Capítulo 2

1170 Words
Clara saiu da biblioteca naquela tarde com a sensação de que carregava algo muito maior do que um simples pedaço de papel dentro do caderno. A chuva havia diminuído, transformando-se apenas em uma garoa fina que deixava o ar fresco e o chão úmido. As árvores do campus balançavam suavemente com o vento leve, e o céu cinzento parecia espalhar uma luz tranquila sobre os prédios antigos da universidade. Ela caminhava devagar pelo caminho de pedra que levava ao dormitório estudantil. A carta estava dentro do caderno, e o caderno estava apertado contra seu peito. O nome ainda ecoava em sua mente. Sofia Almeida. Rafael tinha encontrado aquele registro no sistema da biblioteca. Uma estudante que havia passado pela universidade dezesseis anos antes. Mas aquilo não era suficiente. Clara precisava saber mais. Muito mais. Enquanto caminhava, tirou o celular do bolso e abriu o navegador. Digitou: “Sofia Almeida universidade” Apareceram dezenas de resultados. Perfis. Notícias. Pessoas com aquele nome em várias partes do mundo. Clara suspirou. — Claro… — murmurou. Era um dos sobrenomes mais comuns que existiam. Ela continuou caminhando até chegar ao dormitório. O prédio era antigo, com paredes claras e janelas largas, e naquele horário muitas estudantes estavam espalhadas pela sala comum, conversando ou assistindo televisão. Clara subiu as escadas rapidamente. Seu quarto ficava no segundo andar. Quando abriu a porta, encontrou Mariana Torres Albuquerque, sua melhor amiga e colega de quarto, deitada na cama com um pacote de biscoitos e o laptop aberto. Mariana ergueu os olhos. — Finalmente! Clara tirou os sapatos e deixou a mochila cair sobre a cadeira. — O que foi? Mariana apontou para o relógio. — Você disse que ia à biblioteca só por uma hora. Clara deu um pequeno sorriso. — Aconteceu uma coisa. Mariana imediatamente se sentou na cama. — Eu adoro quando você começa frases assim. Clara pegou o caderno e sentou-se na própria cama. — Encontrei isso. Ela tirou a carta e entregou à amiga. Mariana pegou o envelope com curiosidade. — Uma carta? — Dentro de um livro da biblioteca. Mariana abriu o envelope sem hesitar. Clara cruzou os braços. — Eu também fiz isso. Mariana começou a ler. O silêncio tomou o quarto por alguns segundos. Então Mariana arregalou os olhos. — Clara… — Eu sei. — Isso é… muito romântico. Clara inclinou a cabeça. — Romântico? — Claro! Um cara escreve uma carta de amor que nunca chegou ao destino. Ela levantou o papel. — Isso parece o começo de um filme. Clara riu. — Ou de um problema. Mariana apontou para o nome. — Sofia Almeida. Clara assentiu. — Rafael encontrou uma estudante com esse nome que estudou aqui há dezesseis anos. Mariana abriu ainda mais os olhos. — Dezesseis anos?! — Pois é. Mariana colocou a mão no peito dramaticamente. — Isso é uma missão. Clara franziu a testa. — Missão? — Sim. Ela levantou-se da cama. — Precisamos encontrar essa mulher. Clara soltou uma pequena risada. — Você está exagerando. — Não estou! Mariana começou a andar de um lado para o outro no quarto. — Imagine… alguém escreveu isso para ela e ela nunca soube. Clara ficou em silêncio por alguns segundos. Era exatamente o pensamento que não saía de sua cabeça. Mariana voltou-se para ela. — Você não quer descobrir? Clara olhou novamente para a carta. — Quero. Mariana sorriu. — Então vamos investigar. Clara ergueu uma sobrancelha. — “Investigar”? Mariana abriu o laptop. — Primeiro passo: internet. Ela começou a digitar rapidamente. — Sofia Almeida… universidade… cidade… Vários perfis apareceram. Clara aproximou-se da cama para olhar. — Tem muitas. — Eu disse. Mariana rolou a página. — Precisamos filtrar. Ela pensou por um momento. — Dezesseis anos atrás… essa Sofia provavelmente teria uns vinte anos naquela época. Clara concordou. — Então hoje teria… — Uns trinta e seis ou trinta e sete. Mariana começou a abrir alguns perfis. Algumas fotos apareceram na tela. Mulheres de diferentes idades. Diferentes cidades. Nenhuma parecia ter qualquer ligação clara com a universidade. Clara suspirou. — Isso vai ser mais difícil do que eu pensei. Mariana apoiou o queixo na mão. — Talvez o sistema da universidade tenha mais informações. Clara pensou nisso. — Rafael talvez consiga ver algo. Mariana sorriu. — Então amanhã você volta lá. Clara assentiu lentamente. Mas havia outra coisa que não saía da sua mente. — E Henrique? Mariana olhou para ela. — O cara da carta? — Sim. Clara pegou o papel novamente. — Ele escreveu isso… e depois simplesmente desapareceu. Mariana deu de ombros. — Talvez ele tenha se declarado de outra forma. Clara balançou a cabeça. — Não parece. Ela olhou novamente para as palavras. "Eu queria ter tido coragem de dizer tudo isso olhando nos seus olhos… mas não tive." Clara suspirou. — Acho que ele nunca entregou. Mariana inclinou-se para frente. — Então talvez ele também esteja por aí. Clara ficou pensativa. Era possível. Muito possível. Mas primeiro precisava encontrar Sofia. Naquela noite, Clara quase não conseguiu dormir. Deitada na cama, olhando para o teto escuro do quarto, sua mente repetia as mesmas perguntas. Quem era Sofia Almeida? Ela havia amado Henrique? Ou nunca soube que ele existia? E por que aquela carta tinha sido escondida em um livro? Quando o despertador tocou na manhã seguinte, Clara já estava acordada. Ela levantou-se rapidamente. Mariana ainda dormia profundamente. Clara pegou o caderno. A carta ainda estava ali. Esperando. Ela saiu do dormitório e caminhou novamente em direção à biblioteca. O campus estava calmo naquela hora da manhã. Alguns estudantes caminhavam apressados para as primeiras aulas, e o sol finalmente havia aparecido entre as nuvens da noite anterior. Quando Clara entrou na biblioteca, Rafael já estava no balcão. Ele levantou os olhos. — Bom dia. Clara aproximou-se. — Bom dia. Rafael percebeu imediatamente a expressão curiosa dela. — Veio continuar a investigação? Clara sorriu. — Algo assim. Ele virou o monitor um pouco para ela. — Ontem à noite eu procurei mais um pouco. Clara sentiu o coração acelerar. — Encontrou algo? Rafael assentiu. — Talvez. Ele clicou em um arquivo antigo. — Este é o registro da Sofia Almeida que estudou aqui. Clara inclinou-se para ver. Na tela havia uma foto pequena e antiga de uma jovem estudante. Cabelos escuros. Olhos gentis. Clara observou a imagem com atenção. — Essa é ela? Rafael assentiu. — Pelo menos foi aluna daqui. Clara ficou olhando para a foto por alguns segundos. Era estranho. Ver o rosto de alguém que talvez fosse a pessoa que deveria ter recebido aquela carta. — Há alguma informação de contato? Rafael rolou a página. — Apenas um endereço antigo. Clara prendeu a respiração. — Ainda existe? Rafael deu de ombros. — Não faço ideia. Clara pegou o caderno lentamente. A carta estava ali dentro. Agora existia um rosto. Um nome. E talvez… um endereço. A história estava deixando de ser um mistério distante. Estava se tornando algo real. E Clara estava cada vez mais envolvida nela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD