Capítulo 19 – A Ex-Esposa Retorna – Com olhos de vingança e sede de poder

1678 Words
A noite havia se transformado em palco de crueldade. No quarto abafado da mansão, o ar cheirava a fumaça de charuto e perfume caro, mas por trás da sofisticação havia apenas podridão. Ralf Darvem não fazia amor, não buscava prazer: ele exercia poder. Cada gesto, cada toque, era a confirmação de que o corpo à sua frente não passava de extensão da sua obsessão por controle. Seraphine não chorou, não implorou, não gritou. Isso o enfurecia e, ao mesmo tempo, o excitava. Ela apenas sorria. Um sorriso lento, venenoso, que o confundia — submissão ou provocação? Talvez ambos. Quando terminou, o juiz sentou-se na poltrona de couro, observando-a com o mesmo olhar com que avaliava uma peça de jogo. O corpo dela marcado pela noite era apenas mais uma prova de sua dominação. E, satisfeito, acariciou-lhe o rosto com a frieza de quem desliza os dedos sobre a superfície de uma arma carregada. — Amanhã — disse, a voz arrastada, carregada de gravidade — você vai até o Santuário das Borboletas. Acendeu outro charuto, tragou devagar e continuou: — Vai bancar a mãe arrependida. Tomada de saudades da filha. Vai falar com Analee. Apenas uma frase… — inclinou-se, os olhos faiscando de prazer doentio. — Algo que a faça lembrar quem manda na história dela. Seraphine assentiu, os olhos verdes faiscando na penumbra. Mas não era obediência. Era cálculo. Ela não servia a ninguém além de si mesma. Se a vingança contra John passava por interpretar o papel de mãe sofredora, faria da mentira sua melhor máscara. Por dentro, sorria. Cada vez que se submetia, não se rendia — acumulava munição. Gravava cada humilhação, cada toque frio, como se guardasse armas para uma guerra que sabia que viria. E enquanto Ralf acreditava estar no comando, Seraphine pensava apenas em John Terly. Em Livy. E em como destruir os dois, ainda que tivesse de usar o próprio inferno como trampolim. A manhã no Santuário parecia comum. O jardim exalava o perfume de jasmins recém-regados, e o canto dos pássaros misturava-se ao som das crianças brincando. Era um dia claro, mas a claridade logo seria manchada pela sombra que se aproximava. Seraphine Albuquerque atravessou os portões como quem encena uma peça perfeita. Estava impecavelmente vestida: um vestido branco simples, o cabelo solto caindo em ondas sobre os ombros, os olhos verdes emoldurados por lágrimas falsas. O figurino de uma mãe arrependida. As cuidadoras hesitaram, mas o porteiro havia sido enganado por documentos que ela exibia com mãos calculadamente trêmulas. O juiz havia aberto portas que deveriam permanecer seladas. — Vim… vim ver minha filha — murmurou, com a voz embargada, como se o coração realmente estivesse partido. Algumas mulheres ao redor se comoveram, sem saber do veneno por trás da cena. Mas quem sentiu primeiro o peso daquela presença foi Livy. A menina brincava com outras crianças perto do balanço. O ursinho estava nos braços, mas ao ouvir aquela voz, o corpo dela congelou. Os olhinhos se arregalaram, como se tivessem reconhecido um fantasma. O brinquedo escorregou de suas mãos e caiu no chão. Em um segundo, Livy correu. As pernas pequenas avançaram até encontrar o refúgio que seu coração já havia escolhido: Analee. A menina se escondeu atrás dela, agarrando sua saia com força, o rosto enterrado contra a fênix que carregava em silêncio. Foi nesse instante que Seraphine falou. — O fogo sempre deixa lembranças, não é, querida? — sussurrou, com os olhos fixos em Analee. A frase cortou o ar como lâmina. Analee estremeceu. As palavras não eram apenas aleatórias. Eram código. Eram recado. Eram a mão invisível de Ralf Darvem estendendo-se até ela, recordando-lhe que ainda estava lá fora, esperando, observando. O coração acelerou, e por um instante as cinzas do passado pareceram arder de novo em suas costas. Ela não respondeu. Mas os olhos falaram. O olhar de fênix que reconhece o perigo, que sabe que não pode se curvar, mas que ainda sente o peso das próprias cicatrizes. Seraphine, vendo Livy escondida, fingiu dor materna. Colocou a mão no peito e deixou uma lágrima escorrer, estudando cada reação, memorizando o medo da criança, o desconforto de Analee, como se tudo fosse combustível para sua vingança. O Santuário, que sempre fora abrigo, de repente parecia respirando em alerta. O ar ficou denso, pesado, carregado de lembranças que Analee passara anos tentando transformar em força. Mas agora, diante daquela mulher com olhos de víbora, ela percebeu: o passado não estava enterrado. Estava de pé, sorrindo, travestido de mãe arrependida, pronto para destruir novamente. John chegou segundos depois, guiado por um instinto que não sabia explicar. Estava indo em direção ao jardim quando a cena lhe cortou o fôlego. Seraphine. Por um instante, o sangue gelou em suas veias. O tempo pareceu suspenso: sua ex-mulher, a mulher que jurara destruir, estava diante de sua filha. O peito dele se comprimiu com uma mistura de fúria e medo. O olhar que, em reuniões de negócios, era sempre contido e calculado, agora era tempestade. Ele avançou com passos firmes, cada músculo do corpo em tensão, até alcançar Livy. A menina tremia atrás de Analee, os olhinhos arregalados, o ursinho esquecido no chão. John a puxou para os braços com firmeza, abraçando-a contra o peito como quem protege um tesouro que não poderia ser tocado. — Você não pode estar aqui. — A voz dele saiu grave, cortante, como uma sentença irrecorrível. — Existe uma medida de proteção que te proíbe de chegar perto dela. Seraphine não recuou. Pelo contrário, inclinou levemente a cabeça, os lábios pintados de vermelho se curvando em um sorriso lento, venenoso. — Só queria vê-la… ouvir sua voz… — disse, com um tom carregado de falsa doçura, como quem encena diante de um público. O veneno escorria de cada palavra, mas John não se deixou enganar. A raiva o dominou. A águia tatuada em suas costas, marcada sobre as cicatrizes do incêndio, parecia abrir asas invisíveis, rugindo em fúria, exigindo ação. — Cale-se. — Ele deu um passo à frente, os olhos duros como lâmina, a voz vibrando como trovão. — Você não é mãe. Você é ameaça. Seraphine manteve o sorriso, mas os olhos verdes faiscaram de ódio. Era como se sua máscara tivesse rachado por um segundo, revelando a fera faminta por vingança que escondia por trás do teatro. John não hesitou. Ordenou que os seguranças do Santuário a retirassem. Cada fibra do seu corpo queria fazer mais, queria acabar com aquela presença maldita ali mesmo. Mas se conteve. O corpo inteiro estava tenso, os punhos fechados como se pudesse atacar a qualquer momento. Quando o portão se fechou atrás dela, o som metálico reverberou no peito de John como uma promessa: ela voltaria. Ele sabia. Ainda com Livy agarrada em seus braços, sentiu o corpo tremer. Não de medo, mas da descarga de fúria que o percorria. A tatuagem em suas costas queimava como se estivesse viva, o gavião rugindo dentro dele, exigindo proteção a qualquer custo. Olhou para Analee por um instante. Ela estava firme, uma mão sobre o ombro de Livy, como se fosse muralha junto a ele. E nesse silêncio pesado, John compreendeu: a guerra havia começado, e ele não poderia falhar. Nem como homem. Nem como pai. O salão parecia menor, sufocado pelo peso do que havia acontecido. John ainda sentia o coração disparado contra o peito enquanto Livy se agarrava a ele como se o mundo pudesse ruir a qualquer instante. O calor da filha em seus braços era o único lembrete de que precisava manter-se de pé. Mas dentro dele, a águia rugia, selvagem, exigindo sangue, exigindo respostas. Com uma das mãos, ele afagava os cabelos da filha, tentando acalmá-la. Com a outra, puxou o celular do bolso, os dedos quase esmagando o aparelho. O número do advogado foi discado sem pensar. — Por que diabos ninguém me avisou que Seraphine estava solta?! — rugiu assim que ouviu a voz do outro lado. A fúria reverberava, cada palavra cortante como navalha. Andava de um lado para o outro, o corpo inteiro em movimento, incapaz de conter a tempestade. — Há uma medida protetiva! — continuou, o tom grave, vibrando no salão. — Ela não pode se aproximar de Livy. Nem de mim. Como isso aconteceu?! Do outro lado, o advogado engasgava em explicações esfarrapadas. Falava em “bom comportamento”, em “brechas legais”, em “influências que não puderam ser previstas”. Palavras ocas, desculpas vazias. John não quis ouvir. O sangue pulsava em seus ouvidos, abafando tudo. Desligou antes mesmo que a frase fosse concluída, jogando o celular sobre a mesa com força, como se assim pudesse esmagar a impotência que sentia. O coração batia forte, pesado. Mas não era apenas raiva. Era medo. O tipo de medo que não paralisa — que se transforma em ódio, em promessa, em guerra. Porque agora estava claro: Seraphine não estava sozinha. Alguém poderoso movia as peças. E ele já desconfiava de quem. Olhou em volta, respirando fundo, e então seu olhar encontrou Analee. Ela estava ali, firme, mesmo com o rosto abalado. Uma das mãos ainda repousava sobre o ombro de Livy, como se dissesse à menina: eu sou teu abrigo, eu não vou sair daqui. A fênix em seus olhos ardia, não em desespero, mas em força contida. Por um instante, John sentiu que não carregava o peso sozinho. A águia e a fênix, tão diferentes, tão feridas, haviam se reconhecido. E naquele silêncio compartilhado, havia uma promessa: não importa o que viesse, não enfrentariam sozinhos. Ele estreitou o abraço em Livy, sentindo o corpo frágil da filha se acalmar pouco a pouco contra o seu. Mas dentro dele, as asas da águia batiam em fúria, exigindo combate. A guerra não era mais ameaça distante. Tinha um nome, tinha um rosto, tinha inimigos que já haviam cruzado seus portões. E John, com os olhos fixos em Analee e a filha nos braços, soube que não descansaria até destruir cada um deles. A guerra tinha começado. E ele estava pronto para lutar.
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