5 - Helena

591 Words
📖 Capítulo 5 – Tour Narrado por Helena Assim que terminei de assinar o contrato e vesti o jaleco, o doutor Álvaro me apresentou a um rapaz sorridente que já esperava na porta. — Essa é a doutora Helena, nossa nova clínica geral. — disse o diretor, colocando a mão no meu ombro. — E esse é o enfermeiro Mateus, vai te mostrar tudo por aqui. Mateus parecia ter uns vinte e poucos anos. Moreno claro, cabelos cacheados bem aparados, sorriso aberto e um jeito leve de falar que imediatamente me deixou à vontade. — Prazer, doutora. Seja bem-vinda ao caos. — ele brincou, estendendo a mão. Apertei a dele e não consegui evitar uma risadinha. — Obrigada. Eu já imaginava que não seria fácil. — Fácil não é, mas vale a pena. — respondeu, guiando-me para o corredor principal. — Vem comigo, vou te mostrar o nosso “palácio”. ⸻ Primeira parada: a sala dos médicos. Um espaço pequeno, duas mesas abarrotadas de papéis, um armário de metal que rangia quando ele abriu a porta. — Aqui é onde a gente se esconde quando dá tempo de respirar. — disse, jogando graça na voz. — Não se assuste com a bagunça, todo mundo promete arrumar, mas nunca acontece. Olhei ao redor e sorri. — Bom… já vi lugares piores. — Isso porque você ainda não viu a copa. — ele comentou, piscando. ⸻ Seguimos para a sala de atendimentos. Quatro macas, cortinas rasgadas servindo de divisória, paredes que precisavam de pintura urgente. — Aqui é onde você vai passar a maior parte do tempo. Gripe, dor de barriga, corte de faca, bala perdida… tudo vem parar aqui. — ele falou de forma direta, mas sem perder o tom leve. A última frase me fez engolir seco. — Bala perdida? Ele me olhou, como se fosse óbvio. — É, doutora… bem-vinda ao morro. Às vezes não é tão “perdida” assim. Segui em silêncio por alguns segundos, sentindo um peso estranho no peito. Mas respirei fundo. Eu sabia que a realidade seria dura, e estava pronta pra encarar. ⸻ Descemos um corredor estreito até a urgência e emergência. Ali o clima já era outro. O cheiro de álcool mais forte, monitores antigos apitando, enfermeiros passando de um lado pro outro. — Esse é o coração do posto. — explicou Mateus. — Aqui é onde todo mundo corre contra o tempo. E onde você vai ver de tudo. Observei as macas ocupadas, pacientes gemendo, alguns parentes sentados nas cadeiras de plástico esperando notícias. Era um ambiente caótico, mas ao mesmo tempo vivo. E eu senti algo dentro de mim pulsar. Era exatamente ali que eu queria estar. — Tá preparada, doutora? — Mateus perguntou, com aquele sorriso curioso. Olhei em volta, segurei firme o jaleco que ainda parecia novo no meu corpo e respondi sem hesitar: — Mais do que nunca. ⸻ De volta ao corredor, Mateus tentou descontrair. — Então, doutora, você é daqui? — Não. — respondi rápido. — Vim de outro bairro. — Ah, imaginei. Seu jeito não engana. — ele riu. — Mas relaxa, o pessoal aqui é receptivo. Depois de um tempo, o morro também vira casa. Sorri, tentando acreditar. — Espero que sim. E enquanto caminhava ao lado dele, meu coração batia forte, misturado entre ansiedade e esperança. Eu sabia que meu destino estava sendo traçado ali, naquele hospital simples encravado no morro. E m*l podia imaginar que, em breve, minha vida iria se cruzar com a do homem mais temido daquele lugar.
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