Seraphine Albuquerque atravessou os portões da prisão como quem desfila em um palco. Não havia arrependimento em seus olhos, nem gratidão na boca. Apenas soberania. Oficialmente, estava livre por “bom comportamento”. O juiz lera relatórios frios e palavras cuidadosamente moldadas por seu advogado, descrevendo-a como mulher regenerada, pronta para recomeçar. Mas todos que haviam partilhado daqueles corredores sabiam a verdade: Seraphine nunca se comportara.
Na cela, não se curvou a ninguém. Quebrava olhares de ameaça com o seu próprio, tão cortante quanto lâmina. Cada sorriso que dava escondia veneno; cada palavra era um laço que enlaçava a vítima antes de apertar. A beleza, que tantos acreditavam ser maldição atrás das grades, ela transformou em império. Usava-a como armadura e como faca. Guardas a temiam. Detentas a seguiam. Seraphine não sobrevivia em lugar nenhum. Ela reinava.
E agora, ali fora, respirando o ar frio da madrugada, ergueu o queixo como rainha de um reino invisível. Não olhou para trás — jamais olhava. O passado para ela não era peso, era munição.
A primeira imagem que lhe atravessou a mente não foi a de liberdade, nem de futuros prazeres. Foi John Terly. Sempre ele. O homem que ousara acreditar que podia se livrar dela. O homem que, em um ato de covardia e orgulho, escolhera erguer muralhas em vez de continuar sendo devorado por sua presença.
Um sorriso frio curvou-lhe os lábios.
John não entendia. Nunca entendera. Seraphine não era o tipo de mulher que se perdia. Ela era a perda em si, a ruína inevitável de qualquer um que ousasse afastá-la. Ele pensou que poderia se libertar dela, mas a verdade era simples: ninguém se liberta de Seraphine Albuquerque. Nem mesmo o tempo, nem mesmo a prisão.
Dentro dela, o ciúme tomava forma de entidade. Não era ciúme comum — era possessão, era obsessão que beirava o sobrenatural. John podia ter poder, dinheiro, impérios. Podia carregar no corpo cicatrizes de herói. Mas, para ela, tudo isso era irrelevante. Porque ele tivera algo que nunca poderia ser devolvido: a submissão da sua juventude, a chama da sua confiança. E ousara destruí-la ao retirá-la de si.
Nos corredores da prisão, muitos a temeram. Do lado de fora, muitos a subestimariam. John, principalmente, acreditaria que tinha vencido. Mas Seraphine já decidira: faria dele não apenas um inimigo. Faria dele um exemplo.
A cada passo, o som dos saltos no asfalto parecia sentença. O vento gelado não a tocava, as sombras não a assustavam. Porque o verdadeiro perigo não estava na noite. Estava dentro dela, prestes a ser libertado.
E, ao pensar no nome do ex-marido, seus olhos brilharam como brasas prestes a incendiar tudo em volta.
John Terly podia acreditar que a enterrara no passado. Mas Seraphine nunca foi terra. Sempre foi fogo. E agora estava livre.
Seraphine se lembrava perfeitamente das palavras do advogado. Sentado diante dela, com os óculos escorregando pelo nariz e a pasta repleta de documentos, ele não falava como quem dava conselhos. Falava como quem ditava uma sentença.
— Aceita o acordo. — sua voz tinha a calma de quem já sabia que ela não tinha escolha. — Sexo e poder você sempre terá de sobra para negociar. O importante é sua liberdade.
Seraphine o observava em silêncio, com aquele meio sorriso que sempre deixava homens desconfortáveis. Era verdade. Sexo e poder eram moedas que nunca lhe faltaram. Desde cedo, aprendera a usá-las como armas, afiadas e letais. O corpo era um convite, mas também uma armadilha. E a mente, afiada como navalha, era a verdadeira corrente que prendia quem ousasse se aproximar.
Ela não perguntou quem estava por trás de sua soltura. Não precisava. Se havia alguém poderoso o bastante para mexer fios invisíveis, manipular juízes e dobrar instituições, esse alguém já merecia sua admiração. Não importava se fosse político, magnata ou criminoso. O simples ato de libertá-la era prova de que, em algum lugar, alguém a via como peça valiosa no tabuleiro.
E Seraphine sabia jogar.
Ali, naquele exato instante, decidiu que não seria apenas grata, seria aliada. Porque poder reconhecia poder. E ela sempre soubera se aliar aos vencedores… até decidir quando seria hora de traí-los.
No fundo, havia uma excitação quase erótica na ideia. Alguém a queria solta. Alguém acreditava que ela ainda tinha muito a oferecer. E ela tinha. Não apenas beleza, não apenas luxúria. Mas a mente c***l e a habilidade de destruir com precisão cirúrgica.
Levantou-se, atravessou a sala estreita da prisão e encarou o próprio reflexo no vidro embaçado da janela. O cabelo, mesmo descuidado, ainda caía em ondas escuras sobre os ombros. Os olhos, verdes e cortantes, brilhavam com a mesma intensidade de antes. O tempo não a domara. O cárcere não a quebrou. A promessa do advogado apenas reacendeu nela algo que jamais morrera: sede.
— Liberdade... — sussurrou para si mesma, quase como uma amante perdida que volta para os braços.
Não importava quem estava por trás de sua saída. Mais cedo ou mais tarde, descobriria. E quando descobrisse, se aproximaria devagar, como serpente que mede a presa antes de dar o bote. Se o misterioso aliado a queria livre, já tinha sua atenção. Em breve, teria também sua devoção — ou seu veneno.
Seraphine sorriu, lenta e perigosamente. O advogado desviou os olhos, como sempre fazia. Ele sabia que não havia mulher mais letal do que aquela à sua frente.
Livre, ela não voltaria a ser sombra de ninguém.
Não queria apenas viver. Queria reinar.
E se alguém acreditava tê-la soltado para usá-la, aprenderia rápido: era Seraphine quem sempre usava.
Mas o que ardia no peito de Seraphine não era apenas o sabor da liberdade recém-conquistada. Era um fogo antigo, incessante, que tinha um nome: John Terly.
Para ela, ele havia cometido o pior dos pecados — não o de abandoná-la, mas o de sobreviver sem ela. Ousara respirar sem o perfume de sua presença, ousara erguer impérios sem precisar de seu veneno, ousara proteger a filha como se Seraphine nunca tivesse existido.
Esse crime, em seus olhos, era imperdoável.
O ciúme que sentia não era humano. Era sobrenatural. Alimentava-se como uma entidade dentro dela, crescendo cada vez que lembrava de um olhar negado, de um beijo que ele recusara, de cada instante em que escolhera Livy em vez dela. Livy. A menina que sobrevivera ao fogo. A menina que, para Seraphine, não passava de uma barreira entre ela e o homem que acreditava possuir.
John podia acreditar que a tinha deixado no passado, mas Seraphine não aceitava perder. Nunca aceitara. Para ela, perder não era uma possibilidade — era uma ofensa. Uma afronta à sua própria natureza. Quem ousava virar as costas para Seraphine Albuquerque, aprendia cedo ou tarde que nada nela se apagava. Apenas se transformava em ódio.
E agora, com a liberdade em suas mãos, essa raiva latejava como prazer perverso. Não chorava pelo que perdera, não se lamentava pelas cicatrizes invisíveis. Transformava tudo em arma. O que para outros seria dor, nela era munição.
Imaginava-o sozinho, deitado em uma cama fria, tentando se enganar de que estava em paz. Sorria ao pensar nele lutando contra fantasmas do passado, sem saber que ela ainda era o mais real de todos. Odiava-o com força suficiente para destruir, mas amava-o com intensidade suficiente para querer ser lembrada em cada respiração dele. Era essa mistura venenosa que a mantinha de pé: paixão e ódio, desejo e vingança, luxúria e sangue.
Seraphine nunca foi mulher de lágrimas. Foi feita de fogo e veneno. E agora planejava transformar cada gota de sua obsessão em veneno para envenenar o mundo de John.
Ele pagaria. Pagaria pelo divórcio, pelo desprezo, pela ousadia de erguer muralhas contra ela. Pagaria, sobretudo, por não ter se ajoelhado diante de sua ausência.
O sorriso dela era frio, mas os olhos queimavam. Havia uma fome em seu peito que não poderia ser saciada com joias, dinheiro ou amantes. Essa fome tinha rosto. Tinha nome. Tinha corpo marcado de cicatrizes e um coração que ela jurava quebrar outra vez.
John Terly podia estar em paz agora. Mas era apenas o silêncio antes da tempestade.
Porque Seraphine já havia decidido: transformaria sua dor em prazer. E seu prazer em vingança.
O portão da prisão se fechou atrás dela, e Seraphine respirou fundo o ar da noite. O frio percorreu sua pele como um amante antigo, arrepiando cada poro. Era como se o mundo inteiro tivesse esperado por aquele momento. Como se cada sombra da rua, cada clarão de poste, cada sopro do vento estivesse ali para saudá-la. Ela não era apenas uma ex-detenta em liberdade. Era uma força que voltava a caminhar sobre a terra.
Um carro preto a aguardava. Vidros escuros, motorista anônimo. Sem perguntas, sem explicações. Apenas o abrir da porta, como se dissesse: o palco é seu, rainha. Seraphine entrou, sentindo o couro macio sob a pele. Um sorriso lento se abriu em seus lábios. O poder tinha gosto, e ela já estava saboreando.
Quando o veículo parou diante do hotel cinco estrelas, Seraphine gargalhou. Não era surpresa. Era confirmação. Um império de vidro e luzes, e seu nome já estava gravado na suíte presidencial. O destino não a libertava para viver pequeno. Nunca.
Subiu pelos corredores como quem atravessa um trono dourado. O concierge a tratou com deferência, e quando entrou no quarto, o luxo a envolveu como amante conhecido: lustres, champanhe no balde de gelo, pétalas na cama, e uma banheira que a chamava como promessa de renascimento.
Despiu-se sem pressa. Mergulhou na água quente e efervescente, o cristal da taça em mãos, as bolhas estourando nos lábios. Uma gargalhada ecoou no banheiro de mármore. O som não era de alívio — era de triunfo.
Se o preço por tudo aquilo fosse o próprio corpo, ela pagaria. Pagaria com juros. Não havia moeda mais poderosa do que ela mesma, e ninguém sabia usá-la como Seraphine. Sexo era ferramenta, prazer era isca, poder era a rede. E ela estava pronta para lançar todos sobre o mundo.
Mas nada daquilo — o luxo, a liberdade, a taça de champanhe, a banheira quente — tinha sabor tão intenso quanto a lembrança de John. Ele era o centro. O coração que ela queria esmagar com os saltos de sua vingança.
Não bastava feri-lo nos negócios. Não bastava arranhar sua reputação de bilionário implacável. Isso seria fácil demais, raso demais. Ela queria destruí-lo no que ele mais protegia: no coração. Queria despedaçar o que lhe restava de humanidade. Queria arrancar a paz que ele buscava no olhar da filha.
Livy.
Seraphine murmurou o nome baixinho, entre um gole e outro de champanhe, e sorriu com os olhos semicerrados. A menina era a chave. A menina seria a ferida aberta.
Encostou a cabeça na borda da banheira, deixou a água deslizar pelo corpo, e, em sua mente, o jogo já havia começado. Não amanhã, não depois de planos elaborados. Agora.
A guerra não estava prestes a começar.
Ela já havia começado.