📖 Capítulo 5 – Tour
Narrado por Helena
Assim que terminei de assinar o contrato e vesti o jaleco, o doutor Álvaro me apresentou a um rapaz sorridente que já esperava na porta.
— Essa é a doutora Helena, nossa nova clínica geral. — disse o diretor, colocando a mão no meu ombro. — E esse é o enfermeiro Mateus, vai te mostrar tudo por aqui.
Mateus parecia ter uns vinte e poucos anos. Moreno claro, cabelos cacheados bem aparados, sorriso aberto e um jeito leve de falar que imediatamente me deixou à vontade.
— Prazer, doutora. Seja bem-vinda ao caos. — ele brincou, estendendo a mão.
Apertei a dele e não consegui evitar uma risadinha.
— Obrigada. Eu já imaginava que não seria fácil.
— Fácil não é, mas vale a pena. — respondeu, guiando-me para o corredor principal. — Vem comigo, vou te mostrar o nosso “palácio”.
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Primeira parada: a sala dos médicos.
Um espaço pequeno, duas mesas abarrotadas de papéis, um armário de metal que rangia quando ele abriu a porta.
— Aqui é onde a gente se esconde quando dá tempo de respirar. — disse, jogando graça na voz. — Não se assuste com a bagunça, todo mundo promete arrumar, mas nunca acontece.
Olhei ao redor e sorri.
— Bom… já vi lugares piores.
— Isso porque você ainda não viu a copa. — ele comentou, piscando.
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Seguimos para a sala de atendimentos. Quatro macas, cortinas rasgadas servindo de divisória, paredes que precisavam de pintura urgente.
— Aqui é onde você vai passar a maior parte do tempo. Gripe, dor de barriga, corte de faca, bala perdida… tudo vem parar aqui. — ele falou de forma direta, mas sem perder o tom leve.
A última frase me fez engolir seco.
— Bala perdida?
Ele me olhou, como se fosse óbvio.
— É, doutora… bem-vinda ao morro. Às vezes não é tão “perdida” assim.
Segui em silêncio por alguns segundos, sentindo um peso estranho no peito. Mas respirei fundo. Eu sabia que a realidade seria dura, e estava pronta pra encarar.
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Descemos um corredor estreito até a urgência e emergência.
Ali o clima já era outro. O cheiro de álcool mais forte, monitores antigos apitando, enfermeiros passando de um lado pro outro.
— Esse é o coração do posto. — explicou Mateus. — Aqui é onde todo mundo corre contra o tempo. E onde você vai ver de tudo.
Observei as macas ocupadas, pacientes gemendo, alguns parentes sentados nas cadeiras de plástico esperando notícias. Era um ambiente caótico, mas ao mesmo tempo vivo.
E eu senti algo dentro de mim pulsar.
Era exatamente ali que eu queria estar.
— Tá preparada, doutora? — Mateus perguntou, com aquele sorriso curioso.
Olhei em volta, segurei firme o jaleco que ainda parecia novo no meu corpo e respondi sem hesitar:
— Mais do que nunca.
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De volta ao corredor, Mateus tentou descontrair.
— Então, doutora, você é daqui?
— Não. — respondi rápido. — Vim de outro bairro.
— Ah, imaginei. Seu jeito não engana. — ele riu. — Mas relaxa, o pessoal aqui é receptivo. Depois de um tempo, o morro também vira casa.
Sorri, tentando acreditar.
— Espero que sim.
E enquanto caminhava ao lado dele, meu coração batia forte, misturado entre ansiedade e esperança. Eu sabia que meu destino estava sendo traçado ali, naquele hospital simples encravado no morro.
E m*l podia imaginar que, em breve, minha vida iria se cruzar com a do homem mais temido daquele lugar.