelo beijo, pela queda inevitável no desejo. Mas nada aconteceu. Porque ambos estavam paralisados não pelo medo do outro, mas pelo medo de si mesmos. Ainda assim, naquele primeiro toque verdadeiro, já não havia muralhas. As defesas caíram. As promessas se tornaram cinzas. E o que restou foi a verdade nua: eles se pertenciam, mesmo sem admitir. O tempo pareceu se estender até a eternidade no instante em que os lábios quase se encontraram. O coração de John batia como martelo contra o peito, e cada fibra do corpo dele pedia para se render, para cruzar aquele centímetro que os separava. Mas a promessa feita a si mesmo rugiu dentro da mente, o peso das lembranças queimando mais do que qualquer desejo. John recuou. Não de imediato — não completamente. As mãos ainda repousaram na cintura dela por tempo demais, como se não conseguissem soltar, como se a pele de Analee fosse ímã e a dele ferro. Quando, enfim, afastou-se, a respiração estava irregular, e o silêncio entre eles mais quente do que qualquer palavra. Os olhos de Analee brilharam. Para quem a olhasse de fora, podia parecer ousadia. Desafio. Mas dentro dela, era tremor. Era medo. Porque pela primeira vez, desde que o fogo lhe roubara a infância e a inocência, desejava um homem. Não com cautela, não com cálculo. Desejava com verdade. Com corpo e alma. E isso a incendiava ao mesmo tempo em que a apavorava. Ela ergueu o queixo, corajosa na superfície, mas vulnerável em cada batida do coração. — Mas já aconteceu. — A voz saiu firme, mesmo quando os joelhos dela fraquejavam por dentro. John fechou os olhos por um segundo, como se precisasse de fôlego. Quando abriu novamente, deixou escapar em tom rouco: — Isso não devia acontecer… Mas o que estava diante dele não era apenas tentação. Era revelação. A lua derramava sua luz prateada pelo jardim, e ao virar-se levemente, a gola do moletom de John deslizou para o lado, revelando o desenho da águia tatuada sobre suas costas marcadas. Analee prendeu a respiração. Aquele gavião protetor, de asas abertas, cobria cicatrizes que ela reconhecia como suas. Não precisava tocá-las. Bastava olhar para saber que ele também fora queimado, que ele também transformara dor em símbolo. E esse reconhecimento foi mais íntimo do que qualquer beijo poderia ser. Não havia apenas atração. Havia espelho. Havia destino. Analee tremeu, não porque ele a tocava, mas porque, pela primeira vez, alguém a desnudava sem tirar nada de seu corpo. John, com suas próprias cicatrizes, a expunha e a protegia ao mesmo tempo. O silêncio se prolongou, denso, íntimo, mais forte que o calor do quase-toque. Estavam à beira de um abismo. Um passo, e cairiam. Mas, ao contrário do que imaginavam, talvez fosse justamente esse abismo que os aproximava. Porque ambos já haviam sido devorados pelo fogo — e agora, pela primeira vez, alguém os olhava e via não a dor, mas as asas. E isso, mais do que qualquer toque, os incendiava por dentro.
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