Capítulo 02

1723 Words
Giovanni A hierarquia. O peso opressor nos meus ombros. Desde a minha infância, esse fardo me traumatiza. Saber que sou o único destinado a ocupar a cadeira do meu pai pode ser profundamente frustrante. Isso não me permite ter expectativas ou chances de sonhar. Quem teria tempo para sonhar com tantas empresas para administrar? É por isso que, desde cedo, fui moldado pelos punhos de ferro do meu pai para assumir o seu cargo. Cresci em um ambiente onde a pressão e as expectativas eram constantes. Ouvia o Sr. Fox falar sobre o legado da nossa família, sobre a importância de manter a empresa funcionando com eficiência e sucesso. Ele via em mim a continuidade dessa linhagem de liderança, e eu, por minha vez, internalizei essa responsabilidade como uma verdade incontestável. A cada passo que eu dava, sentia o peso da hierarquia sobre mim. A pressão para corresponder às expectativas era avassaladora. Os sonhos que poderiam ter florescido no meu coração foram sufocados pela necessidade de me adequar a um papel pré-determinado. O meu pai me ensinou a dureza dos negócios desde muito cedo. Ele me exigia dedicação extrema, perfeccionismo implacável e uma sede insaciável por conhecimento e aprendizado. O caminho para a cadeira do poder era íngreme e impiedoso, e eu tinha que demonstrar a minha capacidade de lidar com os desafios. Os anos se passaram, e eu me tornei um produto desse sistema de crenças. Tornei-me um líder frio e implacável, cuja única ambição era manter a empresa no topo. As emoções foram sufocadas, substituídas por estratégias e decisões calculadas. A competitividade estava no cerne do meu ser, e eu me esforçava para superar todos os obstáculos que se interpunham no meu caminho. Mas, em meio a toda essa pressão e rigidez, uma parte de mim se perguntava se haveria algo mais além da hierarquia, algo mais autêntico e significativo. Um desejo profundo de encontrar o meu próprio propósito e paixão, longe das amarras do destino preestabelecido. Contudo sabia que esta realidade estava distante, e precisava ficar sufocado, não poderia deixar o legado de anos para trás. O meu pai jamais me perdoaria. Olho pela janela e vejo a chuva caindo na Austrália. Comando as quatro empresas deixadas por meu pai, enquanto a quinta é administrada por minha mãe, a única coisa que ela manteve após o divórcio. Apesar das discordâncias entre os meus pais, sei que ela é capaz de lidar bem com os negócios. Meu pai sempre teve dificuldade em aceitar a sua partida, mas não posso julgá-lo sem antes ter perdoado a ambos. Na época, eu era apenas um menino que precisava de uma mãe presente. No entanto, prefiro deixar essas memórias do passado para trás e aproveitar o que me resta. Mesmo com uma vida agitada e repleta de belas mulheres ao meu redor, preciso viajar semanalmente entre países para supervisionar o andamento das empresas. É uma rotina exigente, mas necessária para garantir o sucesso dos empreendimentos. Apesar de todo o luxo e conforto que acompanham a minha posição, às vezes me pego pensando se essa vida é realmente o que desejo. A solidão que acompanha o sucesso muitas vezes se torna esmagadora, e uma sensação de vazio pode surgir em momentos de uma reflexão, sobre como levo a minha vida, será que é somente isso que o dinheiro pode proporcionar? Sinto que erramos a muitos anos atrás, e perdemos a maneira certa de viver. Eu não gostava de sair da minha zona de conforto e nem de mudar a minha rotina. Eu era um homem sistemático e organizado, não tinha tempo para contratempos. Mas a minha mãe precisava de férias, segundo ela, e não tinha nada que eu pudesse fazer, além de cobrir as suas férias, pois não tinha um irmão para sustentar essa carga. Meu pai tinha os seus plenos 60 anos, um homem rígido que comandava as suas empresas com mãos de ferro. Mesmo agora que sou o CEO, era nítido as suas intromissões em todo acordo que eu fechava. Ele nunca de fato se aposentou, sempre metendo o bedelho, e esse era um dos motivos que eu havia aceitado vir tomar conta da empresa da minha mãe, na Austrália, mesmo que fosse por pouco tempo, seria bom respirar longe dele. — Sr. Giovanni, chegamos. — avisa o motorista da minha mãe. — Ok, obrigado. — respondo rapidamente, sem ter tempo para ouvir a resposta, pois um dos seguranças abre a porta do esportivo. Subo as escadas do edifício da empresa da minha mãe e logo na entrada percebo o quanto ela deixa os funcionários à vontade. Risadas e o aroma do café circulam enquanto passo pela recepção principal. No elevador, ouço conversas sutis e disfarçadas. Não sei se essas pessoas sabem que sou filho da dona ou se simplesmente me acharam atraente. Mas como não me importo com isso, sigo em frente até o andar da presidência. As portas se abrem, revelando um corredor impecavelmente decorado. Quadros elegantes adornam as paredes, retratando momentos importantes da história da empresa. A cada passo, sinto o peso da responsabilidade que herdei e a pressão de manter o legado da minha mãe, tanto quanto o do meu pai. Chego à porta da sala da presidência, feita de madeira escura e com uma placa de metal polido indicando o nome da minha mãe. Respiro fundo antes de abrir a porta e entrar no espaço que era o centro de poder da empresa. A sala é espaçosa e bem iluminada, com uma vista impressionante da cidade através das janelas amplas. A decoração reflete o estilo sofisticado de Rosa com móveis elegantes e uma grande mesa de mogno no centro da sala. Ao redor da mesa, cadeiras de couro aguardam a próxima reunião. O meu olhar percorre a sala, encontrando fotografias familiares emolduradas em prateleiras. Lembro-me dos momentos felizes que compartilhamos juntos, foram poucos nas minhas lembranças, mas ela parece guardar muitos aqui. Sento-me na cadeira de couro atrás da mesa, colocando as minhas mãos sobre ela, sentindo a solidez que ela representa. Olho para a imponente cadeira do presidente, vazia agora, mas que em breve seria ocupada por mim. Respiro profundamente mais uma vez, preparando-me mentalmente para as responsabilidades que me aguardam. Cheguei cedo à empresa naquele dia, sabendo que ela logo chegaria. Avisei-a de que viria diretamente do aeroporto, e os poucos minutos de silêncio que se seguiram foram interrompidos pela entrada da minha mãe na sala. A mesma cena se repetia sempre, despertando a dor e a saudade no meu peito. A mágoa por ter sido criado por um pai tirano e mágoa dela por ter me abandonado estavam presentes, mas a saudade também se fazia presente, lembrando-me dos poucos momentos que passamos juntos. Cumprimentei Rosa, minha mãe, enquanto a indiferença transbordava no meu ser. Eu não queria que ela percebesse o quanto estava feliz em vê-la; eu queria que sentisse a minha indiferença, assim como fez ao me abandonar. Aproximei-me dela, tentando manter uma expressão neutra no rosto. — Oi, mãe. — Oi, Filho, Como foi a viagem? — A sua voz acolhedora soou ao responder. Ela não me abraça, esses contatos foram interrompidos á muitos anos, por mim. — A viagem foi tranquila, obrigado. — Estou feliz em te ver. Era exatamente o tipo de resposta que eu esperava, uma demonstração de afeto que me deixava confuso. Por um momento, a guarda que ergui para proteger o meu coração começou a enfraquecer, mas eu rapidamente a fortaleci. Não permitiria que ela visse a minha vulnerabilidade. Queria que ela sentisse o vazio que me consumia desde o seu abandono. — Que bom. — respondi automaticamente, tentando ocultar qualquer traço de emoção. — Precisamos discutir alguns assuntos relacionados à empresa. Podemos conversar mais tarde? Ela assentiu, compreendendo a frieza nas minhas palavras. Não sabia o quanto me afetava, ou talvez simplesmente não se importasse. Aquilo só reforçava a imagem de uma mãe indiferente que eu havia construído na minha mente. A saudade apertava cada vez mais o meu peito, mas eu precisava me manter firme. Era a única forma que eu conhecia para lidar com a dor que ela havia me causado. Consciente da minha postura rígida, continuei a conversa sobre assuntos profissionais, desviando o foco do que realmente importava: a reconciliação com a minha mãe. Tínhamos uma reunião marcada para o primeiro horário do dia, mas teríamos que atrasar por conta da assistente pessoal da minha mãe. Embora Rosa fosse muito boa para os outros, a sua bondade nunca havia chegado até mim, e o atraso da sua assistente já havia feito com que ela perdesse todos os poucos pontos que teria comigo. Continuamos a conversar, mas fui interrompido quando a porta se abriu, revelando uma miniatura de mulher em roupas sociais. O seu vestido chamativo acentuava as suas pernas volumosas para o seu tamanho, e o seu cabelo caía sobre os seus ombros de maneira charmosa. Não era um corte Chanel tão chique, mas ainda assim era atraente. Os meus olhos se fixaram na sua boca carnuda, pintada de vermelho, e me perdi ainda mais nos seus olhos verdes. Eu não conseguia desviar o olhar dela, sentindo a minha atenção ser atraída cada vez mais para ela enquanto se aproximava. De repente, me senti um pouco sem graça por estar tão distraído por sua aparência, mas não conseguia evitar. Enquanto a miniatura de mulher se aproximava, eu senti o meu coração acelerar um pouco. Eu não conseguia entender o porquê, pois normalmente não me sentia tão abalado por uma simples presença feminina. Talvez fosse o fato de ela ser tão confiante e segura de si, ou talvez fosse apenas a maneira como se vestia e se movia. Os meus olhos imediatamente se fixaram nos dela. Eram olhos verdes, como os meus, mas tinham uma intensidade e vivacidade que eu nunca havia visto antes. Eles brilhavam com uma luz que eu não emanava, uma alegria contagiante que me fez sentir como se pudesse sorrir, se estivesse em um ambiente diferente, apenas olhando para ela. Eu continuei olhando, hipnotizado pela beleza de seus olhos. Eles eram cristalinos, verdes como esmeraldas, e pareciam brilhar com uma vida própria. Me senti atraído para eles, como se pudesse perder-me na sua profundidade sem fim. Eles eram tão diferentes dos meus próprios olhos verdes, que eram frios e calculistas, sem vida.
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